Os processos formativos de um professor de dança abrangem diversos espaços, e acredito que a construção da docência se dá ao longo de sua trajetória de vida, visto que muitos profissionais, antes de entrarem em um curso superior, já possuem experiências na área. Com o intuito de analisar a trajetória de professores que possuíssem experiências como dançarinos e professores, assim como acadêmicos de um curso superior em Dança ou Educação Física7, aponto como sujeitos de pesquisa professores que lecionam Dança em duas Escolas de Dança: uma localizada na cidade de Porto Alegre e outra na cidade de Canoas e que tivessem em sua trajetória de vida os critérios para análise dos dados que propus investigar na pesquisa.
O quadro proposto que abrange a trajetória pessoal e profissional que foi analisada se inspirou no modelo de análise proposto por Nascimento (2011), em sua pesquisa com professores universitários, por meio do qual buscou compreender a trajetória desses professores e suas relações com a prática pedagógica no ensino superior. A autora realiza sua análise a partir dos processos formativos anteriores ao curso de graduação, do percurso profissional e de suas práticas pedagógica. Tendo como foco um novo contexto, foi realizada a análise proposta na figura abaixo:
Figura 1 – Trajetória pessoal e profissional analisada
Fonte: Elaborado pela autora (2014).
7 Este delineamento de pesquisa não exclui outros percursos/trajetórias docentes em dança possíveis e importantes
de serem investigados. São muitas as trajetórias possíveis do Ser Professor de Dança.
Acadêmico (Dança ou Educação Física) Professor de Dança (Escolas de Dança) Dançarino, bailarino, intérprete
As escolas de dança, nas quais lecionam os sujeitos da pesquisa, possuem mais de trinta anos de atuação no ensino da dança em ambas as cidades (Porto Alegre e Canoas), tornando-se importantes espaços de formação para diversos profissionais da área ao longo desse tempo. A escolha justifica-se também pelo fato de eu, enquanto pesquisadora, possuir maior abertura no acesso aos locais apontados e por já ter lecionado em ambos os espaços.
O campo profissional para o professor de dança é bastante amplo: escolas no âmbito curricular ou extracurricular, clubes, companhias/grupos de dança, entre outros. Reforço a escolha por entrevistar professores que lecionam a Dança em Escolas de Dança, pelo fato de considerar que esses locais foram historicamente construídos como importantes espaços de formação (de dançarinos, coreógrafos e professores) e se constituem como locais onde muitos profissionais exercem sua docência. Outro fator por essa escolha se deu pela pesquisadora lecionar nesses espaços há mais de dez anos, tendo mais proximidade com esse campo.
As escolas de dança, também chamadas por Strazzacappa (2003) como escolas especializadas, cursos livres, academias ou oficinas culturais, são espaços de possíveis formações de artistas em suas mais variadas técnicas de expressão. Strazzacappa (2003) ressalta o aspecto que muitos artistas8 da dança não são formados em ambiente universitário. Conforme a autora:
A formação do artista se dá em sua ação. Sua arte está no seu fazer. São cursos livres, oficinas, vivências com artistas (mestre-aprendiz), formação em conservatórios públicos ou privados, academias, estúdios, casas de cultura, associações de bairro, clubes e tantas outras instituições paralelas. No caso específico da dança, o mais comum é a formação nas academias e estúdios (STRAZZACAPPA, 2003, p. 188- 189).
Destaco que não se buscou nessa pesquisa apontar que o indivíduo com a formação superior em Dança ou Educação Física seria melhor ou pior professor do que aquele que não tem essa formação. Como coloca Corrêa e Nascimento (2013, p. 55), “a dança como profissão abrange uma extensa variedade de funções, e por sua característica prática, não se restringe ao espaço de Licenciatura ou Bacharelado como opção formativa”.
A formação acadêmica em Educação Física foi procurada por dançarinos, como traz Morandi (2012), e uma das possibilidades por essa procura se relaciona ao fato de não existirem cursos com formação específica em dança em todo território brasileiro, realidade que atualmente se torna diferente.
8 Quando a autora utiliza a palavra artista da dança, se refere à nomenclatura trazida pela Classificação Brasileira
Também destaco que devido à ampliação de oferta das graduações em dança no Brasil nos últimos anos, conforme Pereira e Souza (2014), é interessante refletir como essa formação vem sendo construída, sentida e percebida na vida do professor que ensina essa arte.
Saliento não ser somente esse tópico a ser alvo de minha análise, visto que procurei identificar os momentos que os professores consideraram marcantes ao longo de sua trajetória pessoal e profissional com a dança (como dançarinos, acadêmicos e professores) e compreender de que forma esses momentos influenciaram na constituição de sua docência em dança, na escolha profissional, evidenciada na prática pedagógica e no significado que esses professores atribuem a sua docência.
O professor de dança que destaco nessa pesquisa é o professor que exerce sua docência nas Escolas de Dança, ou seja, na educação não formal. Esse professor ensina a dança por meio de técnicas específicas que podem ser: ballet, jazz, dança de rua, dança de salão e, por vezes, é quem exerce diferentes funções no contexto de seu trabalho: professor, coreógrafo, dançarino, diretor.
Marques (2008) fala da importância da reflexão sobre os processos educacionais implicados na prática docente em diferentes contextos. Ao definir o termo artista-docente, a autora salienta características desse profissional:
[...] é aquele que, não abandonando suas possibilidades de criar, interpretar, dirigir, tem também como função e busca explícita a educação em seu sentido mais amplo. Ou seja, abre-se a possibilidade de que processos de criação artística possam ser revistos e repensados como processos também explicitamente educacionais (MARQUES, 2008, p. 112).
