A herança familiar constitui-se também de valores, comportamentos, atitudes que em geral têm os indivíduos em sua vida. Como se observou no capítulo II, muitos dos componentes da herança disponibilizada a Pedro Nava pelos parentes, conforme o que a narrativa do escritor permite verificar, apresentavam-se sob forma de características pessoais dos membros de sua família. Uma vez observados os traços de seus parentes, o memorialista afirma que, desde menino, podia perceber (e valorizar) certas virtudes de familiares:
[...] Cedo meu avô terá ficado órfão, pois foi ser criado por sua tia-avó que era também a avó de seu primo, irmão adotivo, compadre e melhor amigo – Antônio Ennes de Souza, homem por todos os títulos admirável que tive a vantagem de ter como influência na infância e mestre na adolescência. E tive outra prerrogativa: a de, menino, perceber a qualidade do homem com quem lidava (NAVA, BO, 2002, p.10).
Pedro Nava parece ter desenvolvido a habilidade de não apenas detectar os traços de personalidade de seus parentes, mas também de proceder à escolha de determinadas características dos membros de sua família para valorizar e até para permitir que elas o influenciassem durante seu processo de formação. Sendo assim, o “herdeiro” reconheceria, ao longo da vida, a “influência” que os parentes exerceriam sobre ele. Dessa maneira, Nava teria a possibilidade de escolher o que herdar entre os elementos de uma herança familiar cultural bastante diversificada.
Ennes de Souza, personagem recorrente em Baú de Ossos, era, como já se mencionou nesta dissertação, primo-irmão de Pedro, avô paterno do memorialista. Ele figura nas Memórias como “um homem de qualidade”, digno não apenas de ser lembrado por suas virtudes, mas também para servir como um exemplo. Entre suas virtudes, Ennes era abolicionista e republicano (NAVA, BO, 2002, p.327), como o foram José, o pai do escritor, e tio Salles, protagonistas nos processos formativos de Pedro Nava. Somado a isso, como José Nava e Antônio Salles, Ennes de Souza cultivava “boas” relações, como é o caso da amizade que mantinha com Artur Azevedo (p.327), e tinha, por causa de sua cultura e experiência, o que contar para os membros mais jovens de sua família: “[...] Londres vibrou com a vitória de Vitória. Que euforia! Ennes de Souza, que lá estava, assistiu, num teatro, a um quadro apoteótico. [...]” (p.196).
Mesmo os “vícios” da maior parte dos parentes paternos de Pedro Nava são tratados, diferentemente dos “defeitos” da maioria dos familiares maternos, com leveza e aparecem aliados às qualidades dessas personagens. Na engrenagem narrativa de Nava, para a família paterna, os vícios fazem de seus parentes “personagens reais”, humanas. Entretanto, há sempre o cuidado na utilização da pena para que os possíveis vícios dessas personagens sejam contrabalançados com virtudes:
Quando Ennes de Souza exagerava no espírito fantasista, desmandava-se em linguagem excessiva contra as instituições, gastava mais do que podia auxiliando parentes, amigos e até simples conhecidos; quando descomedia-se na cerveja e no vinho branco e apesar de bom marido mostrava ternura exorbitante pelas louras, morenas, altas, baixas, claras, mulatas, magras, gordas, ricas e humildes com quem cruzava – era meu avô, com sua autoridade de primo mais velho, de irmão adotivo e de compadre que o repreendia docemente. Grande admirador de sua inteligência, terminava sempre seus conselhos dizendo: “Totó, Totó, quem me dera seu talento mas... com meu juízo...” Porque o critério, o julgamento, a medida e o equilíbrio eram outras qualidades de meu avô reconhecidas por todos, ele mesmo, inclusive. [...] (NAVA, BO, 2002, p.66).
Por ser inteligente, não haveria problemas em criticar excessivamente (e de maneira fantasiosa) as instituições. Interessar-se por outras mulheres mesmo sendo casado também não era grande problema, pois tal interesse só aflorava quando Ennes bebia um pouco mais. Na mesma direção, se seu avô paterno sabia e reconhecia suas próprias qualidades, isso não seria sinal de pedantismo ou arrogância, até porque “o critério, o julgamento, a medida e o equilíbrio” eram qualidades suas.
