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O aprofundamento nas pesquisas sobre a circulação das drogas e dos mecanismos regulatórios criados e instituídos ao longo do século XX sugere convergência nas conclusões que apontam para o cenário de construção do paradigma proibicionista capitaneado pela ascensão dos EUA como potência hegemônica internacional, implicando em desdobramentos nas agendas internas de grande parte dos países ao redor do mundo. Autores como McCallister (2000), Escohotado (2005), Rodrigues (2004), Karam (2009), Lima (2009) e Silva (2013), apontam esta relação e convergem sobre o papel dos EUA nas relações internacionais no tocante às drogas. Os pesquisadores destacam, ainda, que a formação do arcabouço jurídico regulatório está assentada ao longo das diferentes e diversas convenções internacionais sobre a temática, que ajudaram a compor não somente as instituições conformadoras do paradigma proibicionista em termos legais e formais, como também os entendimentos explícitos e implícitos sobre a formação de hábitos e cultura de consumo de drogas. Em termos de constituição legal, devem ser reconhecidos traços deste arcabouço complexo que se traduz no proibicionismo ao longo de todo o século XX. A formação do que hoje é intitulado paradigma proibicionista se deu na conformação de entendimentos e interesses cristalizados em processos de institucionalização de dispositivos internacionais, conduzidos sob o condão dos EUA e aliados. Iniciado em Xangai, em 1909, este processo consolidou-se em Haia, em 1912, e foi sendo moldado segundo interesses principalmente geopolíticos e comerciais, tendo sido de significância modeladora final as conferências de 1961, Convenção Única sobre Entorpecentes, seguida pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971; e a Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas, de 1988. No plano de formação dos processos regulatórios em nível internacional, estes episódios jurídico-político-institucionais têm papel destacado.

Embora a consideração dessas conferências na formatação do proibicionismo mundial sobre as drogas seja amiúde lembrada, não se pode esperar que o simples arranjo formal das instituições e atores, por mais amplamente acordado que possa ter sido (e nunca o foi consensualmente), seja suficiente para dar cabo de toda explicação necessária ao entendimento de como se concretizou este paradigma proibicionista. Se tomarmos como veio basal a própria noção de paradigma, resta entender que o mesmo somente se concretizou mediante um misto de condições e condicionantes. Entre outros fatores, em

sua origem no início do século passado, havia um cenário de conjunção entre a radicalização política do puritanismo estadunidense, o interesse da nascente indústria médico-farmacêutica pela monopolização da produção de drogas, os novos conflitos geopolíticos do século XX e a necessidade de respostas sanitárias organizadoras da desordem urbana (FIORE, 2012).

A formatação do paradigma proibicionista deveu-se, em parte, à forja dos elementos definidores da noção de potencial de abuso e de uso medicinal das drogas. Arbitrariamente, as substâncias, em especial as psicoativas, foram sendo seccionadas em limites com significados atribuídos entre legal/positivo e ilegal/negativo. A construção deste paradigma definiu como ilícito e penalizável o trato de, basicamente, três conjuntos de substâncias/plantas: a papoula e derivados – ópio e heroína; a coca e derivados – cocaína e, subsidiariamente, crack; e a cannabis e seus produtos principais, maconha e haxixe (ESCOHOTADO, 2005). Estas substâncias concentram a essência dos esforços regulatórios e proibitivos do paradigma mundial reinante no trato e relação com as drogas. A divisão, secção e categorização destas substâncias ilícitas as definiriam como de potencial de abuso e sem uso medicinal reconhecido. Outras substâncias, como anfetaminas e estimulantes, embora tivessem também o potencial de abuso identificado e definido cientificamente, figuraram nas listas de drogas com potenciais medicamentosos e, portanto, nos limites da legalidade regulatória. Consolidado, este modelo implicaria não somente nas estruturas e marcos jurídicos de proibição, mas também na formação do imaginário social, na cultura de uso e nos conhecimentos a respeitos das drogas.

No que tange à identificação de tensões que o modelo proibitivo na regulação de circulação das drogas pode acarretar, cumpre destacar o papel do Estado nesta regulação. De maneira simplificada, poder-se-ia afirmar que este papel, no contexto do moderno Estado Democrático de Direito, define-se mais em termos de ser o garantidor e protetor das possibilidades do exercício da autonomia e vivência da liberdade, do que um interventor e repressor dos corpos, subjetividades e exercício de biopoder. Entre as bases sustentadoras do nascimento do sujeito moderno estão, não esqueçamos, suas possibilidades de autogoverno e autodeterminação. O triunfo da capacidade racional sobre o governo de si figura no seio deste projeto de sujeito moderno. Por isso a tensão presente e inerente à interferência do Estado na formatação do proibicionismo sobre as drogas. Se o uso ou o abuso delas, embora reconhecidamente com potencial de fazer

abalar o “discernimento sobre a razão”, for considerado como manifestação de estrita esfera de manifestação íntima, poderia se falar que ao Estado caberia garantir e resguardar o exercício desta condição subjetiva. Não somente porque a potencial aquisição de padrões de abuso é essencialmente singular e privativa, o que rechaçaria idealmente qualquer proposta interventiva a priori, mas principalmente pela real condição de desassistência a que o usuário se torna submetido, em consequência póstuma do aparato proibitivo e disciplinador. Estes argumentos passaram a ressoar de forma mais veemente na última década ao redor do mundo.

