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Retomando o encontro da natureza com o homem, passa a ser mediado pela Teologia, e principal fonte de informação sobre a natureza e 'livro guia' será a Bíblia. De acordo com o Gênesis (1:11;24;26), “Deus disse: 'Que a terra verdeje de

verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente' e assim se fez”; “Deus disse: 'Que a terra produza seres vivos segundo sua espécie: animais domésticos, répteis e feras segundo sua espécie' e assim se fez”; “Deus disse: 'Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.” (figura 05)

A natureza configura-se como uma natureza fisicoteológica, vista como uma prova física importantíssima para demonstrar a existência de um Criador. A natureza, ou a criação, possui um desígnio, definindo no processo de elaboração desta prova uma intensificação, uma aceleração e uma concentração dos interesses religiosos nos processo da natureza. Provar a existência de um desígnio divino implicava considerar o caráter presumidamente ordenado da natureza, e se este deixava garantido uma via aberta para uma concepção da natureza como equilíbrio e harmonia, aos quais a vida está adaptada13.

Figura 04 – O Paraíso

Fragmento de pintura em óleo sobre tela representando uma idéia do Paraíso, relacionado as terras do Novo Mundo.

fonte: www.altavista.com

O Cristianismo também insere uma mudança na noção do tempo para o homem e para mundo que passa a se configurar como algo linear e não renovável. Entretanto, a natureza possuiria um tempo cíclico, de acordo com obra De divisione

naturae, do irlandês Johannes Scotus Erigena, onde todas coisas da natureza sempre

voltam ao seu ponto de origem.

As regularidades cíclicas com as quais a natureza mantém o seu curso, observáveis nas estações do ano e na vida animal sobre a terra, trabalhadas pelo pensamento clássico, são trazidas para o universo teológico para a explicação e comprovação da harmonia divina entre o homem, Deus e a natureza, bem como de sua ordem e hierarquia14.

14 De acordo com Erigena (apud Glacken, 1996), encontra-se na natureza quatro divisões, sendo que se

compreende a natureza pelo fato de que a natureza encerra em si mesma a racionalidade. Não conhecendo Deus, pode-se inferir pela ordem do mundo sensível e inteligível que Ele existe, e é a causa de todas as outras coisas. Na primeira etapa, a natureza que cria e não é criada é Deus, como princípio de todas as coisas; na

Segundo Simmons (1993), as noções de tempo, introduzidas pelo pensamento judaico-cristão, conduziram a uma noção de progresso contínuo e a possibilidade que haveria tempo suficiente para a constituição de um mundo perfeito. Deus é bom, ama o mundo e a suas criaturas. As belezas da terra são obra sua, mas o homem tem que se mover com cautela entre elas, porque seu destino não está radicado neste mundo, senão no adiante. Contudo Deus quis a criação do homem, e que se multiplicasse e obtivesse o domínio de toda forma de vida sobre a terra15. Observa-se que o homem, o auge e a finalização da criação divina são visto como possuidor de um direito teológico para o domínio da natureza e de suas espécies. Diferentemente do período clássico, este domínio ele é dado pela vontade de Deus e não pela ciência, técnicas e artes como no período anterior. Além disto, segundo Lenoble (1969:187), “o homem, dizia o cristianismo, não se situa na natureza como

um elemento num conjunto: não tem o seu lugar nela como as coisas têm o seu lugar; é transcendente em relação ao mundo físico; não pertence à Natureza, mas à Graça, que é sobrenatural; e, por conseguinte, se quer a todo o custo encontrar-lhe um lugar, existe apenas um, o primeiro, com a condição ainda de precisar de imediato que não nasceu da natureza e que é feito para nela permanecer”.

Mas este homem que obtivera o direito ao domínio da natureza pela escolha de Deus, seu criador e mestre, irá desafiá-lo, irá perder sua confiança e neste sentido a expulsão de Adão e Eva do Paraíso (A Queda) irá ter uma forte presença no entendimento da relação da natureza com o homem no período teológico.

Segundo Glacken (1996), o relato da Queda adquiriu grande importância para a idéia cristã de natureza, como fonte de crença, muito difundida até no século XVII, de que o pecado causou na natureza desordem e diminuição de seus poderes, uma idéia que se diferencia claramente da idéia clássica do envelhecimento natural, que se baseada na analogia orgânica (a terra, assim como uma mulher, conforme envelhece perde sua fertilidade - o grande defensor desta idéia foi Columela). Esta

segunda, a natureza que é criada e cria, representada pelas idéias arquetipicas ou causas primordiais; na terceira, a natureza que é criada e não é o mundo sensível, o mundo das aparências, a criação tal e qual conhecemos; na quarta, a natureza eu nem cria e nem é criada representa a Deus Criador, uma vez alcançado seu fim, está em repouso e parou de criar.

passagem também tem importância histórica por introduzir a idéia de trabalho como conseqüência do pecado16.