Para a autora, “são os conceitos de arte/dança, do diretor-coreógrafo/professor (ou do professor/ diretor-coreógrafo) que diretamente se transferem para o processo de criação, ou para o processo educativo” (MARQUES, 2008, p. 108).
A autora aponta para a importância dos profissionais que ministram a dança, independente de seu local de ensino, para que atentem às questões desveladas em sua prática:
O modelo educacional perpetuado por ambos, o mundo da dança e da escola, ainda parece oculto, não desvelado. Esse modelo de relações artístico-pedagógicas aceito por grande parte de nossa população de dançarinos, alunos, professores, diretores e coreógrafos parece ser ainda uma relação ingênua sobre aquilo que nossos corpos, podem estar nos ensinando, perpetuando, reproduzindo e controlando socialmente através da dança (MARQUES, 2008, p. 108).
Por meio do que nos fala Marques (2008), considero que as questões relacionadas à docência, que se refletem no ensino da dança, tornam-se interessantes de serem investigadas a partir das vozes dos sujeitos envolvidos nesse contexto.
Os sujeitos da pesquisa ora relatada se compuseram de nove professoras de duas escolas de dança, uma localizada em Porto Alegre e a outra na cidade de Canoas, como esclarecido anteriormente. Destaco que, quando da qualificação do projeto de pesquisa, em Novembro de 2014, eram pesquisados dez sujeitos, porém, esse número foi retificado, visto que um dos professores se afastou de suas atividades docentes durante o ano de 2015 por motivos pessoais. Segui, assim, os critérios da pesquisa, considerando somente os professores que estavam exercendo, durante esse período, sua prática docente. Enfatizo, a seguir, alguns aspectos referentes às professoras entrevistadas:
Quadro 6 - Sujeitos da pesquisa Entrevistada Idade (anos) Tempo de formação prática (anos) Tempo na docência
em dança (anos) Curso de Ensino Superior Entrevistada 1
21 13 6 Bacharelado em Educação Física
em conclusão 2015/1 Entrevistada 2
22 20 7 Bacharelado em Educação Física
em conclusão 2015/2 Entrevistada 3
60 46 39 Licenciatura Plena em Educação
Física
Entrevistada 4 35 32 22 Licenciatura em Educação Física
Entrevistada 5
39 29 23 Licenciatura Plena em Educação
Física/ Especialização em Dança Entrevistada 6
31 28 15
Licenciatura Plena em Educação Física e Licenciatura em Dança/ Especialização em Dança Entrevistada 7
21 17 5 Licenciatura em Dança em
conclusão 2015/2 Entrevistada 8
50 45 36 Curso Superior de Tecnologia
em Dança Entrevistada 9
39 29 24 Curso Superior de Tecnologia em Dança Fonte: Elaborado pela autora (2015)
No momento em que foram realizadas as entrevistas, três das professoras participantes do estudo estavam em processo de conclusão do curso de graduação. Uma entrevistada concluiu o curso no meio do ano de 2015, e as demais concluirão no final desse mesmo ano. Considerei interessante manter a entrevista com essas professoras, pois as três estavam em etapa final da graduação, tendo já em sua trajetória vivências e experiências com relação aos cursos nos quais se inserem, podendo trazer em suas palavras suas impressões e relatar momentos marcantes a respeito desse processo.
Percebo que a dança está presente na trajetória de vida de todas as entrevistadas por um longo período. Evidenciando-se como formação prática na dança, uma trajetória superior a uma década (13 aos 46 anos) e como professoras, todas começaram nessa área com menos de 20 anos de idade (dos 13 aos 18 anos). Apenas três das entrevistadas exercem a docência há menos de 10 anos, as demais trabalham como professoras de dança em um período igual ou superior a 15 anos.
Mesmo não sendo o objetivo dessa pesquisa, considero interessante salientar, devido ao fato de trazer como sujeitos de estudo somente professoras, que a trajetória na dança se revela historicamente diferente entre homens e mulheres, possuindo singularidades quanto a esse processo formativo. Esse apontamento é reforçado por Souza (2007) e Andreoli (2011) em suas pesquisas que trazem como temática a masculinidade na dança. Ambos os estudos desvelam que os homens iniciam essa formação mais tardiamente que as mulheres e apontam a forte representação cultural na qual a prática da dança por homens acaba sendo associada à homossexualidade. Conforme Andreoli (2011, p. 166) “as trajetórias de vida são diferentes para homens e para mulheres, em virtude dos diferentes investimentos que a cultura faz sobre os gêneros”. O autor também esclarece que “tais ‘barreiras’ para a inserção dos homens na dança foram referenciadas, geralmente, ao meio social, como a família, os amigos ou cônjuges. Através de uma forte regulação da vida desses sujeitos, a partir das normas de gênero [...]” (ANDREOLLI, 2011, p. 166). Nesse sentido, Souza (2007) também aponta que os bailarinos devem ultrapassar barreiras quanto às questões de gênero e sexualidade ao assumirem essa prática e profissão. Dessa forma, é importante salientar, que a trajetória de vida vinculada à dança traz singularidades para homens e mulheres, revelando cada um desses percursos, aspectos particulares que foram tecidos historicamente nessa área.
A análise das informações das entrevistas realizadas com as nove professoras seguiu as etapas da Análise Textual Discursiva (ATD) proposta por Moraes e Galiazzi (2011), definidas a seguir.