Em consequência dessas tensões observadas, compreende-se que o proibicionismo em relação às drogas tenha se edificado sobre certos princípios e premissas flagrantemente em choque com o reconhecimento e a proteção de direitos subjetivos construídos no advento da Modernidade. A garantia do exercício do princípio de liberdade e livre dispor, tão caros à construção de um projeto de sujeito moderno, se encontra em direta rivalidade e cerceamento pela imposição do paradigma proibicionista exercido pelo controle do Estado. Para Fiore (2012), o proibicionismo se assenta em duas premissas básicas fundamentais: primeiro, a ideia de nocividade a priori e da desnecessidade essencial do uso das drogas psicoativas ilícitas; e em segundo lugar, coadunada à premissa inicial, a legitimidade do Estado em atuar repressivamente sobre a produção, os produtores e os consumidores, uma vez que o uso de psicoativos regulados, além de ilícito, dentro da lógica proibicionista, se tornaria também ilegítimo. Caberia ao Estado, portanto, o poder e o dever de intervir proibitivamente, criminalizando a circulação e o consumo das substâncias controladas.

As consequências do paradigma proibicionista figuram fortemente entre os argumentos questionadores deste modelo de regulação. O primeiro e mais evidente destes argumentos aponta para a constatação do efeito não apenas pífio, mas até mesmo contraproducente, sobre o número de usuários de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, em todo o mundo. O século da proibição e repressão à circulação das drogas foi também o século de explosão no número de usuários e no volume de circulação. Não obstante a inquestionabilidade deste argumento ruidoso, as consequências negativas não param por aí. O proibicionismo fomentou também toda uma rede paralela e clandestina de circulação de drogas, impactando na procedência e qualidade das drogas, provocando corrupta porosidade nos agentes e instituições de vigilância e repressão, além de instituir um véu social, moral e até epistemológico sobre o assunto, denegando

informações e esclarecimentos fundamentais a qualquer resposta adaptativa esclarecedora.

Caberia ainda mencionar que a produção e o consumo de drogas, tornados clandestinos porque ilegais, impactam também e diretamente, em toda cadeia produtiva, acerca de condições de trabalho desregulamentadas; em processos produtivos insustentáveis ambientalmente e em exploração do trabalho precoce e penoso. Isto tudo sem pretender imaginar ser necessário citar a violência, direta e indireta (assemelhada a verdadeiros estados de exceção permanentes), que o modelo de proibição de certas drogas psicoativas ocasiona em todo o mundo, e no Brasil, em particular. Entre os elementos que sugerem que as relações entre proibição/repressão e violência podem ser diretamente proporcionais, não se pode deixar de notar o fato de que, proporcionalmente, a maioria dos países europeus com relativa tolerância (ao menos penal) sobre certos tipos de usos de drogas, apresentam, não obstante, índices muito menores de relação direta entre violência, mortes e uso de drogas, quando comparadas ao Brasil, por exemplo. Sem querer minimizar o (não apenas literal) oceano de diferenças que nos separa da cultura e sociedade dos países europeus desenvolvidos socioeconomicamente, e considerando os altos percentis de usuários em meio à população europeia geral, este fato, por si, é também significativo e sinalizador de que os efeitos colaterais do paradigma proibicionista vão muito além do suposto e esperado impacto sobre a quantidade desses usuários. Na prática, hoje começa a ser formatado um entendimento de que o resultado do proibicionismo se resume em um século de atraso sobre a relação dos sujeitos e das sociedades modernas no trato com as drogas, que agora passam a receber atenção mais acurada e mais próxima aos reais desafios e necessidades que a questão implica.

Outro elemento fortemente analisável entre as consequências do paradigma proibicionista reinante na questão das drogas refere-se ao encarceramento maciço e crescente de parcela cada vez maior de comerciantes de drogas, em geral figurantes no pequeno “varejo” do imenso e altamente lucrativo mercado de drogas ilícitas. Os países mais severos no tocante à penalização de usuários e traficantes de drogas viram seus sistemas penitenciários inflacionarem o número de encarcerados, no mesmo diapasão do endurecimento e aplicação de penas. No Brasil, há relativa fartura de dados disponíveis,

entre os quais podem ser citados os números oficiais do Ministério da Justiça14 e

trabalhos como os de Fiore (2012), Jesus (2011) e Rodrigues (2009), entre outros. Em geral, as análises dos autores sobre as consequências do proibicionismo aos sistemas carcerários apontam para um agravamento das condições de sustentação do sistema, no qual parece haver a combinação de crescimento vertiginoso dos encarceramentos, baixa resolutividade no que tange à ressocialização, e, no caso específico do Brasil, um componente claramente seletivo em termos socioeconômicos. Há muito que se tem reconhecido que os encarceramentos frutos da aplicação das sanções penais para tráfico e/ou uso de drogas possuem incidência marcadamente específica. As fronteiras entre uma e outra tipificação, tráfico ou uso, mesmo (ou talvez principalmente) após a promulgação da Lei 11.343, compõem uma das muitas “zonas cinzas” no campo das drogas. O fato irrefutável de que as prisões incidem muito majoritariamente sobre camadas específicas da população adulta (jovens, baixas renda e escolaridade, negro e/ou pardo, morador de periferia) sugere um sem número de conjecturas e desdobramentos. Esta seletividade na aplicação da pena de privação de liberdade aponta para questões referentes ao acesso e proteção da justiça e do Direito à população, para o lugar do tráfico na economia de alguns extratos demográficos e, fundamentalmente, para relações culturais e produção de saberes sobre as drogas.

2.6 A VIGÊNCIA DA LEI 6.368/76 E A PASSAGEM À LEI 11.343/2006 NO

Benzer Belgeler