No caso do avô paterno de Pedro Nava, suas virtudes eram destacadas com frequência entre seus descendentes. A herança deixada por Pedro da Silva Nava ia aparecendo a cada geração “no fim de certos risos, no remate de dados gestos, na possibilidade das mesmas doenças, na probabilidade de morte idêntica” [...] (NAVA, BO, 2002, p.13). O avô, com quem Pedro Nava não chegou a conviver, teria marcado a trajetória do memorialista porque Nava esteve durante a vida sempre envolvido pela lembrança do avô, ouvindo as histórias que dele se contava, conhecendo, por meio de outros parentes, suas características. Desse modo, a herança do avô paterno tornou-se para o escritor, nas malhas da narrativa, não apenas um conjunto de elementos que vai aparecendo na personalidade e no comportamento dos descendentes desse parente, mas também um fator que identifica os Nava:
[...] Só não sabia tudo dos negócios e da vida de meu avô170 porque este era bem do nosso temperamento Nava – falando quando solicitado, falando até bastante, às vezes parecendo demais, e, na realidade, dizendo pouco. Dava entrada, dava, como as estações dão entrada e até muita plataforma aos que vão chegando, mas que esbarram nas portas fechadas da administração (“É proibida a entrada às pessoas estranhas!”). E no fundo, para nós (pelo que sei de meu Pai, pelo que vi de suas irmãs), todos são estranhos, mesmo os mais íntimos, devido a certa desconfiança, quase certeza de que ninguém gosta de ninguém e devido ao aprendizado do berço de que pessoa alguma tem nada com o que sentimos. Essas convicções ancestrais é que faziam o equilíbrio de meu Pai e das suas irmãs. A cara de pau assumida invariavelmente por todos, mostrando indiferença na ocasião de chorar. Ninguém se dando em espetáculo fosse em que hora fosse dos mistérios dessa vida – gozosos, dolorosos, gloriosos... Essa falta de afagos, de beijo pra aqui, beijo pra acolá. E a nossa deliberada, assumida, madura e decidida sem-graceira. Por dentro, sim, é outra coisa. Mas isso é com cada um e assunto particular para ser deixado em maceração dentro dos nossos restos de sangue lombardo. Pois com essas defesas e tudo, meu avô se afeiçoou ao Vaz Júnior, bom empregado, bom associado e que acabou bom amigo da Rua
170 Aqui, Pedro Nava se refere a Vaz Júnior, “braço-direito e homem indispensável” (NAVA, BO, 2002,
p.63) para seu avô paterno. Vaz Júnior trabalhava na casa comissária do avô do escritor. Esse seria o homem que, mais tarde, trataria, segundo o memorialista, de roubar grande parte dos ganhos que o avô de Nava teria obtido por meio do trabalho em sua casa de comércio, no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX.
Ipiranga (NAVA, BO, 2002, p.63. Os grifos são nossos; o destaque em itálico, do autor.).
A herança que legou Pedro da Silva Nava aos seus tornou-se uma espécie de tradição familiar necessária para o escritor porque fazia com que ele mesmo se identificasse171 com e no pertencimento ao “clã” dos Nava.
Gravidade, severidade, compostura, características da personalidade de Pedro da Silva Nava, iam sendo a cada dia destacadas nos encontros da família como virtudes. Também o trabalho diário em sua casa comissária, sua dignidade, sua reserva, benevolência, seu modo afável e ao mesmo tempo distante, para lidar com os empregados, foram sendo cultivados pela família ao longo dos anos. A esses elementos de seu caráter, somavam-se outros:
Como espelho de vários lados, outras faces ele deixou: a da inteligência e bom convívio, a que se referiam seus cunhados; a da bondade e doçura, que impregnam mulher e filhos; a de sua pilhéria rabelaisiana e do seu gosto pela farsa, onde não figurava mais como um grave Rembrandt, mas em que aparecia, junto a seu cúmplice Totó Ennes, nas cabriolas das quermesses de Breughel ou das sarabandas tragicômicas de Hieronymus Bosch. [...] (NAVA, BO, 2002, p.57-58).