Todas as relações entre o homem e a natureza são mediadas por Deus, inclusive as catástrofes naturais que são atribuídas ao fato de Deus estar desgostoso com os homens e também da vida que os pecadores levam sendo o estopim destes 'descontroles' na natureza. Nota-se que os cristão que sofriam com estas catástrofes estavam pagando também pelo falta de crença dos pagãos. Desta forma, até sociedades pagãs também eram afetadas pelo julgamento de Deus, como por exemplo, pode-se citar o dilúvio.

As concepções judaico-cristãs de Deus e da ordem da natureza foram muitas vezes combinadas pelos primeiros padres da igreja com o argumento clássico de desígnio e com a idéia da divindade artesã ou demiurgo, criando uma concepção do mundo habitável de tal força, poder de persuasão e flexibilidade, que pode se manter como uma interpretação da vida, da natureza e da terra aceitável para a grande maioria dos povos do mundo ocidental até o sexto decênio do século XIX17.

Mas não foi só a leitura da Bíblia, apesar de dominante, que influenciou as opiniões dos homens sobre a natureza da terra como morada. Segundo Glacken (1996), algumas contribuições da física, biologia e do pensamento clássico, foram subordinados a uma leitura 'bíblica' no sentido de apoiar suas idéias e conceitos, justamente em pontos que mais necessitavam de complementação. Até porque durante a Idade Média foram realizadas várias intervenções humanas na natureza como por exemplo: desflorestamento, drenagem de terras, transformação da paisagem primitiva pelos grupos religiosos e mesmo o retorno de terras anteriormente cultivadas ao estado primitivo.

Neste primeiro momento do período teológico, ainda marcado pela influência Romana, se encontra, segundo Glacken (1996), uma interpretação dos escritos 'pagãos' ou aqueles referentes ao pensamento clássico, a serviço do cristianismo. Assim, o argumento de desígnio ou finalidade da natureza foi reformulado seguindo

16 Glacken (1996) 17 Glacken (1996)

os preceitos cristãos, em que a beleza da terra e da natureza era prova da harmonia divina e da bondade de Deus.

De acordo com o filósofo da época Clemente de Alexandria (Exortation to the

Greeks), a terra, florescente segundo o mandato do Deus nas devidas estações,

produze alimento abundante para homens e bestas, bem como para tudo o que vive na sua superfície, sem renúncia ou alteração das disposições de Deus. As estações cedem lugar uma às outras, pacificamente; os ventos, sem obstáculos, realizam suas funções; e o mais pequeno dos seres vivos vive, como o Senhor deseja, em paz e harmonia, um presente que beneficia a todos os homens e mais abundantemente os que têm encontrado refúgio em na bondade do Senhor, ou seja, os cristãos.

A idéia do mundo ou natureza como um livro, originado na eloqüência do púlpito, foi logo adotada pela especulação místico-filosófica medieval, e finalmente passou a ser de uso comum18. Ainda continua o autor, que os escritos exegéticos também buscavam a interpretação da desordem da natureza ou como fruto do pecado original (Queda do Paraíso), onde os insetos e plantas venenosas foram criados e tiveram sua existência permitida pelo Senhor para recordar os homens de seu orgulho e seu engano (pecado). E a natureza apesar de bela está deteriorada pela expulsão de Adão e Eva do paraíso.

Desta forma, a terra e a natureza são governadas não por causas físicas ou biológicas, mas pelas puramente morais e religiosas.

Outro texto fundamental é a obra de Alberto Magno - De natura lococrum, o qual pode ser considerada um marco para a doutrina do Determinismo geográfico. Segundo Glacken (1996), é o mais elaborado texto de teoria geográfica em relação a cultura humana desde alguns textos da Antigüidade clássica, tendo sua origem na necessidade de conhecimento em detalhe da natureza dos lugares. Isto levou Alberto Magno expressar seu interesse pela natureza, história natural e geografia,

retomando as obras gregas e latinas, através dos árabes, bem como da teologia e da astrologia19.

Benzer Belgeler