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(...) eu sou muito do diálogo sabe, porque aqui, a região da Pedreira Prado Lopes é muito mal vista..., eu primeiro tento conversar, porque tem gente que usa de ameaçar né..., eu já tento muito dialogar (Maura).

A Pedreira Prado Lopes é uma das favelas mais antigas da capital de Minas Gerais. Ela havia de fato sido uma pedreira no início do século XX e foi chamada pelo nome da família que possuía vários terrenos na região. Belo Horizonte, inicialmente, uma cidade planejada, se caracterizou também pela segregação socioespacial desde a sua fundação/criação. Operários e imigrantes vieram do interior do Estado e de outras regiões do Brasil para trabalhar na construção da cidade. Este processo incluiu simultaneamente padrões de segregação que indicavam um processo de elitização dos espaços, que descendia do centro para a periferia. Os operários, que não foram contemplados com lotes, como foram os funcionários públicos e os comerciantes, buscaram moradias provisórias. Eles dormiam nos canteiros das obras e se moviam para ocupar terrenos no entorno da cidade. Estas ocupações, no final do século XIX, se transformaram em dois aglomerados na zona urbana, resultado da própria falta de previsão estatal de moradia para os operários/trabalhadores envolvidos na construção da cidade. O governo à época não apresentou possibilidades de moradias dignas a estes novos trabalhadores que, sem perspectiva de retorno para suas regiões de origem, foram se instalando de formas irregulares na nova capital mineira (Guimarães, 1991).

A história da Pedreira Prado Lopes se confunde com a da criação de Belo Horizonte, muito embora os registros oficiais dos primeiros moradores da Pedreira sugiram que a sua ocupação, de fato, ocorreu no período de 1907 a 1910. Centenas de operários trabalhavam na extração das rochas da “pedreira” nesse período, em turnos de trabalho que duravam mais de 15 horas diárias. Muitos dos trabalhadores acabavam não conseguindo retornar para suas casas, ficando por ali mesmo, espalhados em barracas improvisadas que acabariam se tornando a moradia fixa de muitas famílias. Localizada na Regional Noroeste de Belo Horizonte 109, representada no mapa abaixo, a Pedreira, comumente chamada de “PPL”, fica próxima a alguns bairros tradicionais, surgidos com a expansão da cidade para além dos limites da Avenida do Contorno110 e é hoje considerada uma das mais violentas favelas de Belo Horizonte (Zilli, 2004).

Mapa de Belo Horizonte

Fonte: www.pbh.gov.mg.br, acesso em 25 de Janeiro de 2012. Legenda: Região Noroeste de Belo Horizonte.

109 A Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) trabalho de forma descentralizada a partir da criação de 09

regionais administrativas: (i) a regional Centro-Sul; (ii) a regional Oeste; (iii) a regional Barreiro; (iv) a regional Pampulha; (v) a regional Leste; (vi) a regional Nordeste; (vii) a regional Norte; (viii) a regional Venda Nova; e (ix) a regional Noroeste.

110 A Avenida do Contorno foi construída para delimitar socioespacialmente a cidade em seu processo de

As décadas de 30, 40 e 50 foram marcadas por grandes intervenções urbanas na cidade, objetivando o desenvolvimento econômico da região. Entre elas, destacam-se a abertura da avenida Antônio Carlos 111, a avenida Pedro II 112 e o Conjunto Habitacional do IAPI (projetado por Oscar Niemeyer) 113, além da construção de uma das mais tradicionais escolas públicas da capital, o Colégio Municipal de Belo Horizonte, e também outros dois importantes equipamentos públicos, o Departamento de Investigações da Polícia Civil de Minas Gerais e o Hospital Municipal Odilon Behrens.

A dinâmica estabelecida na relação entre “governo” e “operários” foi inicialmente um processo de ocupação “tolerada”, mas posteriormente, com a construção da cidade, vieram as “ondas” de expulsão dessas populações pelos governos para áreas mais distantes, e também o próprio valor da terra que aumentava com o crescimento e o desenvolvimento da cidade, expulsava essa população para o em torno da cidade. Somente a partir do final dos anos 1970, no contexto mais amplo de abertura política, é que essa dinâmica iria começar a se alterar gradualmente. O padrão de ocupação da PPL é extremamente denso, com um forte processo de crescimento vertical. O sistema de esgoto é precário com redes deterioradas e escoamento a céu aberto. O abastecimento de água é interrompido com frequência nas partes mais altas da vila. Além disso, existem extensas áreas com afloramentos rochosos sujeitos a desmoronamentos e escorregamentos, o que faz com que muitas moradias estejam em áreas de riscos. O acesso viário na Pedreira é precário principalmente devido às obstruções, escassez de vias e pavimentação deteriorada. Os baixos níveis salariais e o grau de escolaridade, além dos problemas relacionados à criminalidade violenta, agravam a situação

111 A Avenida Antônio Carlos é uma das principais avenidas de Belo Horizonte, atualmente. Foi construída a

partir da expansão da cidade, como a avenida que faria ligação entre a região central da Contorno e a nova região da cidade que começava a se expandir, a denominada região da Pampulha.

