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Por trás de uma “memória de lutas”: a elaboração e os usos políticos de “As lutas do povo do Borel”

O objetivo deste capítulo é analisar o processo de elaboração de “As lutas do povo do Borel”, quais os grupos envolvidos nesse processo, bem como seus interesses, projetos, espaços de atuação e possíveis interpretações acerca dos significados presentes nesse discurso de memória. Desse modo, será abordada a trajetória da livraria Muro, bem como os responsáveis pelo seu surgimento e sua ligação com o PCB. Serão, igualmente, retratados os demais grupos de oposição à ditadura atuantes no Borel e o convívio entre eles. Por último, será relatado como ocorreu o processo editorial que deu origem ao livro de Manoel Gomes, além dos interesses por trás da iniciativa.

Em maio de 1981, foi enviada uma denúncia anônima, através de uma carta, ao delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). O conteúdo da correspondência tinha como foco alertar “diversas irregularidades que vêm acontecendo na União dos Moradores do Morro do Borel” (Fundo Polícia Política/APERJ, pasta 279- J, folha 501). O estopim que motivou a denúncia teria sido o lançamento do livro “As lutas do povo do Borel”, de autoria de Manoel Gomes, um ex-morador do local, “militar reformado e de tendências vermelhas”, conforme reportado pela missiva.

A carta faz referência à necessidade de que se investiguem as eleições para a diretoria da UMMB, que se realizariam no dia 24 de maio daquele ano (o lançamento de “As lutas” ocorreu no dia 10 do mesmo mês). O objeto de preocupação do denunciante seria a relação de uma das chapas concorrentes com (idem)

“vários políticos de esquerda (...) um grupo de moças e rapazes que andam fazendo distribuição no morro do jornal Hora do Povo (...). Quero alertar vossa excelência sobre o perigo que vai representar para aquele povo tão sofrido se esta chapa for a vencedora, pois vão transformar a UMMB em escritório político desses vermelhos antinacionalistas”.

146 O PCB possui uma tradição de atuação junto a moradores de favelas na Tijuca desde a década de 1940, quando forneceu auxílio a este grupo no tocante à questão de posse de terra e direito à permanência em seus locais de moradia, a exemplo das favelas do Salgueiro e do Turano (FISCHER, 2008). Quase quarenta anos depois após esses episódios, é possível notar a existência de outros grupos de esquerda na favela do Borel, conforme menção ao jornal Hora do Povo, distribuído pelo Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) (CAMURÇA & REIS FILHO, 2007). É sabido que a Ação Popular (AP) também atuou no local, não se descartando a existência de outros grupos de esquerda na favela. Todos esses atores exerceram sua militância em um período de abertura política, ao final do governo militar, possuindo concepções e projetos específicos sobre o movimento associativo e comunitário. Suas relações eram marcadas por certa concorrência, ainda que não de forma explícita e estritamente conflituosa.

O livro de Manoel Gomes se tornou um “lugar de memória” para os moradores do Borel, embora seu significado difira de acordo com os grupos locais, e como tal, está sujeito a diversas formas de instrumentalização política. Mesmo tendo sido lançado por uma editora do Partido Comunista, sua elaboração possuiu participação de militantes da AP, uma delas tendo sido responsável pela datilografia dos originais antes que fossem levados para a editora. O próprio grupo ligado ao MR-8 apresenta sua forma própria de se apropriar do discurso de Gomes, com tonalidades mais críticas, tendo em vista a visão predominante de militantes do PCB no depoimento no qual se constitui a obra.

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A livraria Muro

Segundo a memória de um ex-militante do PCB, a livraria Muro teria sido fundada a partir de um grupo, ligado ao Partido, que atuava na área cultural no bairro da Tijuca desde meados dos anos 1970. Esse foi um período de reorganização da atuação de base dos movimentos de oposição à ditadura, após o desmantelamento dos grupos que optaram pela luta armada e o exílio de diversas lideranças de relevância nesse cenário131 (depoimento de Márcio Arnaldo, 15/08/2009):

“Então o Rui, o Aloísio e o Tinoco se juntaram, já eram... Se tornaram sócios da Muro Ipanema e se juntaram pra abrir a Muro Tijuca. O Tinoco era do Cineclube Glauber Rocha, o Aloísio Leite era da cinemateca do MAM e era nosso amigo do Cineclube Glauber Rocha132 (...) e o Rui nós conhecemos

naquele momento. Então nós dissemos: “(...) a Muro, ela pode dar um novo status, um status empresarial a um trabalho político”.

