A representação discursiva de grupo na notícia do jornal Correio do Povo se constrói nos enunciados abaixo apresentados:
O maior grupo de cangaceiros do Nordeste assalta nossa cidade, sendo destroçado após 4 horas de renhida luta! (E02CP).
Domingo, 12 do corrente, muito cedo, soube-se que um numeroso grupo de cangaceiros, chefiado por Lampião estava atacando Apodi, que resistia (E10CP).
De dez para onze horas da noite, já o grupo se apoderava de São Sebastião (E52CP).
É natural de Buíque (Pernambuco) foi soldado do exército de 920 a 926, dando baixa voltou ao seu Estado onde se aliou ao grupo de cangaceiros chefiados por Virgolino Ferreira (Lampião) há mais de um ano, tendo tomado parte nos ataques de vilas, povoados e fazendas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Alagoas (E11CP).
No comêço de maio p. findo, Lampião reuniu o seu grupo em Pajeú (Pernambuco), para vir atacar e saquear a cidade de Mossoró, influenciado por Benevides Massilon Leite, cangaceiro de confiança do grupo (E53CP).
No itinerário que fizera até aqui, atacaram um lugar chamado Belém, na Paraíba, onde foram repelidos, não tendo continuado a atacar para não desfalcar a munição, no dia seguinte saquearam duas fazendas no município de Luis Gomes, onde, sem resistência, prenderam dois velhos que traziam como reféns, distante daquele sete léguas, roubando, depredando e incendiando (E54CP).
Daí continuaram rumando a Mossoró e ao passarem na fazenda Jurema, fizeram roubos e queimaram tudo (E56CP).
Deram fogo em Apodi, mas desistiram do ataque para não estragarem munições e chegando no lugar Brejo do Apodi encontraram um automóvel conduzindo um senhor de nome Antonio Gurgel que vinha de Mossoró, cujo senhor trazem prêso e, segundo a firma Lampião, só será sôlto mediante um resgate de 21 contos de réis (E57CP).
Ao passarem, domingo, no povoado São Sebastião, não encontrando resistência, queimaram um caminhão e um automóvel saqueando algumas bodegas (E58CP).
Atravessaram a ponte e avançaram ficando êle Jararaca em companhia de Sabino Leite, imediato de Lampião. Avançaram pelo lado de baixo para atacar a Estação da Estrada de Ferro (E62CP).
O grupo que veio atacar esta cidade é composto de 53 homens, e não recebem nenhuma remuneração de Lampião, fazendo cada qual o que pode nas ocasiões de saques (E64CP).
O grupo vinha armado por 44 fuzis mauser, 9 rifles e 15.000 cartuchos, distribuídos até o numero de 400 cada um, sendo êste número pelos mais ALENTADOS (valentes) (E66CP).
Declarou que o indivíduo Massilon Leite é o mesmo que assaltou Apodi, em 10 de maio, e que juntou-se ao grupo de Lampião depois dêsse assalto, acompanhado de dois homens José Roque e José Côco, levando 6 fuzis e pequena quantidade de munição que adquiriu nesse assalto (E67CP).
Lampião e seu grupo, em Limoeiro (Ceará) foi recebido com festas, havendo banquetes, bailes, etc (E72CP).
Os referentes e modificadores que categorizam os cangaceiros de Lampião como grupo estão apresentados no quadro seguinte:
Referente (Categorização) Número de ocorrência Modificador Código O maior grupo de cangaceiros do Nordeste 01 - E02CP Um numeroso grupo
de cangaceiros 01 Chefiado por Lampião E10CP
O grupo 03 - E52CP
E64CP E66CP O grupo de
cangaceiros 01 Chefiados por Virgolino Ferreira (Lampião) E11CP
Grupo 02 - E53CP
E72CP
O grupo de Lampião 01 - E67CP
Quadro 29: Referentes e modificadores que constroem a representação discursiva de grupo para os cangaceiros de Lampião em notícia do jornal Correio do Povo.
Fonte: Autor.
A representação discursiva se constrói, principalmente, em função do emprego do referente grupo, modificado por expressões de valor adjetivo que especificam, caracterizam ou delimitam o referente. O referente o maior grupo de cangaceiros do Nordeste destaca a grandeza e o reconhecimento que tinham o grupo de cangaceiros de Lampião. Além de ser conhecido pela sua atuação em diversas localidades do Nordeste do Brasil, o grupo também se destaca pelo grande número de cangaceiros que tinha como componentes, conforme se percebe no referente um numeroso número de cangaceiros ou ainda no enunciado E71CP, que indica ter o grupo mais de cinquenta cangaceiros.
Os modificadores especificadores chefiado por Lampião e chefiados por Virgolino Ferreira (Lampião), identificados em E10CP e E11CP, corroboram e intensificam a relação de pertencimento existente entre o grupo de cangaceiros e o chefe Lampião. Funcionam como modificadores especificadores porque restringem ou especificam os referentes, contribuindo para a construção dos significados (BECHARA, 2009). Desse modo, a representação discursiva de grupo se constrói nessa relação estabelecida entre os cangaceiros e Lampião como chefe do cangaço.
