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E

m junho muitos protestos vieram à tona em Brasília e em todo país. Foi como uma força da natureza, milhares de pessoas tomavam às ruas, espe-

cialmente em solidariedade as forças de indignação que estouravam em todo país. Participar dos protestos, construí-los, defende-los de interesses mesqui- nhos, conservadores, coxinhas fez com que as relações fossem conduzidas de maneira quase selvagem, muito visceral.

Conheci uma grande ativista de Minas Gerais nesta época. Ela era recém chegada na cidade e começamos a ir aos protesto juntas. Compartilhávamos a desilusão em ver nossos parceiros afetivos optando por não ir às ruas. O que obviamente delimitou as relações afetivas sexuais. Lembro de sair de uma manifestação de mãos dadas com esta amiga, pela esplanada dos minis- térios à noite, enquanto caminhávamos sentíamos as bombas estourando, o barulho e as sirenes. Era mais um ataque covarde. Escapamos por pouco desta vez e de mãos dadas dizíamos uma a outra: “sem olhar pra traz”.

Desta conversa sobre as micropolíticas afetivas, resolvi escrever uma carta para meu amante, que havia trocado justo naquele ano a militância nas ruas, por um confortável gabinete. E quando estourou a jornada de lu- tas, escolheu novamente o conforto. Ali senti o poder da traição. E pior, senti na pele o signiicado da expressão “se realmente quiser conhecer uma pes- soa, dê poder a ela”.

Compartilho esta carta porque muitas de nós tivemos nossas vidas afeti- vas, emocionais e psicológicas completamente mudadas com as Jornadas de Junho. As relações pessoais foram ressigniicadas e muitas de nós, mulheres das trincheiras, as que trazem uma câmera na mão e um molotov na mochila, tivemos que escolher não desistir da nossa missão por um mundo mais justo, não desistir de nós mesmas. Segue a letra:

Quando o gás lacrimogêneo temperou a manifestação eu nem desaguei, ou ardi. Talvez sim tivesse molhada de dor, mas depois de ti sigo anestesiada. Por dentro não sinto mais nada além do desejo que parem as bombas e eu esqueça.

Mas, esta ferida não cicatriza. Vou tateando o desprezo, a mais letal de todas as armas. Preiro as máscaras nas faces do que no coração, que nem esta que te tapa a coragem. O teu cordão de isolamento que me limita. O teu

ordenamento cruel, a tua vida (agora) é de gabinete, cacete... Vai por o paletó e canetar uma bomba qualquer...

Espero ainda o efeito moral da sua escolha nesta trincheira, passar. Corro, berro é quase morte. Me aproximo de alguém, de alguma, do grupo, das pa- lavras, dos sonhos, do ideal na tentativa de um gole de sorte. Eta golpe cruel descumprir o humano, o luido... ah, o teu amor ao poder é de atiçar os cace- tetes! Ao invés, dos nossos inúmeros boquetes! Das suas repartições o poder do amor apodrece. 

Revista tudo o que resta  de privado, de resguardo, de refúgio escancara a fedentina (não aquela dos luidos do nosso sexo, nos lençóis gozados, san- grentos, mijados, babados de amor...porque sexo bom é o que escancara a selvageria) O cheiro agora é de medo... de viver, do azar que emudece, da bro- chada diante do seu poder.  

O teu poder organizado no conchavo do choque e pesadelo. A tua moeda é toque de recolher que não me faz valer, e você ainda vem falar em auto-se- -comer ?! Te fuder!  A tua hipocrisia camburão da minha transparência. A tua covardia é mordaça que tortura o P2P e qualquer liberdade de expressão!  

A bala de borracha que você nem disfarça. E  ainda seduz querendo que ache graça, do tal diálogo que você guardou pro auditório, mas esqueceu quando o sol amanheceu... e eu ali já descartada e nem sequer paga. Ah, suma! Que desta avenida seus soldados vitimados por esta sedenta força de mais patriarcado são desalmados pra que sua foto esteja apropriada no noticiário.  E tudo segue controlado, manipulado... Meu coração na esquina, se re- bela desta sina. Meu ventre selvagem desmascarou seus disfarces. E nas ruas onde desilas tua crueldade, lavarei com riso no carnaval, levarei a dor como estandarte. Aprendi a sobreviver pra ver, bem viva um novo amor vencer. De- samor, desarmar-te. Sem vínculos, reversos. Migro pras barricadas do amor vivo... Luto, ou o mundo novo!”

Esta carta inspirou outras companheiras a escrever. O que incitou um pro- cesso criativo que desaguou na tomada das ruas, com arte urbana, berros e

uivos pelas esquinas. Este foi um texto que equivale a uma alegoria, um divi- sor de águas no sentido de romper com as amarras institucionais, que direta ou indiretamente acionavam as bombas que nos autodestruíam. Jamais, da- quela noite em diante, seria/seríamos comparsas da nossa própria opressão. No dia seguinte, estava muito cansada com toda jornada e os processos. Amanheci viva, mas era difícil icar inteira. Fui ler os jornais. A versão é que a burguesia havia se rebelado contra o sistema. Porém, uma imagem trans- gressora bastava para desmerecer a linha editorial equivocada da imprensa. O jornal Correio Braziliense publicou uma foto em que uma pilha de chinelos populares estava abandonada em frente ao palácio do Itamaraty. Aquela foto dos chinelos revelava muito sobre a classe de quem também estava ali nos protestos e quão arriscado - e eu ousaria dizer leviano- era airmar que foi apenas um protesto de burgueses.