A matriz da livraria e editora surgiu em 1975 no bairro de Ipanema, criada pelo empresário e atual dono da rede de livrarias Travessa, Rui Campos133. A filial tijucana é criada posteriormente (idem):

“A filial da Tijuca foi o Tinoco, junto com o Aloísio Leite e um outro companheiro que morreu também, o Pestana, Paulo Pestana, e eles, então, o Tinoco entrou com a parte principal do dinheiro, né?, o Tinoco e a família dele lá. Eles tinham algumas posses e tal, e eles então abriram essa empresa num prédio, na galeria ali do lado do Palheta (...). Lá era a Muro Tijuca. (...) Isso foi em 1979, talvez”.

131 É preciso levar em conta que essa reorganização teve como pano de fundo, no escopo mais amplo da

política nacional, a abertura política iniciada no governo de Ernesto Geisel (1974-1979) e aprofundada no governo de João Baptista Figueiredo (1979-1985). A Lei da Anistia, aprovada pelo congresso nacional, significou a reintegração à vida social e política brasileira de milhares de exilados, presos políticos ou demais indivíduos que se encontravam na clandestinidade, à exceção dos que foram considerados “culpados por atos de terrorismo”, os quais não representavam um número considerável quando da aplicação da lei. Também foram restabelecidos os direitos políticos para aqueles que os perderam devido aos Atos Institucionais. Desse modo, figuras como Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes, além de diversos outros que retornaram do exílio, passaram a figurar novamente no fazer político do período. Durante o final dos anos 1970, além do retorno de atores políticos à cena com a Anistia, também se percebe um quadro de menos restrições à imprensa, embora esta ainda pudesse sofrer pressões, ameaças e até violências ocasionais. Esses elementos são alguns dos que revelam uma maior abertura do sistema política brasileiro desde 1968 (SKIDMORE, 1988).

132 Glauber Rocha foi um dos diversos cineclubes que existiram na Tijuca e em seus arredores nesse

período, muitos ligados a simpatizantes ou militantes de grupos de oposição à ditadura. Seu papel será discutido posteriormente.

133 O próprio empresário caracteriza a Muro como o princípio de sua atuação no mercado de livros,

148 Sua localização se dá ao lado do tradicional Café Palheta, no coração da praça Sáenz Peña, um dos principais pontos do bairro e possuidora de uma aura de efervescência cultural, devido aos inúmeros cinemas que lá existiram, e que lhe fizeram valer o apelido de “a Cinelândia da Tijuca”, a partir da década de 1940 (CARDOSO, VAZ, ALBERNAZ, AIZEN & PECHMAN, 1984: 115).

O contexto do advento da Muro é marcado por uma conjuntura específica relativa ao mercado editorial brasileiro. Nesse período, vemos o despontar de livros de denúncia à tortura e à repressão política do regime militar, inserido em um panorama de retomada da ação política após o declínio da luta armada. Assim, há uma reorganização do campo da esquerda na luta pelas liberdades democráticas, na qual se insere um movimento cultural e editorial com a revitalização de editores de perfil político e de oposição ao governo militar. Desse modo, o que Flamarion Maués define como “literatura política” (MAUÉS, 2009: 4) ganha força a partir de 1977 e 1978, em um cenário no qual se pode destacar o retorno à cena do movimento sindical e estudantil, as greves do ABC e a campanha pela anistia. Com isso, ganham força as “editoras de oposição”, definidas como aquelas que (idem, ibidem)

“tinham perfil nitidamente político e ideológico de oposição ao governo militar, com reflexos diretos em sua linha editorial e nos títulos publicados (...) a marca distintiva de uma editora de oposição é o fato de ela ter perfil de oposição ao governo militar e ter publicado certo número de livros de oposição. Um número suficiente, na produção daquela editora, para que fique claro que aqueles livros representavam parcela importante da produção da empresa. Disso resulta que os diferenciais básicos para se saber se uma editora pode ser chamada de editora de oposição são o perfil político e ideológico da editora, determinado pelas simpatias, filiação política de seus proprietários e/ou editores, e o seu catálogo de livros publicados”.

