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A necessidade urgente de implantar a reforma estrutural fundiária na agricultura brasileira está presente nas análises de Andrade (1964) e Valverde (1964) por meio das quais, demonstram como o capital quer impor seu domínio sobre todos os modos e meios de produção. Diante do avanço do capital industrial o campesinato cria estratégias de resistências demonstrando seu protagonismo propositivo, quando fundaram as Ligas Camponesas, e, que “em 1960 já possuíam associados em 26 municípios pernambucanos da Mata, do Sertão e Agreste, alastrou-se rapidamente pela Paraíba onde surgiram grandes núcleos...” (ANDRADE, 1964, p. 248).

Ao analisar a estrutura fundiária concentradora de terras desde a época colonial visando a produção de matéria-prima para a exportação como o café e o algodão, o campesinato organizou sua resistência através do regime de mutirão e do trabalho familiar. Assim, Andrade explica como aconteceu a luta de classes pelo controle e domínio do território. De um lado os latifundiários contando com a proteção do Estado e desenvolvendo produtos para exportação, e do outro, os camponeses organizados lutando para tentar modificar a estrutura fundiária. “Ora, não é possível modificar as bases de um sistema de organização econômica e social senão mediante métodos revolucionários” (ANDRADE, 1964, p. 244).

Valverde (1964) mostra a consolidação do monopólio do capital que, ao se aliar ao Estado e aos detentores das terras, impõe a subordinação sobre o trabalho familiar camponês, inclusive com a exploração do trabalho infantil nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. A extração de mais-valia e de renda fundiária tão visada pelo capital procura manter e aumentar a estrutura de exploração e de dependência, com forte ônus sobre o campesinato, como, por exemplo, a precarização das condições laborais que afetam o bem-estar e a saúde da família camponesa.

O modelo capitalista exportador de matéria prima implantado no Brasil, segundo Valverde (1964), determina do exterior, as configurações sociais, espaciais e territoriais, por meio da divisão de trabalho favorecendo o desenvolvimento do capital,

fazendo do campesinato sua principal fonte fornecedora de mão de obra farta e barata e, produtor de gêneros alimentícios de primeira necessidade.

Martins (1981) ao discutir as origens e a formação do campesinato ressalta que a tendência do capital é a de subordinar todos os ramos e setores da produção, no campo e na cidade, na agricultura e na indústria. No capítulo V estuda a sujeição da renda da terra ao capital e o novo sentido da luta pela reforma agrária e tenta explicar que a expansão do capitalismo depende, em principio, da separação entre o capital e o trabalho. Assim, “a apropriação capitalista da terra permite justamente que o trabalho que nela se dá, o trabalho agrícola, se torne subordinado ao capital” (MARTINS, 1981, p. 162).

A subordinação do campesinato pela empresa capitalista é explicada assim por Martins a partir dos pequenos agricultores do Sul do Brasil:

Na medida em que o produtor preserva a propriedade da terra e nela trabalha sem o recurso do trabalho assalariado, utilizando unicamente o seu trabalho e o da sua família, ao mesmo tempo que cresce a sua dependência em relação ao capital, o que temos não é a sujeição formal do trabalho ao capital. O que essa relação nos indica é outra coisa, bem distinta: estamos diante da sujeição da renda da terra ao capital. Esse é o processo que se observa hoje claramente em nosso país, tanto em relação à grande propriedade, quanto em relação à propriedade familiar, de tipo camponês (MARTINS, 1981, p. 175. Grifos no original).

Esse raciocínio de Martins explica a atrelagem exercida pela indústria no Brasil como condição para a sujeição da renda da terra ao capital. O campesinato por produzir seus próprios meios de subsistência, têm condições de suportar melhor os confrontos com o capital tentando se livrar dessa atrelagem criando alternativas. Ou enfrentando o capital desenvolvendo a luta pela terra e pela Reforma Agrária no embate contra os latifundiários, os quais, históricamente, contam com o apoio do Estado.