“Ih, fudeu, o povo apareceu!” 

À

tarde, liguei para meu ilho e perguntei onde ele estava. No auge dos seus 12 anos de idade ele disse que milhares de pessoas tomavam o gra- mado da esplanada dos ministérios e que “estava na manifestação, é claro!”. Tinha ido de skate com amigos e desta vez, como mãe de ativista. Era minha primeira vez. Dei várias instruções sobre como amenizar os efeitos do gás e outras estratégias de segurança.

Logo mais a noite, ele apareceu com um vídeo incrível que mostrava como o povo tomou o gramado e o Congresso Nacional. Ele postou o vídeo nas redes sociais com o título “Brasil libertado”. Foi nesta noite que ocupamos o Con- gresso Nacional. Aquela imagem incrível.

Arriscaria dizer que foi uma cena inédita na capital federal. Sim, apesar de muitos movimentos sociais e sindicais marcharem na esplanada, esta ocu- pação da cidade, no centro do distrito federal, é comumente realizada sendo acordada com governos e consentida por seus poderes. Naquele episódio foi diferente. A tomada do Congresso foi realizada sem pedir licença aos poderes

públicos, realizada pelo poder do povo.

Em tempo, o medo dos governantes de ver o Congresso ser tomado é tão signiicativo que eles construíram lagos para que a população não  tivesse acesso ao prédio. E lá estava o povo mostrando que é bem maior que os man- dos e desmandos covardes. Esta foi a airmação do governador que fez elo- gios a atuação (desnecessária e covarde) da polícia, classiicou de “exemplar” e disse que pelo fato de Brasília receber muitas manifestações, ele estava acostumado a lidar com elas.

Enganou-se porque havia uma grande diferença sim entre as manifes- tações sindicalistas e partidárias, institucionalizadas que ele consentia e as jornadas de protestos vigente. O governador do DF não teve dúvidas, alinhou com a presidência da república ampla e irrestrita repressão. Com uso covarde de violência, inclusive com exercito nas ruas.

Aliado a isso, perseguição coercitiva a muitas de nós, com intuito de inti- midar a participação nos levantes. A tentativa de pulverizar a pauta, da qual destaco: desmilitarização, transporte público/mobilidade urbana, Estado laico e defesa dos direitos humanos.

Os protestos continuaram. Algumas aulas públicas foram realizadas e chegamos a formar assembleias Populares. Rapidamente, muita informa- ção, muita formação foi compartilhada durante a jornada de lutas de 2013. Especialmente, sobre segurança de autodefesa e como se proteger dos ata- ques militares contra as manifestações. Em todo país muitas pessoas feridas e algumas mortas.

Passamos a planejar nosso trabalho de base e a evitar exposição e a vul- nerabilidade que os debates no facebook traziam. Porém, muitas forças atuavam no sentido de dispersar a auto-organização necessária junto aos protestos. Realizamos algumas assembleias populares com milhares de pes- soas. No entanto, o caminho foi retomar o trabalho de base com cada grupo, coletivo, movimento e partido. Tivemos poucas assembleias com milhares de pessoas, como ocorreu em outras cidades, por exemplo. Mas, este recuo foi qualitativo. Buscamos seguir as atividades relexivas, de formação.

Setembro foi o mês do grito dos excluídos, dia de luta realizado na data do 7, feriado da independência. A repressão foi tão grande que me lembro de ligar o rádio e ouvir que os manifestantes apanharam mais no trajeto e na DP do que no local do ato.

E aqui devo – com muito gosto - citar o papel fundamental das advogadas e advogados populares. O corpo jurídico de ativistas foi imprescindível para ga- rantir o mínimo de justiça nos abusos, principalmente das prisões arbitrárias. No meu caso, foi o corpo jurídico quem me ajudou, solidariamente. Co- meçou em 2013 e se estende ate os dias atuais. Ligações “não identiicadas” airmando que eu não devo ir aos protestos. Intimações para prestar depoi- mentos na DP, sem nenhuma justiicativa plausível, justo no dia de protes- tos, e até a interdição arbitrária do meu local de trabalho, multado em 20 mil reais, justo no dia do lançamento do livro do deputado federal (o primeiro e único a defender a causa LGBT) Jean Willys. E justo no dia em que dezenas de ativistas no DF receberam visitas suspeitas de autoridades judiciais, e que dezenas de ativistas no Rio de Janeiros foram presos e judicializados.

Fui processada por policiais civis, que consideraram crime de calúnia e difamação as pessoas presentes na ação de interdição terem ilmado a ação policial. Durante a audiência, acabei fazendo um acordo com os agentes para extinguir a ação, no qual terei que doar três cestas básicas e tive que fazer um post no facebook do meu peril pessoal assim como na página do meu trabalho airmando que, sobre a operação (arbitrária) de interdição do espaço justo no dia da atividade focada na pauta LGBT, “não quis macular a honra da corporação”.

Gostaria de resgatar mais sobre os relexos de 2013, neste

Benzer Belgeler