É válido ressaltar que essas editoras apresentavam um perfil variado, sendo algumas mais socialistas, reformistas ou liberais, e não necessariamente ligadas a uma

149 visão mais à esquerda, marxista e de oposição aguerrida134 (idibidem).

A Muro pode ser enquadrada no grupo de editoras caracterizado por Maués. Seus envolvidos aqui entrevistados eram militantes do partido comunista, e tiveram envolvimento de graus diferenciados ao longo da existência da filial da Tijuca. O já referido Márcio Arnaldo chegou a ser gerente da loja da Tijuca durante o ano de 1981. Além dele, também foram tomados depoimentos de Armando Sampaio e Wilton Chaves. Todos eram frequentadores da livraria, militavam no PCB nos anos 1970 e 1980 e moraram na Tijuca nesse período. Outro ponto comum entre eles, que caracterizava demais integrantes da Muro Tijuca, é o envolvimento com o bairro. Os entrevistados chegaram a residir na praça Afonso Pena, ou em suas proximidades, e a tinham como um espaço de sociabilidade no qual se discutiam teses de esquerda, com participação de integrantes do Partido Comunista: “(...) na praça Afonso Pena, que a gente depois veio a chamar de “Praça Vermelha”, porque tinha tanta gente do partido (se referindo ao Partido Comunista) lá que a gente brincava falando assim” (depoimento de Armando Sampaio, 21/09/2009).

Portanto, surge a perspectiva de fundar uma “livraria/editora” na qual “a ideia já era criar uma estrutura empresarial pra propiciar a edição de livros” (depoimento de Márcio Arnaldo, 15/08/2009). Objetivou-se, igualmente, criar um espaço de atividades culturais, sempre ligadas às ideias de esquerda e de oposição ao regime, com a finalidade de estimular o debate intelectual e proporcionar um local de encontro entre pessoas que simpatizavam com essa visão, não sendo necessariamente militantes do Partido Comunista (idem):

“(...) a gente pegava os intelectuais, assim, reconhecidos na época, o Leandro

134 Dentro desse universo, podemos destacar as seguintes editoras: Alfa-Ômega, Global, Brasil Debates,

Ciências Humanas, Kairós, Codecri, Veja, Livramento, entre outras. A partir de meados de 1970, também podemos destacar o fato de editoras de maior tradição, como a Vozes, a Paz e Terra, a Civilização Brasileira e a Brasiliense também passarem a dar maior destaque a publicações de crítica ao regime de 1964 (idem: 3-4).

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Konder, aí fazia um curso sobre Marxismo e Arte, o Carlos Nélson Coutinho, fazia um curso sobre democracia, marxismo e democracia (...). Também passava lá, quando queria algum contato, perdeu o contato, perdeu o ponto, não sei o quê, a gente vivia na clandestinidade, né?, mas já estava menos... A repressão já era menor”.

A função de sociabilidade não se restringia à filial tijucana: “A Muro tinhas duas lojas no mesmo espaço ali na Visconde de Pirajá, era uma livraria pra atender o público infantil, chamada Murinho, e tinha carteira de sócio, meu filho foi sócio” (depoimento de Wilton Chaves, 10/08/2009). É interessante observar que a criação de um espaço voltado para o público infantil revela um esforço de maior envolvimento da família dos frequentadores. Afinal, com essa iniciativa, eles levariam seus filhos à livraria cientes de que haveria um local para o entretenimento deles. Essa proposta levanta uma série de possibilidades, dentre as quais gostaria de destacar duas. A primeira refere-se a um esforço de consolidação de um público frequentador, gerando possibilidades de continuidade do projeto da Muro. A segunda pode ser relacionada ao caráter de “oposição democrática” que passa a predominar entre o perfil dos que contestavam o regime militar, após meados dos anos 1970 e do desmantelamento dos grupos armados de esquerda, uma vez que o perfil do “pai de família” que leva seu filho a uma livraria, ainda que, nesse caso, impregnada de um significado político oposicionista, não condiz com o guerrilheiro disposto a arriscar sua vida pelas “liberdades democráticas”.