Entre os elementos da herança deixada pelo avô paterno, está a sua relação com a cultura. Pedro Nava (por meio de uma estratégia discursiva para engrandecer o ramo paterno da família? Por meio de uma suposta “simplicidade”?) se pergunta sobre a erudição do avô. O sujeito-narrador não o considerava um letrado, apesar de possuir, na sua perspectiva, uma instrução bem acima daquela que lhe exigiria seu trabalho. Correspondia-se por meio de cartas em um “estilo epistolar correntio e decente – que não escamba um instante, em frase enfeitada ou veleidade literária. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.17); conhecia a Europa; falava e escrevia em língua francesa; possuía “sensibilidade artística, acuidade crítica e bom gosto espontâneo. [...]” (p.17).
Se do avô paterno Pedro, o memorialista vivenciou sua presença por meio de lembranças; admirou, em seu pai, nos tios, as características dele herdadas, no caso de sua avó Nanoca, o contato foi direto, sem intermediações. D. Ana Cândida Pamplona e suas
171 O escritor, ao conceber sua obra memorialística procede a um trabalho de (re)arrumação da memória, nos
termos de POLLAK (1992), e evidencia, dessa maneira, a ligação da memória com uma identidade coletiva, no caso, a identidade de sua família. Escrevendo o passado em suas Memórias, Pedro Nava mostra os investimentos de seus parentes, sobretudo no ramo paterno, (e os dele mesmo) para dar a cada membro do grupo “o sentimento de unidade, de continuidade e de coerência” (POLLAK, 1992, p.206).
filhas mostraram a Pedro Nava, por exemplo, como se pode ter os dias cheios. “[...] Essa virtude pelo horário é disciplina meio moçárabe, meio portuguesa, fixada nos costumes da boa burguesia do Norte. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.24). A maior parte das mulheres da família de Pedro Nava preenchiam suas horas com atividades domésticas e com rezas. Desse modo, elas iam ensinando ao menino a não ficar parado, a ter com que encher o tempo.
Dos Pamplona, também se disponibilizaram para Pedro Nava o “temperamento sensível, vibrante, imaginoso” e outras características que os distinguiam: “[...] a invariável boa educação, a cortesia exemplar e a bondade imensa, infantil absurda – tocando as raias da ingenuidade. Além disso, certa morbidez, certo gosto espanhol escurialesco pela morte, pelo sepulcro, pelo cadáver e pelas lágrimas. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.41). Assim, nas casas dos parentes paternos,
Tudo concorria para a cordialidade, a boa convivência e a palestra deleitável. A cortesia. O bom nível intelectual da família. Principalmente o temperamento Pamplona – susceptível, emotivo, fantasista, imaginoso e exaltado. Quase todos viviam na permanência de uma situação superlativa. Só se referiam à mais leve brisa como a um vendaval. Dois ou três degraus eram sempre escadaria. Não havia chuvisco que não fosse dilúvio. [...] Viver nesse exagero perene fazia refletir no microcosmo o que se atribuía ao macrocosmo – donde certo estado de pânico que era a constante da família. [...] Essa idéia do cataclisma trazia consigo uma espécie de hábito a ele que se sublimava em resignação antecipada à desgraça. [...] (NAVA, BO, 2002, p.37).
Além do que se ouvia na família, disponibilizavam-se ainda, para Pedro Nava, os objetos que compunham a casa. Esse objetos, telas e quadros, por exemplo, iam despertando a atenção de Nava:
[...] Essa tela de Nossa Senhora com o Menino [...] pertenceu a minha avó que explicou, vendo meu interesse pela pintura: “Essa é Nossa Senhora da Divina Providência. Foi de minha tia Loló. Está na família há bem trezentos anos...” Um quadro conservado três séculos e o fato de se saber disto, depois das nove gerações comportadas por esse prazo, mostram uma estabilidade de posição social (mesmo modesta!), um espírito tradicionalista, um respeito pelo passado e pelo antepassado que podem ser atestados, jurados e historiados. Sobretudo porque eu vi a contraprova dessas categorias na polidez, na cerimônia, no decoro, na reserva, no apuro e na decantação da elegância moral de minha gente paterna. [...] (NAVA, BO, 2002, p.33).
Na sua interação com os objetos da casa de seus familiares, Pedro Nava teve a possibilidade de não apenas conhecer esses objetos (representantes – ou não – da cultura considerada legítima), mas também, já adulto, dar significado a eles e ao comportamento de seus parentes em relação a esses objetos.
