5. SONUÇ VE ÖNERİLER
5.1. SONUÇLAR
O modelo da pesquisa solitária que descrevemos é, como indicamos, bastante presente na comunidade brasileira das Humanidades. Isso se deve em grande parte a que tal modelo efetivamente rende frutos significativos em relação a vários objetos de investigação da mais alta relevância na área. Além disso, quando reconstruímos a história da reflexão na área de Humanidades, encontramos sistemas conceituais elabora- dos por indivíduos, tais como: Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Lévi-Strauss, Marx, Weber, Durkheim, Gramsci, Saussure, Chomsky, para mencionar apenas alguns dos muitos nomes que se destacam nessa área. Curiosamente, com raras exceções, não vemos referência a grupos de pesquisadores, a não ser quando, por exemplo, nos referimos aos estruturalistas, anar- quistas, marxistas, entre outros, que compartilham princípios, mas não necessariamente estabelecem vínculos de colaboração entre si.
O cenário descrito parece estar pedindo por mudanças, uma vez que o modelo solitário começa a encontrar dificuldades para tratar de novos temas e problemas resultantes de pesquisas contemporâneas cujos resultados ecoam nas Humanidades. Tal dificuldade se manifesta especialmente quando os temas ou pro- blemas extrapolam os limites da disciplinaridade, como ocorre quando se trata, por exemplo, do caso da Filosofia, da natureza dos processos mentais, das relações ecológicas organismos/ ambiente e suas implicações ou de aspectos éticos relacionados às pesquisas científicas e às novas tecnologias informacionais, dentre outros problemas.
No que tange à natureza dos processos cognitivos investigados pela Filosofia da Mente, podemos colocar várias perguntas que a abordagem disciplinar da Filosofia não tem conseguido tratar
com sucesso: Qual é a natureza da relação mente/corpo? Qual é a natureza da consciência? Em que consiste o pensamento? Será que o pensamento pode ser simulado ou emulado por modelos mecânicos? Qual é o papel do meio ambiente nos processos cognitivos?
No que se refere às relações ecológicas entre o ser humano e o ambiente, merecem destaque os problemas ambientais gera- dos por práticas produtivas, agrícolas, arquitetônicas, urbanas, turísticas, entre muitas outras e suas possíveis implicações socio- lógicas, filosóficas, antropológicas etc. Tais problemas levantam perguntas como: Qual é o lugar do ser humano na natureza? Quais são as consequências do projeto humano de conhecer a natureza para “dominá-la”?
Por fim, a análise e discussão das implicações éticas da pesquisa científica contemporânea e das novas tecnologias infor- macionais envolvem temas e problemas que parecem novos como, por exemplo, aqueles relacionados a aspectos éticos das pesquisas efetuadas com animais ou ao impacto do uso de tecnologias como o DBS (Deep Brain Stimulation – estimulação cerebral profunda): será eticamente admissível utilizar animais não humanos possi- velmente dotados de consciência (como primatas, por exemplo) em experiências que não são praticadas em humanos por serem conscientes? Quais são as possíveis implicações éticas de utilizar implantes que afetam a identidade psicológica da pessoa, como parece ser o caso daqueles para estimulação cerebral profunda?
Enfrentar questões como essas parece exigir um tratamento diferente do convencionalmente dado às pesquisas das Humani- dades, pois a complexidade dos tópicos envolvidos ultrapassa os limites disciplinares de uma pesquisa solitária.
Como ilustração, dentre os tópicos apresentados, podemos contrastar os estudos realizados sobre a natureza da mente na perspectiva disciplinar da Antropologia Filosófica e na perspec- tiva interdisciplinar da Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva.
No primeiro caso, a mente é considerada como uma substância imaterial, distinta do corpo, não ocupando um lugar no espaço e responsável pelo exercício do pensamento e do direcionamento do corpo, o qual se locomove impulsionado pela vontade. Na perspectiva da Antropologia Filosófica, apenas a mente é respon- sável pela produção do conhecimento em geral e do conhecimento de seus conteúdos por meio de processos introspectivos, mas não consegue conhecer sua própria natureza por ser ela imaterial e sobrenatural. Embora ainda presente nas Ciências Humanas, essa abordagem dualista não consegue explicar de que modo a mente concebida como imaterial e não sujeita às leis físicas pode ter poder causal em relação ao corpo.
Por outro lado, na perspectiva da Filosofia da Mente e da Ciência Cognitiva contemporânea, a mente é estudada a partir de uma abordagem interdisciplinar. Várias ciências – como Psico- logia, Computação, Linguística, Neurociências, Biologia, dentre outras – têm uma agenda de pesquisa que compartilha pressupos- tos, um vocabulário comum e um método de investigação. Essa abordagem interdisciplinar considera que a mente não é uma entidade sobrenatural imaterial que esteja, por princípio, além do alcance do conhecimento humano. Para a Ciência Cognitiva, ao contrário, a mente constitui um sistema complexo que pode, em princípio, ser conhecido a partir de modelos que expliquem suas propriedades.
Cada uma das concepções de mente aqui exposta está asso- ciada a visões muito diferentes de ser humano: para a primeira abordagem, por exemplo, apenas seres humanos seriam dotados de mentes, pois apenas eles teriam as capacidades reflexivas responsáveis pelo conhecimento considerado de alto nível. Para a segunda abordagem, porém, sistemas físicos não humanos (naturais ou artificiais) podem ser capazes de instanciar estados mentais desde que processem apropriadamente informações que lhes permitam, por exemplo, resolver problemas.
Na contemporaneidade, a Filosofia da Mente em sua parce- ria com a Ciência Cognitiva traz evidências de que o estudo dos processos mentais exige pesquisas interdisciplinares em rede. Torna-se cada vez mais difícil defender as teses mais fortes da abordagem dualista da mente da Antropologia Filosófica tradi- cional, como, por exemplo, a de que o corpo humano não desem- penha um papel relevante nos processos mentais. Já a abordagem interdisciplinar da Filosofia da Mente e da Ciência Cognitiva permite perceber, por exemplo, que processos metabólicos es- tão diretamente relacionados a estados mentais como ansieda- de, nervosismo, tristeza, euforia, dentre muitos outros. Graças à adoção de uma perspectiva interdisciplinar, reconhecemos hoje com mais facilidade que práticas alimentares, interações ecológi- cas com o meio ambiente, história imunológica e genética, dentre outros aspectos desconsiderados na Antropologia Filosófica, são relevantes para caracterizar a condição humana. Na próxima se- ção trataremos brevemente de possíveis contribuições da inter- disciplinaridade para as pesquisas das Humanidades.