pessoas do mesmo sexo
Muito se tem falado e discutido a respeito da (in)constitucionalidade do PLC 122/06 e do reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, com muitas especulações sobre os reais motivos dos grupos homossexuais na luta por sua aprovação. O Direito, enquanto norteador e moderador de comportamentos, não se preocupa com as ideologias ou grupos que estão atuando nos bastidores, para a aprovação ou não desta ou aquela lei ou projeto de lei. Seus operadores buscam aplicar princípios e diretrizes que propiciem eficácia plena, tanto à norma em si, como às sanções determinadas por ela. Norma sem sanção é norma social, moral, religiosa e ética, não se confundindo com a Norma Jurídica, que possui como elemento fundamental a obrigatoriedade de sua aceitação e reconhecimento de sua força. O cumprimento da Norma Jurídica é imposição do Estado, para regular e manter uma estrutura social.
Como instituição reguladora, o Estado atua para evitar que o direito de um indivíduo prevaleça sobre o do outro, salvo exceções, que garantem a determinados grupos sociais, por meio da aplicação do Princípio da Igualdade, um tratamento desigual a pessoas em situações desiguais. Como exemplo da aplicação deste princípio, pode-se destacar o Estatuto do Idoso e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Tais leis foram criadas para proteger esses atores sociais, que em razão de sua fragilidade física e psíquica, necessitam de mecanismos de proteção capazes de impedir abusos e desrespeitos.
36 Anexo 2 – Tramitação do PLC 122/06, desde sua propositura até dezembro de 2013. Fonte Senado Federal, disponível em: http://www.senado.leg.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=79604 Acesso em 14 de dezembro de 2013.
A necessidade de proteção legislativa para grupos específicos, em razão de suas condições físicas e genéticas, proporciona argumentos de força e coesão discursiva, como componentes basilares da justificativa dos parlamentares evangélicos, de que direitos protecionistas devem ser concedidos somente àqueles que não possuem opção de escolha, excluindo os grupos LGBT desse contexto.
Como método discursivo, contrário às reivindicações pertinentes à promulgação do PLC 122/06, que tem como objetivo principal a criminalização da violência física e verbal contra a população LGBT, e o reconhecimento do casamento gay, os parlamentares evangélicos têm de forma perspicaz dissociado de seus discursos, os componentes religiosos substituindo-os por elementos legais, argumentando que as investidas da comunidade LGBT tem afrontado princípios fundamentais do direito brasileiro, ao mesmo tempo em que lutam pela criação de leis voltadas para a destruição do modelo de vida heteronormatizado, que tem na família nuclear formada por casal heterossexual e seus filhos, o instituto social que define e mantem equilibrada a sociedade brasileira.
Precursor do embate entre comunidade cristã e população LGBT, o PLC 122/06 tem sido alvo de inúmeros discursos dos parlamentares evangélicos, que tem sido apresentado como uma tentativa dos ativistas gays para “amordaçarem” a sociedade por meio de uma lei reconhecida como inconstitucional. A questão religiosa, sempre presente nesse contexto político, foi gradativamente sendo substituída nos discursos pelo apelo de que a população se posicionou de maneira inequívoca, contrária ao projeto, quando instada a expressar sua aprovação ou recusa por consulta online37, respondendo os internautas à seguinte pergunta: Você é a favor do PLC 122/06, que torna crime o preconceito contra homossexuais?, com 52% dos votantes optando contrariamente ao projeto. Como a própria consulta do Senado Federal não faz menção a qualquer fundamento religioso, os parlamentares argumentam que a recusa ao PLC 122/06 está fundamentada, no entendimento popular, de que os homossexuais não necessitam de leis específicas para protege-los, podendo fazer uso de leis gerais para todos os cidadãos, como a lei 7.716 de 05 de janeiro de 1989, conhecida como Lei contra o Racismo.