Quando menino, Pedro Nava viveu no Rio de Janeiro mergulhado em um ambiente em que não só se falava sobre literatura e cinema, mas também se via, na prática, o que significava conhecer a arte. A música, por exemplo, como já destacamos, era estudada por algumas das mulheres da família de Nava. Assim, elas tocavam piano frequentemente em casa (para praticar, para estudar, para se distrair) e nos encontros festivos de seus parentes:
[...] no Rio, [...] Formou-se uma espécie de gueto Gomes de Matos-Jaguaribe- Alencar, onde havia dez primas casadouras. [...] Era muita prima, senhores! para tão poucos primos... [...] Fazia-se música. As primas no piano e os primos sussurrando e virando as páginas das partituras [...]. Luar e o rancho todo no jardim, com violões e bandolins e as vozes se alteando em cavatinas apaixonadas. [...] (NAVA, BO, 2002, p.218-219).
Além do capital cultural incorporado, a maior parte dos parentes (especialmnete os parentes paternos) de Pedro Nava tinham esse capital em sua forma objetivada. A análise dos dados das Memórias, permitiu-nos observar que, na casa de Aristides Lobo, havia o piano de Cândida Nava, tia paterna do escritor, e suas partituras. Desse modo, Nava circulava em ambientes em que não apenas percebia a existência de instrumentos musicais, partituras, livros, telas, quadros, mas também via seus parentes e amigos da família utilizarem seus conhecimentos ligados à cultura para manusear esses objetos.
Quanto à família materna, a análise dos dados das Memórias e da própria composição da narrativa por Pedro Nava evidencia que, de um modo geral, não havia por parte dos parentes maternos do escritor uma transmissão de valores e princípios a ele, como também não haveria uma preocupação ou um incentivo para que Nava, quando menino, desenvolvesse habilidades e competências letradas. Com exceção da mãe, cuja mobilização em relação ao estabelecimento escolar aparece com grande força nas reminiscências (re)construídas em Balão Cativo, o ramo materno da família de Pedro Nava não é visto por ele como um grupo cuja tradição mereceria ser mantida, nem tão pouco como um grupo de parentes por cuja herança ele demonstra, em sua narrativa, muito entusiasmo ou o desejo por recebê-la. Com efeito, entre os poucos parentes maternos que receberam dele, nas Memórias, elogios, por quem Pedro Nava mostrou nutrir afetividade, estão, além de Diva, alguns parentes ligados a seu avô materno Joaquim Jaguaribe.
Entre os Jaguaribe admirados por Pedro Nava, estão o avô materno, alguns de seus tios-avôs e o bisavô Domingos José Nogueira dos Santos, o pai de Joaquim Jaguaribe. Na defesa pela qualidades de Domingos, Diva também é ressaltada pelo filho, o que acontece poucas vezes em Baú de Ossos:
[...] Não direi que fosse gênio, mas também não concordo com a mediocridade que lhe atribuía Ennes de Souza. [...] E engraçado é que era a meu propósito que vinham essas opiniões desfavoráveis. Sempre que o menino saliente que eu era dava alguma opinião que parecia acima de sua idade, lá vinha o tio Ennes puxando a brasa para a sardinha de sua família. Meu filho, você herdou a inteligência de Pedro Nava... Ainda bem, ainda bem... Porque a gente do visconde, começando por ele, sempre teve serragem na cabeça... Não, tio Ennes, você só pensava em meu avô, em meu Pai. Você esquecia minha Mãe, uma das mulheres mais inteligentes que eu conheci. Se eu herdei, foi dos dois (NAVA, BO, 2002, p.163).
Participando ativamente das conversas entre os adultos, Pedro Nava, quando criança, recebia elogios dos parentes, que sempre procuravam ressaltar sua inteligência, relacionando essa virtude à ascendência do ramo paterno da família. Nesse caso, a inteligência viria não do bisavô materno, mas do avô paterno, Pedro da Silva Nava. Desse modo, identificadas as qualidades que permaneceriam entre as gerações, Pedro Nava ia crescendo em um meio familiar em que os parentes (paternos, sobretudo) o cercavam de elogios, destacavam suas habilidades, qualidades, iam criando nele, ao mesmo tempo, a certeza do lugar de um “herdeiro” especialmente das virtudes e das características paternas. No exemplo citado, um entre os raros exemplos que aparecem no primeiro volume das Memórias, Pedro Nava reconhece o importante lugar ocupado por sua mãe na linha de transmissão da herança familiar a ele.