Com relação ao Partido Comunista Brasileiro, agremiação partidária à qual pertenciam os envolvidos com a Muro, gostaria de fazer algumas considerações sobre as transformações pelas quais passou a partir da década de 1970, sobretudo. Desde 1968, é possível observar um contexto de crise no bloco socialista, tendo como exemplos concretos invasões na Tchecoslováquia, rebeliões na Polônia, culminando na queda do Muro de Berlin e no fim do chamado “socialismo real”, em 1989. Esse panorama acabou por afetar os partidos comunistas presentes nos países capitalistas, que passaram

151 a buscar alternativas de renovação e possíveis “terceiras vias”, a exemplo do “eurocomunismo” (PANDOLFI, 1995).

No caso do Brasil, é preciso que se contextualize essa perspectiva em relação ao quadro político relacionado às eleições de 1974. Nesse pleito135, o resultado favorável às articulações oposicionistas em torno do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) foi considerado pela direção do Partido Comunista como confirmação do “acerto” das resoluções aprovadas em seu VI Congresso, em 1967, que estabelecia o direcionamento de buscar a queda do regime vigente pelo caminho institucional e legal. Desse modo, a opção pela luta armada era tida como uma “aventura” sem embasamento histórico e à margem das massas, conforme observado por Dulce Pandolfi (idem: 209).

No entanto, surge uma corrente crítica em relação à postura adotada pelo Partido. Para esses críticos, dentre os quais se incluíam o próprio Prestes, o apoio à oposição institucional/legal ao regime militar, representada pelo MDB, seria uma aceitação do sistema político então adotado no Brasil, sem que houvesse uma diferenciação mais sólida das oposições ditas liberais, e deveria ser abandonada por uma posição mais combativa. Assim, vemos surgir uma divisão interna, algo comum ao longo da história do PCB. À ala combativa se opunha uma corrente renovadora, influenciada pelas ideias do Partido Comunista Italiano, que discordava da noção de “etapismo”, na qual a democracia é vista como um degrau necessário para a revolução. Para este grupo, os valores democráticos seriam universais e deveriam estar em um primeiro plano em projetos de reconstrução social (ibidem: 215-216).

Com relação aos envolvidos com a Muro, podemos utilizar como exemplo o caso de Márcio Arnaldo. Em um primeiro momento, ao ser questionado se era partidário de alguma das cisões citadas dentro do Partido, assim como os demais articuladores da

152 livraria e editora, ele responde: “Não, especificamente, não, nós éramos do Partido Comunista”. No entanto, ao mencionar as influências que levaram à criação da Muro, explica: “Nós éramos inspirados pelo partido italiano, né?, que tinha livrarias, editoras, não sei o quê, nós dissemos: ‘Vamos criar em cima da cultura até uma possibilidade empresarial para o Partido se financiar’”136 (depoimento de Márcio Arnaldo, 15/08/2009).

Conforme observado anteriormente, os primeiros anos de 1970 foram um período crítico para a oposição ao regime militar. A fase de maior recrudescimento do autoritarismo do regime resultou em uma série de “desaparecimentos políticos”, além do exílio de lideranças importantes, que afetaram não apenas a resistência armada, mas o próprio Partido Comunista. O secretário geral Luís Carlos Prestes encontrava-se exilado desde o final dos anos 1960 na então União Soviética. Os banimentos, incluindo o de Prestes, e os “desaparecimentos” acabaram contribuindo para que se abrisse caminho à ascensão de novas lideranças dentro da agremiação, algumas com ideias comuns à chamada corrente renovadora, influenciada pelo Partido Comunista Italiano e por pensadores como Palmiro Togliatti (PANDOLFI, 1995)137. Ou seja, os fatos desse período revelam uma necessidade de recomposição de quadros, e uma nova geração passa a atuar nos cargos de direção e de militância de base, convivendo com militantes mais antigos.

Segundo Márcio Arnaldo, “entre 1972 e 1980, o partido cresceu muito na

136 O Partido Comunista Italiano foi uma referência sobre as mudanças na cultura comunista observadas a

partir da década de 1970 e o debate acerca da questão democrática. Em 1990, ele abandona a denominação “Partido Comunista”, assim como o tradicional símbolo da foice e do martelo, o mesmo acontecendo no Brasil em 1992. No entanto, é válido ressaltar que, no caso brasileiro, a crise pela qual passava o socialismo não explicava, por si só, a transformação do PCB no Partido Popular Socialista (PPS),processo que envolveu uma série de conflitos e tensões em torno da herança de um passado ligado à cultura comunista (PANDOLFI, 1995).