Desta forma, o PLC 122/06 tem sido atacado com fundamentos políticos e sociais, compreendidos como fundamentos de melhor política de combate aos interesses LGBT,
37 A consulta online formulada pelo Senado Federal Brasileiro, tinha como objetivo consultar a população sobre a criminalização da homofobia. A consulta permaneceu no site no período: 01/11/2009 a 30/11/2009, com uma totalização de votos: 465.326 http://www.senado.gov.br/noticias/datasenado/enquetes.asp?ano=2009 Acesso em 20 de fevereiro de 2012.
com as questões religiosas subsidiando o debate de modo que, a questão da livre expressão de consciência religiosa, seja visualizada de forma abrangente e não somente sob a ótica cristã. Seja como for, o argumento da proteção da família é sempre recorrente e lembrado nesses discursos, quando em pauta o PLC 122/06, conforme se posicionou o Senador pelo PRB/RJ e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Marcelo Crivela. A lei é uma excrescência. Fere o direito de liberdade de expressão. O direito de dizer que não concordo que o melhor caminho para meu filho seja o homossexualismo ninguém pode me tirar. Falo do homossexualismo, não do homossexual. (MARCELO CRIVELA, ESTADÃO, 2008).
O discurso acima, demonstra como a questão do PLC 122/06 tem sido dissociada da questão religiosa. O discurso de Crivela fundamenta sua discordância do projeto em dois pontos básicos, que caracterizam muito bem a mudança brutal que sofreu o posicionamento aberto dos parlamentares a respeito do tema: A educação dos filhos e a “humanização” do homossexual, em contraponto com o discurso duro contra suas práticas sexuais. O discurso expõe ao mesmo tempo, a figura do pai preocupado com a educação moral de seus filhos e um homem público que demonstra respeito pelos homossexuais. A própria utilização do termo homossexualismo deixa transparecer uma resistência a todo e qualquer argumento fundamentado em parâmetros e reivindicações LGBT, uma vez que, o termo não é reconhecido somente pelos grupos homossexuais como pejorativo, pois sua utilização foi abolida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1990, retirando do rol de doenças mentais a homossexualidade.
Desta forma, os homossexuais entendem que a utilização do termo homossexualismo pelos líderes e parlamentares evangélicos, tem o objetivo de patologizar o comportamento homossexual. Entretanto, a insistência no uso do termo homossexualismo vai além de questões gramaticais ou patológicas, ela fornece elementos essenciais para o entendimento do fortalecimento do discurso, contrário às reivindicações homossexuais, sem deixar transparecer as causas subjacentes que permeiam o emaranhado de sentidos, que conduz a um entendimento da homossexualidade como contrário à natureza humana ou desvio de conduta.
De outro modo, o PLC 122/06 tem sido muito criticado e exposto como um projeto de lei tendente a abolir o Estado Democrático de Direito, interferindo no direito fundamental da liberdade de expressão. O discurso sobre a possibilidade de o projeto criminalizar juízos de valor e objeção de consciência é utilizado, de forma recorrente e com muita veemência, para mobilizar a sociedade civil a um entendimento de que está em curso no país um projeto que não somente tem interesses em atribuir direitos à comunidade
LGBT, mas exterminar toda e qualquer forma de resistência social contrária à homossexualidade, criando um grupo social privilegiado, ao mesmo tempo em que fornece mecanismos para condução e controle social, fundamentados em uma “ditadura” homossexual.
A questão da liberdade de expressão associada a outras questões sociais de relevância, como a questão do combate aos privilégios desnecessários, tem sido elemento fundamental para o fortalecimento do discurso dos parlamentares evangélicos contrários às reivindicações homossexuais, dissociados das questões religiosas.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, venho a esta tribuna no dia de hoje reiterar nossa posição contrária ao Projeto de Lei da Câmara nº 122, de 2006, em tramitação no Senado Federal. Da forma que o PLC 122 foi redigido, qualquer manifestação criticando a conduta dos homossexuais poderá ser caracterizada como discriminação ou preconceito. O PLC 122 fere o princípio da liberdade de expressão e cria uma casta privilegiada, criando privilégios para os homossexuais, de forma inconstitucional. Somos contrários a qualquer tipo de violência, seja contra a criança, contra a mulher, contra o idoso ou contra o homossexual. Mas não podemos legislar com base na opção sexual da pessoa (DEPUTADO FEDERAL DR. GRILO, CÂMARA FEDERAL, 2013).