Ao demonstrar o Estado como agente do capital, Oliveira (1981) analisa as relações agricultura-indústria no Brasil num momento histórico marcado pela luta dos trabalhadores da cidade e do campo contra o capitalismo monopolista. O fundamental para o capital é a sujeição da renda fundiária, para isso

No caso brasileiro, o capital não tem atuado na direção da separação entre capitalista e proprietário da terra. O que ocorre é a apropriação da renda da terra pelo capital, tanto na pequena propriedade quanto na grande. [...] É por isso que muitas empresas nacionais ou multinacionais (o capital não tem pátria) têm tentado se apropriar de grandes parcelas da região amazônica, assegurando para si, no mínimo, o direito de extrair renda, [...] Os conflitos pela terra, que têm graçado pelo país na última década, demonstram bem a violência com que se defrontam as diversas classes sociais em luta no seio

das contradições antagônicas que envolvem a expansão do capitalismo no campo (OLIVEIRA, 1981, p. 8).

O capital por não obedecer limites e querer sempre acumular, expande sua lógica serpenteando entre os pequenos produtores digerindo os recursos naturais locais até a exaustão. As riquezas sugadas nestes locais são transportadas para outros lugares. Assim é a lógica que atrela a avicultura à indústria subordinando, submetendo e ampliando a dependência dos camponeses produtores de tal sorte que é quase impossível se livrarem dela. Para que o campesinato não seja expulso do processo produtivo, deve aceitar produzir nas condições exigidas e na forma estabelecida pelo capital, como explica Oliveira (1981, p. 35) ao afirmar que o setor avícola “está frente a uma verdadeira transformação; de um lado agem as multinacionais, buscando a integração e, de outro, os pequenos e médios avicultores se juntando em cooperativas (com abatedouros próprios), tentando fugir da submissão total”.

Soares (1992) a partir de um estudo sobre as obras de Lênin defende a hipótese de que o processo de divisão social do trabalho é fomentador do desenvolvimento rural e urbano. No capitalismo a essência do processo de aumento simultâneo da produtividade rural e do mercado encontra-se na concorrência entre os produtores de mercadorias e na divisão social e técnica do trabalho. Por isso enfatiza que

No processo de formação de uma economia capitalista, a “descamponização” é o mecanismo básico da criação do mercado para o capitalismo. [...] Estudando o caso da Rússia, esse autor (Lênin) mostra como a decomposição do campesinato e sua transformação em proletariado e em burguesia rurais criava o mercado para o capitalismo que estava desenvolvendo-se. [...] A concorrência entre os produtores independentes, que transforma a economia mercantil em economia capitalista, cria o mercado para a produção capitalista ao produzir o enriquecimento da minoria e a ruína da massa, ao produzir a burguesia e o proletariado rurais (SOARES, 1992, 139-140).

Soares (1992) entende que a agricultura é um campo para a aplicação de capital e instrumento de rebaixamento do custo de reprodução da força de trabalho e, consequentemente, de elevação da taxa geral de lucro. Assim, a expansão do mercado para o capitalismo é obtida como o aprofundamento da divisão social do trabalho e por essa razão, a eliminação do campesinato.

As análises construídas por Andrade (1964), Valverde (1964), Martins (1981), Oliveira (1981) e Soares (1992) demonstram, cada qual com abordagem diferente, que a questão agrária é questão estrutural engendrada pelo próprio sistema

capitalista, e, por conseguinte, sua superação consiste no enfrentamento ao sistema visando superá-lo, apontando alternativas que garantam a recriação do campesinato e o desenvolvimento de seu jeito de fazer agricultura nos seus territórios.

Se o campesinato quiser construir perspectivas, com as quais obterem autonomia e independência, o enfrentamento ao capital é inexorável para tentar romper sua subsunção às leis capitalistas, numa perspectiva revolucionária, como a luta pela Reforma Agrária, de forma insubmissa à pretensão hegemônica do capital. Luta que nada tem de retorno ao passado, mas produção de perspectivas em que o campesinato se (re)cria construindo seu lugar na sociedade brasileira como produtor de alimentos. É a rebeldia do campesinato lutando pela Reforma Agrária que tentará impor limite às forças concentradorass e asfixiantes do capital, hoje denominado agronegócio.

6.2 Características, componentes e proposições do paradigma da questão agrária

Benzer Belgeler