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Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso nasceu em Fortaleza, em 29 de dezembro de 1888, filho de Antônio Felinto Barroso e Ana Dodt Barroso (sua mãe havia nascido na Alemanha). Gustavo Barroso ficara órfão da mãe aos sete dias de idade, tendo sido criado em por suas avós e tias paternas. Antônio Felinto foi tabelião e, juntamente com Capistrano de Abreu, Rocha Lima, Childerico de Faria, Frederico Borges e Araripe Jr. fundou a Academia Francesa do Ceará.166 A origem de Barroso remonta a um tradicional clã rural em pleno declínio material, que participou ativamente dos principais acontecimentos políticos do Ceará entre 1840-1880.167

Entre seus primeiros anos de estudos até a chegada na Ação Integralista Brasileira, a trajetória de Barroso coincidiu com o desenvolvimento das burocracias intelectuais: a grande imprensa, os aparelhos políticos (assembléias locais e nacionais), os aparelhos partidários (os partidos republicanos). Gustavo não teria sofrido influência de uma tradição religiosa. Seu pai era agnóstico e o colégio onde estudava era laico. De acordo com Maio, sua religiosidade só vai ser despertada quando da entrada nas fileiras da AIB, o mesmo valendo para o seu antissemitismo168, aspecto sobre o qual nos aprofundaremos mais adiante. Não tendo por objetivo relatar detalhadamente a biografia de Barroso, mencionaremos os principais caminhos tomados pelo integralista até sua chegada ao movimento integralista, fixando-se como o líder da ala antissemita mais radical.

Gustavo ansiava na sua infância por seguir carreira militar, atividade ainda mal vista pelas elites da época, em especial as decadentes. Acaba por ingressar desta forma, sob pressão de sua família, na Faculdade de Direito, em 1907, e participa ativamente da vida cultural de Fortaleza, nos três anos seguintes, fundando jornais e associações literárias. No ano de 1910, Barroso transfere-se para o Distrito Federal, onde irá concluir seus estudos na Faculdade Livre do Rio de Janeiro, conseguindo mais tarde

166 Círculo de intelectuais constituído nos anos setenta do século XIX, influenciado pelo positivismo, evolucionismo e materialismo, que questionava a cultura herdade e o sistema político vigente. MAIO, op. cit., p. 68.

167 BARROSO, Gustavo. Coração de menino. Rio de Janeiro: Getúlio M. Costa, 1939, p. 165. Citado por MAIO, Ibid., p. 68.

fazer parte do círculo intelectual do período, devido ao prestígio político obtido por seus ascendentes no Ceará. Publicará seu primeiro livro, Terra do Sol, em 1912, mesmo ano em que se filia ao Partido Republicano Conservador (PRC), no qual ficou até 1918.169 Em 1915, com apoio de Pinheiro Machado, será eleito deputado federal na bancada cearense, ocupando o cargo até 1917, quando não conseguirá se reeleger. Com o apoio de Epitácio Pessoa, então Presidente da República, será encarregado, em 1922, da criação e direção do Museu Histórico Nacional, permanecendo no cargo até 1959, com uma breve pausa entre 1930-32. Para Maio:

A criação do Museu nos anos 20 adequava-se a um dos objetivos centrais de Barroso, encontrado também em diversos intelectuais deste período: a formação de uma identidade nacional que reconhecesse no presente a ponta extrema do passado.170

Após duas tentativas, Barroso irá ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1923, exercendo posteriormente as funções de secretário e de presidente da instituição. Como explica Maio, Barroso não participará do cenário político na década de 20, voltando sua atenção para a estruturação do Museu, para as atividades na ABL e na imprensa, além de ampliar sua obra literária, com obras sobre folclore, contos e novelas.171 Em seus escritos, fica destacado o seu perfil político conservador, assumindo atitudes contrárias diante das alterações do quadro republicano. Entretanto, na segunda metade da década de 20, esse perfil sofrerá uma mudança com a aproximação de Barroso ao recém criado Partido Democrático de São Paulo, ensaiando as primeiras críticas às fragilidades da democracia liberal brasileira (partidos oligárquicos dominantes, atuação do parlamento, manipulação das eleições, etc.).

No entanto, dura pouco a relação de Barroso com a dissidência paulista representada pelo Partido Democrático. O integralista irá participar das eleições de 1930, apoiando a chapa perrepista Júlio Prestes – Vital Soares, em oposição à Aliança Liberal.172 Sofrendo derrota política após a Revolução de 30, Gustavo acabará sendo destituído da direção do Museu Histórico Nacional, situação revertida em setembro 1932 com apoio do próprio governo federal.

169 Ibid., p. 71. 170 Ibid., p .74. 171 Ibid., p. 74-75. 172 Ibid., p. 77.

No primeiro semestre de 1933, Barroso irá ingressar na AIB, fato relacionado a um conjunto de preocupações ligadas à identidade nacional e às instituições da República, que fomentava a militância de parcela ponderada dos intelectuais dos anos 20 e 30.173 Gustavo Barroso se tornará, ao lado de Plínio Salgado e Miguel Reale, um dos principais ideólogos da AIB, sendo considerado o segundo na cadeia de comando do movimento, atrás apenas de Salgado. Durante o 1º Congresso Integralista em 1934, realizado em Vitória, Barroso será encarregado do comando da milícia, estruturada, como explica Hélgio Trindade, da seguinte maneira:

(...) a milícia se organiza em quatro seções: a primeira seção ocupa-se da correspondência, controle da organização (estatística, efetivo, disciplina) e justiça (inquéritos e promoções); a segunda seção, do serviço de informações; a terceira seção, da instrução militar e elaboração dos planos de operações militares; a quarta seção, do setor de material e serviços. Portanto, a função da Milícia não é apenas a de preparar os integralistas para os desfiles a e cultura física, mas desenvolver um verdadeiro treinamento militar, desde a instrução de

técnica, tática e moral até a elaboração de planos de combate. Aliás, a

instrução militar é compatível com as cinco armas militares que constituem a tropa integralista: infantaria, cavalaria, engenharia, artilharia e aviação.174

De acordo com Trindade, esta estrutura miliciana será transplantada, em 1936, para a organização da juventude (os “Plinianos”), quando o Departamento da Milícia transforma-se em Secretaria da Educação.175 Ao lado das atividades paramilitares desenvolvem-se atividades esportivas, cívicas e de mobilização eleitoral. Maio entende que o ingresso de Barroso como comandante da milícia vinha ao encontro de seu perfil, em primeiro lugar pelo caráter militar da organização. Em segundo lugar, pelo ideal de mobilização, um dos aspectos mais importantes que informavam a pedagogia da milícia e que se identificava com a proposta de revolução integral de Barroso.

Ao assumir o Comando das Milícias, a militância de Barroso ganhou uma nova dimensão. Até então, sua atuação se restringia à contribuição para os fundamentos teóricos do movimento e às conferências que pronunciava. A partir do Congresso de Vitória, Barroso deixou de ser somente o ideólogo e o propagandista para ser, também, uma liderança política em íntima vinculação com as bases

173 Ibid., p. 79. 174

TRINDADE, op. cit., p. 187. 175 Ibid., p. 187.

integralistas. Este novo quadro teve importantes implicações em pelo menos dois sentidos que se completam: na crescente competição com Plínio Salgado pela liderança do movimento e na radicalização de sua visão antissemita.176

Benzer Belgeler