O discurso do Deputado Federal pelo PSL/MG e membro da Igreja Internacional da Graça de Deus, Dr. Grilo a exemplo do discurso do Senador Marcelo Crivela, acrescenta ao discurso (dos parlamentares evangélicos), componentes humanizadores para referir-se ao homossexual, sem contudo, desprezar a possibilidade de aprovação do PLC 122/06 como um retrocesso político, que criaria uma classe privilegiada em razão de sua opção sexual, e não por necessidades verdadeiras, com a questão da violência sendo tratada de forma igualitária quando praticada contra crianças, mulheres, idosos ou homossexuais. A aproximação dos homossexuais a figuras que reconhecidamente merecem especial atenção, na questão de garantias individuais, harmoniza o discurso contrário às reivindicações homossexuais, suavizando as contundentes arestas do discurso religioso, camuflado na defesa de questões sociais relevantes.
Mesmo em questões reconhecidas como consumadas e sem possibilidades de reformulação, os parlamentares evangélicos permanecem firmes e contundentes na defesa de ideais, considerando o discurso suavizado como estratégia perfeita para o enfrentamento, sem que haja a necessidade de expor questões religiosas claramente. A mudança no discurso,leva a uma compreensão de que as questões religiosas fragilizam o potencial discursivo que apela para proteção da família ou da afirmação de que toda forma de preconceito deve ser banida da sociedade brasileira, sem, contudo, permitir que a questão da liberdade de expressão, bem próxima da liberdade de consciência religiosa, seja afetada, de
modo que a garantia constitucional da liberdade religiosa seja defendida sem a necessidade de sua menção, evitando polarizações.
A discussão sobre a aprovação do casamento homossexual, tem proporcionado inúmeros debates calorosos. Dentre os questionamentos a respeito da matéria, a posição do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar e posteriormente, o Conselho Nacional de Justiça determinando aos cartórios de registros civis de todo território nacional, que procedam a conversão das uniões estáveis homossexuais em casamento civil.
Os parlamentares evangélicos tem se posicionado contrariamente em ambos os casos, afirmando com veemência que está em curso um projeto de desestruturação da sociedade e família brasileira, começando pela desestruturação das leis constitucionais e civis que regem o país e determinam com clareza o modelo de casamento constituído legalmente entre homem e mulher.
Desta forma, os posicionamentos do STF e CNJ a respeito da união civil entre pessoas do mesmo sexo e sua conversão em casamento, tem sido alvo de inúmeros questionamentos pelos parlamentares evangélicos, em razão da suposta ingerência e usurpação de poder, com o Poder Judiciário legislando, quando deveria julgar. Inconstitucionalidade, decisão política, ingerência, abuso de poder, interferência entre poderes, desestruturação e desfiguração da família, são argumentos utilizados para condenar essa nova configuração familiar, implantada por decisões judiciais que simplesmente reconhecem histórias de fato também como de direito, retirando da “obscuridade” jurídica essas uniões, que em alguns casos perduram por anos e anos de vida em comum.
Os discursos condenatórios, pautados nas leis que regem o país, ganham força associado ao fato de que alguns dos parlamentares são “favoráveis” ao reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, porém contrários à sua conversão em casamento. “De fato, há uma diferença. Não há como negar que no caso de pessoas que criam um patrimônio juntas, na morte de uma, a outra merece ficar com a herança. Porém, o que eu vejo é uma porta aberta para que outros intentos sejam conquistados” (MARCO FELICIANO, EXIBIR GOSPEL, 2012). Argumentam que o reconhecimento da união civil garante direitos previdenciários e hereditários, e que a sua conversão em casamento, é uma afronta à sociedade e um projeto de desestruturação social ainda maior. Nesse contexto, conjecturam que o próximo passo dos grupos homossexuais seria retirar de todo documento oficial, as nomenclaturas pai, mãe, bem como, banir do calendário das escolas as festividades dos dias dos pais e das mães, para que o processo de adoção de crianças por casais
homossexuais seja facilitado, sob o discurso da contemplação da diversidade sexual (MAGNO MALTA, IPCO, 2013).
