Com certeza, os artefatos não são todos de um único tipo. Por isso, o estu- do dos contratos como artefatos deve começar com uma avaliação preli- minar de como os documentos contratuais se assemelham ou não a outros produtos sociais mais conhecidos. Uma vez que situar com precisão os contratos em uma taxonomia completa dos artefatos iria muito além do limitado escopo deste texto, simplesmente compararemos os contratos com algumas classes de artefatos, deixando analogias mais específicas para uma pesquisa futura. Mesmo nesse nível de generalidade, no entanto, o cenário não é simples. Em vez de serem classificados em apenas uma categoria, os documentos contratuais têm uma obstinada dualidade, atuan- do simultaneamente como artefatos técnicos e artefatos simbólicos, ainda que em variados graus em contextos diversos. Essa distinção entre o téc- nico e o simbólico permeia o pensamento sociológico-científico sobre arte- fatos de todos os tipos, ecoando, por exemplo, na distinção de McLuhan
e McLuhan23 entre “hardware” e “software”, e no contraste feito por
Kubler24 entre “objetos de uso” e “obras de arte”. Mais recentemente, mui-
tos autores argumentam que todos os artefatos personificam ambos os ele- mentos, técnico e simbólico.25 Todavia, esses dois aspectos ainda tendem
a evocar estilos bem diferentes de análise e essa divergência diz respeito a importantes tensões e clivagens no interior da metáfora “artefatualista”.
Como artefatos técnicos, os contratos estabelecem intrincadas estru- turas de procedimentos, compromissos, direitos e incentivos – tudo para realizar objetivos práticos na governança das transações humanas. Se as relações de troca representam a interface entre as peças da máquina social, que funcionam de forma independente, os contratos são como bra- çadeiras e argolas que fazem com que os diversos subconjuntos operem como uma unidade simples. Ou, para invocar uma metáfora mais domés- tica, os contratos fornecem os pontos e o estofamento que formam o teci- do social.26Assim como as máquinas e os tecidos, os diferentes tipos de
ligação contratual têm características técnicas diferentes: alguns são mais permeáveis e outros mais herméticos; alguns são mais flexíveis e outros mais rígidos; alguns são mais duráveis e outros mais tênues. Um contrato que fala de “condições de mercado” ou de “usos comerciais” cria aber- turas pelas quais podem entrar fatores externos na transação; um contrato que impõe às partes que empreendam seus “melhores esforços” para o cumprimento é mais flexível do que outro que especifique procedimentos para cada contingência; além disso, um contrato que preveja o “direito de primeira recusa” [“right of first refusal”] é mais durável que uma única troca realizada à vista. Os diferentes acordos também diferem na forma de distribuir os encargos e pressões da ação conjunta e na maneira como canalizam energia, força, poder e recompensas. Provisões indenizatórias, taxas de contingência, direitos de inspeção e depósitos de seguro são ape- nas algumas das muitas maneiras pelas quais os contratos podem unir partes distintas em um articulado (mas não necessariamente simétrico) aparato social. Desse modo, todo contrato incorpora uma “tecnologia de governança” [“governance technology”]27 particular com consequências
específicas em conjunturas específicas. Como os demais instrumentos tecnológicos, os contratos servem para fins materiais específicos, e um
observador pode medir a sofisticação de qualquer desenho contratual em função de sua eficiência e efetividade em alcançar aqueles fins.
Poucos contratos, no entanto, são meramente utilitários. Juntamente com suas funções técnicas, os artefatos contratuais também compartilham características importantes com certas formas de representação simbólica. Como manifestações da cultura, os contratos evocam princípios norma- tivos e iluminam experiências sociais – às vezes expressando identidade, solidariedade, tolerância e confiança, e às vezes demonstrando diferen- ciação, desigualdade, dominação e desconfiança.28As cláusulas de “melhor
esforço” tornam-se sinais de boa-fé, e as de garantias de segurança tor- nam-se declarações de desconfiança; as revisões negociadas tornam-se demonstrações de cooperação, e os formulários impressos tornam-se indi- cadores de opressão; garantias tornam-se emblemas de qualidade, e retrata- ções (limitação ou exclusão de responsabilidade) tornam-se marcas de deficiência. Sob essa perspectiva, os contratos aparentam menos um remendo e mais um bordado, um pouco menos argolas e mais alianças de casamento. Análises técnicas podem descrever adequadamente sua força elástica e condutividade térmica, mas, para compreender sua relevância social, é condizente uma abordagem mais interpretativa. Por isso, além de incorporar um conjunto de tecnologias de controle, todo contrato tam- bém incorpora um conjunto de “gestos significantes”,29 que carregam sig-
nificados particulares em discursos particulares. Como outros totens simbólicos, os contratos são portadores de mensagens culturais identifi- cáveis, e um observador pode medir a sofisticação de qualquer design contratual dado não somente por sua eficiência e efetividade, mas tam- bém por sua compreensibilidade e evocatividade – critérios de eficácia comunicativa ao invés de eficácia tecnológica.
Essa dualidade sugere que, no nível micro, atores sociais empregarão contratos tanto como um meio técnico de estruturar relações como quanto um meio simbólico de comunicação de crenças. De forma semelhante, no nível macro, as dinâmicas dos regimes contratuais se assemelharão tanto à difusão e ao nivelamento de inovações tecnológicas, quanto à elaboração e institucionalização dos vocabulários culturais. As micro e macro presun- ções paralelas pautarão as próximas sessões deste texto.