137 Togliatti foi um dos principais nomes dentro do debate sobre a questão democrática, influenciando os

críticos brasileiros da “visão etapista” de revolução (idem). Seu livro “Socialismo e Democracia” chegou a ser editado pela Muro em 1980.

153 Tijuca”138, em um contexto no qual “a Tijuca tinha sido uma ilha de onde a reestruturação do partido, né?, da ideia de uma frente de trabalho cultural ocorreu” (depoimento de Márcio Arnaldo, 15/08/2009). A afirmação do bairro como uma “ilha de reestruturação” deve ser interpretada à luz da conjuntura mencionada a respeito do início da década de 1970139. Esse novo grupo, entre os quais se inserem meus entrevistados, começou sua atuação e militância no final da década de 1960, e tinha como características iniciativas ligadas ao campo da cultura140. Duas delas foram fundamentais para o surgimento da Muro, o cineclube Glauber Rocha141 e a Associação Pró-Teatro da Tijuca (depoimento de Márcio Arnaldo, 15/08/2009):

“Então, nós criamos o cineclube e ele inicialmente funcionou, assim, na casa de um, de outro, na casa do deputado Délio dos Santos (...). E, aí, saía nos jornais, os jornais que a gente botava, no JB, no Globo, né?, “sessão extra! Cineclube Glauber Rocha, endereço tal na Rua Haddock Lobo (...) e tínhamos um bom afluxo de pessoas, passávamos filmes, que normalmente não passavam... Filmes bons que normalmente não passavam no circuito. (...) Depois, surpreendentemente, talvez já com o dedinho da repressão, nunca soubemos, um dia nós chegamos lá e nos disseram que não íamos mais funcionar lá, porque a igreja não... E aí ficamos na rua, e acabamos encontrando a Igreja de São Francisco Xavier (...). E criamos então o grupo que tocou... Que fundou a chamada Associação Pró-Teatro da Tijuca, cuja sigla era APTT, e com esse nome ficou conhecida. Aí na área da Tijuca o Partido Comunista tinha duas frentes de trabalho, uma de teatro, que era a APTT, e uma de cinema, que era o Cineclube. Então, a livraria Muro, ela serviria como uma abertura, num outro nível, como uma superação daquelas entidades, que eram entidades de certa forma precárias, a livraria Muro, ela tinha uma legalidade comercial, empresarial etc. E era uma respeitável livraria, reconhecida na cidade inteira.”

138 No entanto, mais uma vez gostaria de lembrar que o PCB já possuía uma tradição anterior de atuação

no bairro, inclusive com entrada em favelas.

139 Algo interessante de se observar é o envolvimento familiar dos entrevistados para essa pesquisa com o

Partido. Armando Sampaio é filho do militante Sampaio Netto; Antônio Werneck, médico que atuou no Borel até o final da década de 1970, é sobrinho de Moacir Werneck; Mirian Gonçalves, moradora do Borel, é filha do militante José Emídio Gonçalves, o “Boneco”, filiado ao PCB e um dos fundadores da UTF; e Felipe Villas Boas, militante de base que também atuou no Borel, teve seu pai e irmão mais velho como filiados.

140 É preciso mencionar que isso não chega a ser uma novidade, conforme mostra o envolvimento anterior

do PCB com algumas escolas de samba (GUIMARÃES, 2009). A diferença, nesse caso, é o contexto histórico da cisão do PCB na década de 1970 e a influência do PCI.

141 Os cineclubes se constituíram, entre os anos 1970 e 1980, como um importante fórum de ações

político-culturais de crítica à ditadura militar. Podemos destacar os seguintes cineclubes do período: Leme, Barravento, Dinafilmes, Grande Otelo, dentre outros. Para um debate mais aprofundado sobre o assunto, ver MATELA, 2007.

154 É interessante notar a visão de Márcio Arnaldo de atentar para a “legalidade comercial e empresarial” que caracterizaria a Muro, em consonância com sua

Benzer Belgeler