O discurso sobre a manutenção da família nuclear vai angariando elementos ao longo do caminho e fortalecendo o discurso religioso, sem uma única frase que lembre ou cite as bases de sustentação religiosa da bancada evangélica. O abandono de frases, como “Deus fez Adão e Eva”, “varão com varão é abominação”, e a utilização de frases como: “a Constituição Federal reconhece a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar”, deixa claro, que defender a família suaviza o discurso de modo que as resistências e rejeições populares e políticas, aos métodos de enfrentamento e oposição praticados pelos parlamentares evangélicos contra as reivindicações LGBT, deixam de ser reconhecidas como mero ato de intolerância.
Assim, firmados em uma nova retórica, que ressalta a importância da independência entre os poderes políticos da federação, os discursos são dirigidos de modo que os atos políticos favoráveis às demandas dos ativistas homossexuais sejam compreendidos como atos ilegais alicerçados em ingerências, turbações e esbulhos praticados pelo Poder Judiciário contra o Poder Legislativo.
Esse embate entre os poderes é sinalizado como resultado de uma trama concebida com o intuito de garantir apoio político para a comunidade LGBT e suas aspirações, como política de segregação e discriminação dos demais grupos sociais, que estariam enfrentando um processo de “domínio” e “supremacia” de uma minoria, como forma de inversão de valores sociais. Bem assessorados na construção de seus discursos, os parlamentares evangélicos viabilizam atuações em inúmeras frentes, agrupando matérias que compreendam o universo temático, em defesa da família, cidadania, vida, moral e bons costumes.
Os discursos empregam de forma eloquente as mais variadas fontes na defesa de seus interesses, de modo que fontes externas são trabalhadas e enquadradas em momentos estratégicos, como suporte de persuasão assentado sobre pensamentos ou ações internacionalmente conhecidos, apresentados como argumentos de autoridade “dignos de serem seguidos”.
Aproveito ainda para comentar sobre a bravura de um país europeu que, sendo a última nação pós-era comunista a aprovar sua nova Constituição, teve a coragem — e digo coragem, pois tem sofrido diversas críticas — de colocar em sua carta magna
uma lei que protege a família: Líderes húngaros aprovaram uma lei que protege a família tradicional, desafiando
contínuas críticas de que sua nova constituição restringiria o aborto e a homossexualidade (JEFFERSON CAMPOS, CÂMARA FEDERAL, 2013).
O discurso do Deputado Federal pelo PSB/SP e pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Jefferson Campos, realizado em sessão plenária na Câmara dos Deputados em 27/11/2012, revela uma manipulação discursiva, que emprega com enorme desenvoltura institutos jurídicos como analogias de direito comparado, recorrendo à Constituição Húngara, para estribar suas convicções políticas, não se esquecendo de mencionar sua origem europeia, que “certamente” associa segurança e modernidade à sua proposta.
Desta forma, muitos são os discursos que recriminam as atuações do STF e CNJ, que por meio decisões jurídicas e administrativas, têm reconhecido as novas configurações de família, diante da inércia “proposital” do Legislativo, alterando elementos e preconcepções da formação da familiar nuclear brasileira, iniciando um processo de mudança estrutural que reconhece as reivindicações LGBT como legítimas e como consequência, concede os direitos para pleno exercício dessa nova cidadania.
Dentre os inúmeros discursos contrários às atuações do STF e CNJ garantindo o direito à constituição familiar aos homossexuais, o pronunciamento do presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Deputado Federal pelo PSDB/GO e pastor da Igreja Assembleia de Deus João Campos, se faz notar tanto pela contundência do discurso como pela ausência de argumentos religiosos.
Vamos levar essa discussão para a Frente Parlamentar. Vamos ver como agir. O que o Supremo fez, na decisão de 2011, já exorbitando o papel dele, foi considerar que a união estável não é só entre homem e mulher, não tratou de casamento gay. De onde é que o CNJ tirou que está se baseando em decisão do Supremo? [...] Se já não bastasse o atropelo do Supremo à Constituição, agora é o CNJ que interfere no Legislativo. Não cabe ao CNJ fazer interpretação do Supremo ou estabelecer norma. O papel dele é de fiscalização do Poder Judiciário, de regulamentar atos normativos. Nessa decisão, estão ampliando a decisão do Supremo e estabelecendo uma norma, fazendo lei (GLOBO.COM, 2013).
