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A prática pedagógica desenvolvida em hospitais é alicerçada nas pilastras da educação não formal, é concebida como uma modalidade de ensino que visa dar assistência educativa às crianças e aos adolescentes internados.

Resgatando a história do atendimento pedagógico em hospitais, constatou- se que o primeiro trabalho realizado com crianças enfermas deu-se no ano de 1935, quando Henri Sellier inaugurou o Hospital Infantil L′Epellier nos arredores de Paris. (ESTEVES, 2008; RODRIGUES, 2008).

Esse trabalho educacional “consistia em levar atendimento hospitalar para essas crianças dentro do ambiente escolar, ou seja, as crianças iam para lá e recebiam os procedimentos escolares e o atendimento à sua enfermidade.” (ESTEVES 2008:19). Em outras palavras, as crianças inadaptadas ou doentes recebiam atendimento médico e educacional na escola a qual frequentavam. Segundo, Esteves (2008), a partir do trabalho de Sillier, hospitais de diversos países como Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, iniciaram o trabalho dirigido às crianças tuberculosas em hospitais na tentativa de minimizar as dificuldades por elas apresentadas no que concerne à aprendizagem.

Nesse contexto, em 1939, foi criado o cargo de Professor Hospitalar e o Centro Nacional para a Formação de Professores para a Infância Inaptada (C.N.E.F.E. I) em Suresnes, cidade periférica de Paris, com o objetivo de formar professores com vistas ao trabalho pedagógico em hospitais.

Segundo Vasconcelos (2006:2):

(C.N.E.F.E. I) tem como missão até hoje sensibilizar a sociedade para o fato de que a escola não é um espaço fechado, estritamente entre quatro paredes, mas no encontro do sujeito com um novo saber. [...] O centro “promove estágios em regime de internato dirigido a professores e diretores de escolas; os médicos de saúde escolar e a assistentes sociais”. A formação de Professores para atendimento escolar hospitalar no CNEFEI tem duração de dois anos. [...] Hoje todos os hospitais públicos na França têm em seu quadro 4 professores: dois de ensino fundamental e dois de ensino médio. Cada dupla trabalha em expedientes diferentes, de segunda a sexta.

Para Tomasini (2008) e Esteves (2008), o fato que corroborou para o surgimento do trabalho pedagógico em hospitais foi o advento da 2ª Guerra

Mundial, um dos capítulos mais amargos da história da humanidade, considerado como um dos conflitos mais sangrentos, provocando a morte de milhares de pessoas inocentes, ou então mutiladas, deixando um rastro de cidades destruídas e pessoas sem moradia.

Além disso, a história nos mostra que, durante a 2ª Guerra Mundial, o direito que todo ser humano tem de ser livre, de expressar-se livremente ou de professar uma fé ou crença foi em toda sua essência desrespeitado pelas ações cruéis e bárbaras direcionadas aos judeus sob o comando de Adolf Hitler no holocausto, quando milhares deles foram encarcerados e assassinados pelo simples fato de serem judeus.

Em consequência, a fim de resgatar a dignidade, a liberdade, a igualdade, a segurança social maculada na 2ª Guerra Mundial e na tentativa de impedir que os massacres, e atrocidades ocorridos voltassem a se repetir, a Organização das Nações Unidas elaborou, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), constituído de 30 artigos que narram os direitos de todos os homens e mulheres. Esse documento, que está em vigor até os dias atuais, estabelece, em linhas gerais, que todos os indivíduos têm direitos básicos, como segurança, saúde, educação, alimentação digna e, principalmente, liberdade. Diz o documento que tais direitos devem ser respeitados, na sua íntegra, por todos os povos e todas as nações.

Assim sendo, o citado documento foi elaborado em virtude do desprezo e do desrespeito pelos direitos humanos básicos, evidenciados em toda sua plenitude na 2ª Guerra. O desacato por esses direitos resultaram:

[...] em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que todos gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum, [...] Declaração dos Direitos Humanos (1948).24

24Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php Acesso em: 19

A DUDH foi proclamada com o objetivo de que:

os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de direito, para que o homem não seja compelido como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão. Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações. Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade plena. (Declaração dos Direitos Humanos (1948).25

Por conseguinte, é importante destacarmos que o referido documento, além do resgate à dignidade, à liberdade, à igualdade dos homens e das mulheres sem distinção, visava assegurar o direito à educação:

Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais [...] A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. (Declaração dos Direitos Humanos (1948, art. 26).

Enfatizamos a importância do mencionado documento pelo fato de ser o primeiro dirigido a todos os povos sem distinção de nacionalidade, raça, cor, credo, religião, sexo que proclama em caráter mundial os direitos que todas as pessoas podem usufruir, e diante de todos esses direitos destacamos a educação como direito universal a todas as pessoas.