112 A Avenida Pedro II faz a ligação da área central da cidade com a região noroeste e com o anel rodoviário/BR

que corta a cidade de Belo Horizonte.

113 O conjunto IAPI se localiza ao lado da PPL e foi um dos mais inovadores conjuntos habitacionais construídos

na década de 60 na capital mineira. Atualmente tornou-se um conjunto popular e muitos moradores advindos da PPL residem nessas moradias.

da favela. Com cerca de 8.900 moradores 114, distribuídos numa área de 141 mil metros quadrados, a PPL teve sua primeira fonte de água instalada apenas na década de 1920, quando a Prefeitura ali colocou uma torneira pública.

Para Zilli (2004), talvez em razão deste descaso, se verifica hoje um grande descrédito da população da PPL em relação à política, à polícia e às instituições públicas de modo geral. Nas suas primeiras décadas de existência, o espaço ocupado pela Pedreira Prado Lopes era bem maior do que o que se observa hoje. Barracos de madeira se espalhavam por uma área extensa, formando um contexto que, guardadas as devidas proporções, lembrava uma cidade do interior mineiro. No entanto, o crescimento da capital mineira fez com que várias mudanças fossem processadas na configuração ambiental e espacial da PPL – a favela expandiu-se de forma vertical, em função da diminuição do seu espaço físico, sendo removidos aqueles barracos que ocupavam o seu entorno.

Em Belo Horizonte, atualmente, as favelas estão espalhadas pelo território nas nove regionais, muitas vezes com localização próxima ao centro ou a importantes eixos viários e, ainda, em meio a alguns bairros da zona sul da cidade, onde estão os moradores de maior poder aquisitivo. Segundo Fernandes e Pereira (2010), os dados recentes publicados pelo Plano Global Específico/PGE e pela Prefeitura de Belo Horizonte demonstram que: 364.282 pessoas vivem áreas classificadas como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) 115, correspondendo a 22,33% da população total e 5% da área total do município; existem 179

114 Os dados sobre a população da PPL variam muito entre as fontes verificadas. Os sites oficiais da Prefeitura de

Belo Horizonte apresentam algo entorno de 10.000 habitantes; porém, os moradores dizem já ter passado de 15.000. Ressaltamos que o Programa Mediação de Conflitos tem como atuação a região de abrangência da Pedreira Prado Lopes, quer dizer que envolve também os bairros e vilas do entorno, como a Vila Senhor dos Passos, o bairro Santo André e o bairro São Cristovão.

115 As Zonas Especiais de Interesse Social são localidades do território destinadas, prioritariamente, à

recuperação urbanística, à regularização fundiária e a produção de Habitações de Interesse Social, incluindo a recuperação de imóveis degradados, a provisão de equipamentos sociais e culturais, espaços públicos, serviço e comércio de caráter local. Seus principais objetivos são: incorporar a cidade clandestina à cidade legal, reconhecer a diversidade local no processo de desenvolvimento urbano, estender o direito à cidade e à cidadania, associar o desenvolvimento urbano à gestão participativa, estimular a produção de Habitação de Interesse Social, estimular a regularização fundiária, estimular ampliação da oferta de serviços e equipamentos urbanos.

favelas (ZEIS 1) e 22 conjuntos habitacionais favelizados (ZEIS 3), bem como 28 loteamentos anteriores a 1979, parcial ou totalmente irregulares e 76 loteamentos posteriores a 1976, parcial ou totalmente irregulares, compreendendo 10% do território do município 116.

A partir desta contextualização buscamos retratar, de forma breve, a história de surgimento da Pedreira Prado Lopes e suas características atuais no contexto belorizontino. Apresentamos em seguida o perfil das pessoas que foram entrevistadas – selecionadas entre aquelas que foram atendidas pelo programa nos últimos cinco anos. Entendemos que embora representem um pequeno grupo frente às milhares de histórias existentes naquela localidade e entre os casos tratados pelo programa, os relatos destas pessoas nos possibilitam refletir sobre um conjunto de questões que perpassam a realidade do programa e sua relação com a questão do acesso à Justiça, conforme abordaremos adiante.

Benzer Belgeler