O discurso revela, de forma categórica, como os atuais conflitos de competência entre Legislativo e Judiciário criam impasses para resoluções pacíficas que apressem não somente os trâmites para aprovação de leis e projetos de leis, mas que direcionam as discussões para questões centrais que permitam a aceleração do processo. A arguição de que as questões sobre reconhecimento de união estável e sua conversão em casamento são matérias de competência exclusiva do Poder Legislativo, sem quaisquer alusões a figuras, sentimentos ou argumentos religiosos, tem como objetivo desviar as atenções de seus reais interesses políticos na defesa incondicional da família e, subjugar politicamente toda e qualquer iniciativa contrária às aspirações cristãs como religião hegemônica.
O ocultamento das intenções para se criar uma “supremacia” religiosa cristã nas questões de Estado, propicia uma defesa estratégica que, se não impossibilita, enfraquece o
argumento dos críticos contrários à atuação de políticos ligados a denominações religiosas, como método de proselitismo político que coloca em dúvida os princípios fundamentais de laicidade como separação entre Estado e Religião.
Composta de políticos das mais diversas faixas etárias e sociais, a Bancada Evangélica atua em uníssono nas questões de proteção e manutenção dos direitos religiosos, de modo que, os elementos eminentemente religiosos como a Bíblia, a condenação da homossexualidade, o divórcio, a submissão feminina, a demonização das religiões de matrizes africanas, salvo melhor compreensão, são quase completamente encobertos nos discursos dos parlamentares evangélicos, exceção feita à defesa do direito de livre consciência religiosa, sempre prevalecendo os argumentos de que sua luta é pela preservação de entidades anteriores à própria constituição do Estado e suas leis, família e sociedade. Como construtora e estruturadora do primeiro núcleo social conhecido, a família, assume relevante significância no modelo discursivo dos parlamentares evangélicos e, por consequência, sua defesa é apresentada como caracterizadora de políticos engajados em políticas públicas de bem estar e preservação social.
Outro fator importante na construção reacionária dos parlamentares evangélicos, no que se refere às questões e reivindicações LGBT, é o pouco ou quase nenhum posicionamento do núcleo feminino da Bancada Evangélica, a respeito do assunto. Composto por dez parlamentares, o núcleo feminino tem como escopo apresentar e representar questões de cunho social, com projetos voltados para a acessibilidade de portadores de deficiência, a saúde pública da mulher, a proteção ao menor carente, mulheres e idosos, e proteção do trabalhador.
Questões controversas como divórcio, condenação das práticas homossexuais, adoção de crianças por casais homossexuais, casamento gay, ensino sobre diversidade sexual nas escolas, ao que parece, não fazem parte da relação de prioridades e, não raras vezes, evitadas a todo custo. Por essa razão, há uma escassez de discursos do núcleo feminino da Bancada Evangélica nesse sentido, impossibilitando uma análise mais detalhada sobre o papel feminino nas construções dos pensamentos e ditames políticos fundamentados em dogmas religiosos cristãos, conforme assevera Sandra Duarte de Souza.
O debate dos direitos reprodutivos das mulheres estava na boca dos homens. As parlamentares evangélicas entraram mudas e saíram caladas da discussão, daí a dificuldade de encontrarmos material discursivo dessas mulheres que estivesse disponível na mídia e pudesse ser analisado (SOUZA, 2013, p. 197-198).
Deste modo, e diante da escassez de discursos e ações das parlamentares evangélicas a respeito, é importante ressaltar o posicionamento da Deputada Federal Lauriete que, em
conjunto com os deputados Acelino Popó e Marcelo Aguiar, protocolou o Projeto de Lei 733/11, que tem como tema principal o combate a projetos de lei que criem distinções e preferências entre brasileiros, como forma de ataque aos princípios basilares da proteção estatal à família. “Nada mais pretendemos que a efetivação constitucional no sentido de assegurar que o Estado brasileiro não seja controlado por grupos minoritários que queiram