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Tomando o processo de aquisição da linguagem como “paradigma” para esclarecer o desenvolvimento psicológico das funções psicológicas superiores, Vigotski explica que estas se originam das relações entre os indivíduos humanos, e que aparecem duas vezes em suas vidas: interpsicologicamente e intrapsicologicamente.

Desde os primeiros dias do desenvolvimento, as ações das crianças adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos específicos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O contato das crianças com o ambiente físico e social é mediado por outras pessoas (geralmente familiares), que as auxiliam em seu processo de inserção no meio humano.

Inicialmente, o comportamento infantil é controlado pelo meio social, o qual um conjunto de significados que orientam a criança. À medida que a criança exercita tais significados – através do jogo, através da fala egocêntrica, do aprendizado da linguagem, etc. – ela os internaliza, o que lhe possibilita certa independência em relação aos adultos, fato que se caracteriza por certa autorregulação de seu comportamento. Nesse processo, a criança apreende os significados dos conceitos que lhe possibilitam comunicar-se com outro e tem a possibilidade de dar um sentido próprio para o conjunto de signos/símbolos que o meio social lhe oferece, pois ela de apropria deles.

Como tal processo é circunscrito pelas relações sociais estabelecidas pela criança com outros humanos e com o meio ambiente, podemos dizer que sua estrutura psicológica é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. Ao mesmo tempo em que a criança se individualiza, singulariza-se, também se insere num universo mais geral, mais amplo, o qual se constitui a partir da história cultural dos homens.

Para Vigotski, a internalização das formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica e tem como base as operações com signos. Aspectos tanto da fala externa ou comunicativa, como da fala egocêntrica são internalizados e tornam-se a base da fala interior: a

criança deixa de responder impulsivamente ao meio, e suas respostas passam a ser mediadas por símbolos ou “instrumentos” simbólicos construídos a partir das relações sociais.

A linguagem, conforme os estudos de Vigotski, possui grande importância, já que proporciona a comunicação entre os indivíduos, permitindo- lhes a transmissão e assimilação de conhecimentos, necessárias para que sua cultura e conhecimentos sejam passados de geração para geração.

Consoante o referido autor, os "signos e palavras constituem, para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas" (VYGOTSKY, 2003, p. 38). Na infância, a linguagem irá propiciar a organização, a orientação e a articulação do pensamento, desencadeando o desenvolvimento dos processos de abstração e generalização, fator importante na regulação do comportamento da criança. Vigotski estabelece uma importante distinção entre o significado e o sentido da palavra: aquilo que é convencionalmente estabelecido pelo social é o significado do signo linguístico; o sentido é o signo interpretado pelo sujeito histórico, dentro de seu tempo, espaço e contexto de vida pessoal e social.

Em seu livro Pensamento e Linguagem, Vigotski descreve que o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem. É por meio da linguagem que ocorrem as influências sócio-culturais responsáveis pelo desenvolvimento filogenético e ontogenético. Ele assevera que a palavra é a estrutura mais importante, porque é capaz de refletir a organização inter-funcional da consciência.

Ainda em seu livro Pensamento e linguagem, Vigotski (1987, p. 87) afirma que:

[...] embora a criança em idade escolar adquira uma consciência e um domínio maiores e mais estáveis das suas operações conceituais, ainda não está consciente delas. Todas as funções mentais básicas tornam-se conscientes e deliberadas durante a idade escolar.

Vigotski enfatiza que a palavra tem grande importância na evolução da consciência e que a escola possui um importante papel na conscientização, por parte da criança, dos processos mentais. Segundo o autor, o

conhecimento científico, disponibilizado na escola, pode ser responsável pelo desenvolvimento da consciência e do domínio. A consciência desenvolve-se quando consegue vencer as contradições entre o sentido e o significado.

Os sentidos e significados, no decorrer do desenvolvimento da criança, sofrem mudanças com os novos conhecimentos que serão disponibilizados durante a escolarização. É importante destacarmos novamente a distinção que Vigotski fez entre sentido e significado da palavra, pelo que isso trouxe de contribuição para as situações de ensino: "O sentido de uma palavra é a soma de todos os eventos psicológicos que a palavra desperta em nossa consciência [...]. O significado é apenas uma das zonas do sentido, a mais estável e precisa" (VYGOTSKY, 1987, p. 125). No discurso interior, o sentido prevalece sobre o significado. A linguagem é uma ferramenta da consciência, cuja função é de composição, de controle e de planejamento do pensamento e, ao mesmo tempo, de intercâmbio social.

Os significados das palavras compõem a consciência individual, mas são construídos no âmbito social. A linguagem, conforme Vigotski, é um produto histórico o qual não possui apenas o caráter comunicativo, pois está ligado à formação da consciência. Em outras palavras, a fala de uma criança em processo de aquisição da língua é inicialmente social e, gradativamente, torna-se um sistema de signos

Luria, que também se dedicou a estudar e compreender o desenvolvimento da linguagem e a sua relação com o psiquismo humano, enfatiza que a linguagem "intervém no processo do desenvolvimento da criança desde os primeiros meses de vida" (LURIA apud MONTENEGRO, 1993, p. 120). Para ele, os seres humanos são concebidos como construtores permanentes do seu meio; em virtude disso, a comunicação entre o adulto e a criança promove mudanças no conteúdo da atividade consciente. De modo semelhante, Vigotski destaca que as funções psicológicas superiores são a forma mais expressiva da consciência e que o pensamento e a linguagem, diferente da percepção, são as chaves para a compreensão destas funções.

O homem, no decorrer de sua experiência social, acumula e fixa maneiras de realizar determinadas atividades, de comunicar e expressar seus sentimentos. Compreendemos que, ao criar e fixar modos de agir, de pensar, falar

e escrever, ele poderá promover mudanças no desenvolvimento das relações sociais estabelecidas em seu meio social. Assim é na generalização e na fixação da prática social humana, da qual o homem se apropria e que modifica conforme a sua necessidade.

Benzer Belgeler