Focalizando as consequências dessa guerra para o campo educacional, Tomasini (2008) e Esteves (2008) narram que um grande contingente de crianças e adolescentes após a guerra ficaram impossibilitados de frequentar a escola por estarem doentes ou hospitalizadas. Esse fato corroborou para a criação de Leis, Políticas que visam suprir as lacunas deixadas pela guerra, instituindo alguns direitos aos indivíduos. Segundo estes autores, o Parlamento Europeu norteado pelas ideias registradas na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, pautado pelo respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana e em especial ao direito à educação, foi elaborada a Carta Européia das

25Disponível em: http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php

Crianças Hospitalizadas (CECH) em 1988. Essa Carta é constituída por oito itens dos quais destacamos apenas os itens relacionados à educação:

[...]as crianças [...] não devem ser admitidas em serviços de adultos, devem ficar reunidas por grupos etários para se beneficiarem de jogos, recreios e atividades educativas adaptadas a idade [...]. O hospital deve oferecer às crianças um ambiente que corresponda às necessidades físicas, afetivas e educativas [...] (GOMES, CAETANO, JORGE, 2008:3).

CECH de 1988 tem uma importância histórica na vida das crianças europeias por ser o 1º documento que institui aos hospitais o compromisso de suprirem as necessidades educativas das crianças enfermas enquanto estiverem hospitalizadas.

Em 1990 em Jomtien na Tailândia, foi elaborada a Declaração Mundial de Educação para Todos26. Esse documento reafirma o que foi estabelecido a nível mundial em 1948, no sentido de que todas as pessoas têm direito à educação. A Declaração Mundial sobre Educação para Todos de 1990 diz: “A educação básica deve ser proporcionada “a todas as crianças, jovens e adultos”. As autoridades responsáveis pela educação aos níveis nacional, estadual e municipal têm a obrigação prioritária, de proporcionar educação para todos”. Esse documento no Artigo 1 destaca a importância da educação básica, dizendo que ela “é a base para a aprendizagem e o desenvolvimento humano permanente”, e menciona que ao ser atendidas as necessidades básicas de aprendizagem os seres humanos poderão “sobreviver, desenvolver plenamente suas potencialidades, viver e trabalhar com dignidade, participar plenamente do desenvolvimento, melhorar a qualidade de vida, tomar decisões fundamentadas e continuar aprendendo”. Essa Declaração especifica que os instrumentos essenciais para a aprendizagem são a leitura e escrita, a expressão oral, o cálculo, a solução de problemas.

A elaboração desse documento foi de grande importância no embasamento para a implantação do trabalho pedagógico em hospitais, visto que ao determinar que todas as pessoas, crianças, jovens e adultos, sem distinção têm direito a educação básica, implica dizer que às crianças e jovens hospitalizados assiste o direito de receberem tal educação.

26Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0008/000862/086291por.pdf

Outro evento que merece destaque, na área educacional, foi o que ocorreu em junho de 1994, em Salamanca onde 92 governos e 25 organizações internacionais participaram da Conferência Mundial Sobre Necessidades Educativas Especiais: Acesso e Qualidade, com o objetivo de reconhecer o direito de toda a criança à educação e, sobretudo, o direito à educação das crianças com necessidades educativas especiais. Nessa Conferência, que foi organizada pelo Governo da Espanha em cooperação com a UNESCO, foi elaborado um documento intitulado: Declaração de Salamanca e Enquadramento da Ação na Área das Necessidades Educativas Especiais. Esse documento reafirma à assertiva de que todas as pessoas têm direito à educação, em conformidade com a Declaração Mundial de Direitos Humanos de 1948, e a Declaração Mundial de Educação para Todos que foi instituído em 1990.

A Declaração de Salamanca fornece orientações às escolas para que seu ensino alcance efetivamente todas as pessoas, inclusive os indivíduos que apresentam necessidades educativas especiais. Assim diz o documento: “as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares” (UNESCO27, 1998:2).

A expressão ‘necessidades educativas especiais’28 refere-se às dificuldades escolares que as crianças e jovens podem apresentar. Porém, o documento alerta que o aparecimento dessas dificuldades escolares é natural e comum em algum momento na vida de algumas crianças e, diante destas dificuldades, as escolas deverão buscar os meios propícios para que elas obtenham êxito na aprendizagem, e para isso é preciso que o ensino esteja centrado e adaptado as suas necessidades (UNESCO29,1998).

Dessa maneira, a Declaração de Salamanca foi elaborada com a intenção de fornecer orientações às escolas no sentido de acolher, aceitar e incluir a todas as crianças que apresentam necessidades educativas especiais, desenvolvendo

27 Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0013001393/139394por.pdf

Acesso em: 15 de março de 2012

28 A partir de 2008 em consonância ao documento da Organização das Nações Unidas (ONU)

o termo adotado nacionalmente é pessoa com deficiência.

29 Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0013001393/139394por.pdf

uma pedagogia centrada na criança, procurando atender a essas necessidades objetivando levá-las ao sucesso.

Benzer Belgeler