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Pioneiramente Luz (1982) analisou o curso, as características e especificidades conjunturais das intervenções que se constituíram nos marcos desse projeto na formação do Estado nacional, dos anos setenta do século dezenove aos anos trinta do século vinte. Elencou os atores, características das intervenções da medicina social dessa ordem política. Considerou “ambigüidades” dessa prática a incorporação e utilização do saber acumulado, em resposta às questões geradas e induzidas pela ordem social.

Guimarães (1978), em obra assinada com outros autores analisa os passos da medicina social pontuando os palmos da assistência à saúde da população. Ambos avaliam essa trajetória e informam que nela se crivou os embriões institucionais do setor saúde e previdenciário, na formação do Estado nacional. Projeto de gênese na intervenção saneadora e reorganizadora do espaço físico dos centros urbanos portuários. Estruturantes ao espaço de circulação e escoamento da produção do modelo econômico agro exportador, estágio fundamental de acumulação de divisas, no curso do processo de desenvolvimento econômico brasileiro.

“Comme une fuisse en avant” aos passos intermediários que ocorreram entre esta fase e a redefinição da ordem sanitária em 1990 com a chamada

reforma sanitária, se menciona a correlação desta com a indução externa das reformas ocorridas nas três décadas anteriores no Canadá, Inglaterra e Itália. (BERLINGUER, 1988). Nesta revisão discursiva se retoma o aporte teórico das relações do Estado na mediação dos conflitos intra estruturais de classe em momentos de definição de hegemonia para intervenção das políticas públicas, em saúde. Em sintonia dessas imbricações se adota de Teixeira (1998, p.17 ), a sistematização conceitual de política de saúde:

[...] nas sociedades modernas, a política de saúde se enreda em uma teia de complexidade tecida entre as políticas e as práticas no campo da saúde, em três níveis. Primeiro o econômico, através das diferentes necessidades de reprodução ampliada do capital que incidem ou se realizam através do setor saúde; segundo o político, como parte do processo de legitimação do poder do Estado e a manutenção da condução de classe; e terceiro, o ideológico, na articulação entre a produção científica, as práticas sociais e valores morais na inserção de agentes na estrutura social.

Em uníssono com o contido nas categorias analíticas esta conceituação de Teixeira é includente à definição de Luz (2000) e aos conceitos de contemporaneidade de Estado e de políticas públicas, nas dimensões e estratégias adotadas sobre a saúde coletiva. Cohn (2006) atualizou o conceito ao acrescentar que, além da formulação e implementação das ações, esta polítca deve estar vinculada às dinâmicas sociais e econômicas da sociedade e ao método impositivo das políticas de Estado. Em sua formulação conceitual, esta autora se acerca da fundamentação anterior com a includência da vinculação dos processos contidos na produção social da saúde e a mediação do Estado nos conflitos de interesse.

Em sua formulação, Cohn (2006) vincula as relações do sistema social globalizado e articulado com a organização das forças produtivas, do consenso e da coação que resultam em intervenções, as quais são disputadas nessa arena política. Disputas oriundas da administração dos conflitos indicados por Poulantzas (1977), os quais são gerados na ordem social e movidos pelos interesses individuais, de grupos, coletivos ou de classes, em suas visões de curto prazo e as visões de Estado em longo prazo.

Outra caracerística das politicas sociais que se acrescenta de Chesnais (1998) é o caráter de seletividade das políticas sociais, que se retoma na análise de pertinência de reorganização de nível assistêncial da política de saúde. A produção acadêmica entretanto é incipiente, no que se refere à reflexão teórica sobre a indução na formulação e processos de gestão desta e demais políticas sociais.

A gênese, formulação, indução e complexidade das dimensões político institucionais: financiamento, gestão e resultados de efetividade com equidade, tem como sustentação o referencial antológico produzido por: Almeida (1999, 2002), Arouca, Cordeiro, Dias, Fiori, Gentile de Mello, Loyola, Luz, Noronha, Pellegrini Filho, Ramos, Ribeiro, Tambellini (apud GUIMARÃES 1978), Berlinguer (1988), Campos (1992), Cohn (2002, 2005, 2006), Cordeiro (1987, 1996, 2001), Draibe (1990), Fiori (2001), Lecovitz (1997), Luz (1982, 2000), Almeida (1999), Mendes (1996, 2004), Teixeira (1994,1998) e Paim (1999).

Estes autores analisam o triangulo explicativo que circunscreve a indução das intervenções sanitárias inclusive na dualidade dos SUS _ via higienização da sociedade, técnicas da medicalização como instrumento de alienação e poder_ com a discussão dos processos contidos no campo da produção social da saúde. Análises que significam o oposto das analises da anti medicina realizadas por Ivan Ilicth (apud NOGUEIRA, 2003).

Uma leitura síntese destes autores fundamenta a concepção de que o projeto de saúde pública no Brasil se origina e estrutura o setor nos espaços urbanos, par e passo na constituição do Estado nacional, através de ações da intervenção sanitária sobre a saúde coletiva. Em marcos que se constituem nas primeiras políticas públicas que a cada conjuntura crescem em intervenções e especificidades. As “ambigüidades” da medicina social às quais se refere Luz (1982) têm o significante de dualidades, inerentes à natureza dos conflitos de interesses contraditórios nos quais se encerram as políticas públicas.

Esplícitamente, as finalidades destas políticas durante a constituição do Estado nacional que consistiam em atender setorialmente às questões de saúde, educação, habitação e lazer da ordem coletiva. Superar as epidemias,

endemias com planos e campanhas salvadoras, deixando intocadas mesmo que no discurso, as condições estruturais geradoras da questão sanitária.

Ainda segundo Luz (1982), o modelo assistencial da política de saúde de então foi desempenhado em cinco eixos. O da centralização com forte poder de polícia, o da higienização a intervenção predominante aliados ao campanhismo e à lógica de que os “maus hábitos culturais de raça, pobreza e ignorância condicionam” as doenças ambientais e sexualmente transmissíveis. O eixo campanhista, se arrasta até o presente assim como o da atenção médica curativista, privatista. Os atores desta ordem destacados pela autora são os movimentos sociais, as associações de categorias profissionais, intelectuais orgânicos da ordem burguesa, os partidos políticos e os sanitaristas Oswaldo Cruz e Barros Barreto.

Em antecipação de análises, se acrescenta ao exposto a compreensão da qual, o nominado ambíguo ou paradoxo na utilização do saber científico e das práticas científicas nas intervenções sociais não são excludentes, mas dualidades que se expressam no “o possível e até necessário”. Dualidades recorrentes em formações sociais de extremas desigualdades e de fragilidades sociais características do sistema de proteção social e à saúde no projeto de desenvolvimento de uma ordem política. Na lógica racionalizadora da constituição do projeto nacional de saúde pública.

Intervenções que se expressam em princípios de linguagem de natureza revolucionária, neoliberal, reformista, objetiva e construtora da ordem social. Na avaliação das políticas sociais em países atrasados, os marcos iniciais desse projeto, seguindo as lentes de Parodi (1978) e Salama (1980) cumpriram as finalidades da ordem social de então. Contemporizar as tensões internas, garantir a acumulação através da reprodução da força de trabalho, conferir legitimidade ao regime político, manter as relações de propriedade inalteradas e a sua finalidade máxima, a produção capitalista.

Benzer Belgeler