b) Predicação e termos circunstantes
Os processos verbais e os termos circunstantes abaixo indicados compreendem os verbos (e os modificadores desses verbos, respectivamente) das proposições-enunciados em que se constroem representações discursivas para os cangaceiros de Lampião como grupo:
Predicação Número
de ocorrência
Termo Circunstante Código
Assalta 01 - E02CP
Estava atacando 01 - E10CP
Apoderava 01 - E52CP
Vir atacar 01 - E53CP
Saquear 01 - E53CP
Atacaram 01 - E54CP
Foram 01 - E54CP
Tendo continuado 01 Não E54CP
Atacar 02 Não E54CP
E62CP
Desfalcar 01 Não E54CP
Saquearam 01 - E54CP
Prenderam 01 - E54CP
Roubando 01 - E54CP
Depredando 01 - E54CP
Incendiando 01 - E54CP
Continuaram rumando 01 - E56CP
Passarem 01 - E56CP Fizeram 01 - E56CP Queimaram 02 - E56CP E58CP Deram 01 - E57CP Desistiram 01 - E57CP
Estragarem 01 Não E57CP
Chegando 01 - E57CP
Encontraram 01 - E57CP
Passarem 01 - E58CP
Encontrando 01 Não E58CP
Saqueando 01 - E58CP
Atravessaram 01 - E62CP
Avançaram 01 - E62CP
Veio atacar 01 - E64CP
É 01 - E64CP
Recebem 01 Não E64CP
Foi recebido 01 - E72CP
Quadro 30: Predicação e termos circunstantes que constroem a representação discursiva de grupo para os cangaceiros de Lampião em notícia do jornal Correio do Povo.
Fonte: Autor.
O conjunto dos verbos que operam junto ao referente grupo constrói uma cadeia semântica de ações praticadas que se associam à representação discursiva de grupo de cangaceiros: assalta, apoderava, saquear, atacar, desfalcar, roubando, depredando, incendiando, queimaram, dentre outros. Esses e outros verbos compreendem ações de vandalismo que eram praticadas pelos cangaceiros nas empreitadas pelo sertão nordestino. Alguns dos verbos aparecem no plural porque acionam o grupo de cangaceiros e o chefe Lampião como agentes da ação verbal ou porque estabelecem concordância semântica com o referente grupo de cangaceiros. A maioria dos verbos encontra-se no tempo pretérito, o que indica a concretude das ações.
O termo circunstante não indica circunstância de negação e é empregado, principalmente, para descrever decisões tomadas pelos cangaceiros para evitar perda de munição em uso desnecessário (E54CP e E57CP), para indicar a falta de resistência ao ataque empreendido no município de Luis Gomes (E58CP) e para afirmar que os cangaceiros não recebem propina ou qualquer outra espécie de pagamento do chefe Lampião (E64CP) – o que revela a fidelidade dos cangaceiros. c) Localização espacial e temporal
Os locativos espaciais compreendem os espaços onde se desenvolveram os processos verbais praticados que acionam o grupo dos cangaceiros de Lampião como agente:
Locativo espacial Número de
ocorrência Código
Nossa cidade 01 E02CP
Apodi 03 E10CP
E57CP E67CP
São Sebastião 01 E52CP
Vilas, povoados e fazendas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e
Alagoas
Pajeú (Pernambuco) 01 E53CP
A cidade de Mossoró 01 E43CP
Belém, na Paraíba 01 E54CP
Onde 02 E54CP
Duas fazendas do município de Luís
Gomes 01 E54CP
Mossoró 02 E56CP
E57CP
A fazenda Jurema 01 E56CP
O lugar de Brejo do Apodi 01 E57CP
O povoado de São Sebastião 01 E58CP
Algumas bodegas 01 E58CP
A ponte 01 E62CP
O lado de baixo 01 E62CP
A Estação da Estrada de Ferro 01 E62CP
Esta cidade 01 E64CP
Limoeiro (Ceará) 01 E72CP
Quadro 31: Locativos espaciais que favorecem a construção da representação discursiva de grupo para os cangaceiros de Lampião em notícia do jornal Correio do Povo.
Fonte: Autor.
São locativos que descrevem os lugares por onde passou o grupo de cangaceiros de Lampião antes, durante e depois do assalto à cidade de Mossoró. Os locativos Apodi e Mossoró são os mais recorrentes, porque compreendem localidades de interesse dos cangaceiros. O ataque a Apodi foi estratégico: serviu tanto de prenúncio para o ataque posterior (a Mossoró), como também foi uma maneira do grupo de cangaceiros avaliarem sua força e agilidade diante de uma cidade de população relativamente grande.
Os locativos temporais que auxiliam na construção da representação discursiva de grupo para os cangaceiros de Lampião, na notícia do jornal Correio do Povo, estão apresentados a seguir:
Locativo temporal Número de
ocorrência Código
Após 4 horas 01 E02CP
Domingo, 12 do corrente, muito cedo 01 E10CP
De dez para onze horas da noite 01 E52CP
No começo de maio p. findo 01 E53CP
No dia seguinte 01 E54CP
Domingo 01 E58CP
Em 10 de maio 01 E67CP
Quadro 32: Locativos temporais que favorecem a construção da representação discursiva de grupo para os cangaceiros de Lampião em notícia do jornal Correio do Povo.
Esses locativos situam no tempo as ações praticadas pelo grupo de cangaceiros de Lampião. Compreendem unidades de medida de tempo: horas, dias e mês. Essas unidades correspondem aos momentos exatos em que o grupo de cangaceiros planeja o ataque a Mossoró (no começo de maio p. findo), chega a Apodi (domingo, 12, do corrente, muito cedo), a invasão ao povoado de São Sebastião (de dez para onze horas da noite, domingo) e o assalto a Mossoró (após 4 horas). Esse conjunto de informações sugere que o grupo tinha um itinerário organizado, suas ações eram planejadas e calculadas, tendo em vista o objetivo maior e audaz, o ataque à cidade de Mossoró. Como se percebe, várias outras empreitadas foram realizadas pelo grupo anteriormente ao ataque principal, como forma de incitar temor e medo a população de Mossoró – conforme comprova o bilhete escrito por Lampião e enviado ao coronel Rodolfo Fernandes, prefeito da cidade.