A crescente e extraordinária relevância da jurisdição constitucional no Brasil tem sido alvo de uma série de debates acadêmicos e trabalhos doutrinários ao longo dos últimos anos. O fortalecimento gradual de uma instância neutra, mediadora e imparcial na solução de conflitos constitucionais, principalmente em sociedades pluralistas e complexas, regidas pelo princípio democrático e jurídico da limitação do poder, é um fenômeno que cada vez mais se concretiza no cenário jurídico brasileiro.
O crescimento da importância política do Poder Judiciário, em especial do STF, é verificado, sobretudo, em julgamentos de questões polêmicas e relevan- tes para a sociedade, muitas delas propostas por grupos políticos ou sociais ne- gligenciados na esfera legislativa. De um poder quase “nulo”, de mera aplicação da lei, imposta pela desconfiança iluminista, pelo prestígio do positivismo ju- rídico e pelo dogma do Parlamento (Bottini, 2011:119-120), o Poder Judiciário
o prin cípio D a insiGnificân cia n os crimes c ontra o p a trimônio e c ontra a orDem ec onômic a 149 se vê alçado a uma posição muito mais importante no desenho institucional
do Estado contemporâneo.
Trata-se de um fundamento organizacional do que se convencionou cha- mar de “neoconstitucionalismo”, traduzido na preponderância do Poder Ju- diciário em face das alterações metodológicas e normativas particulares desse fenômeno.2 Essa transformação inicia-se com o constitucionalismo do pós-
-guerra, especialmente na Alemanha e na Itália, países que durante a segunda metade do século XX redefiniram o lugar da Constituição nas respectivas or- dens jurídicas, produzindo uma nova forma de organização política conhecida como estado democrático de direito, estado constitucional de direito ou estado constitucional democrático (Barroso, 2005:1).
A principal referência no desenvolvimento do novo direito constitucio- nal é a Lei Fundamental de Bonn (Constituição alemã), de 1949, e, especial- mente, a criação do Tribunal Constitucional Federal, instalado em 1951. A partir desse período, verificou-se a ascensão científica do direito consti- tucional no âmbito dos países de tradição romano-germânica, fortalecida pelo movimento constitucional subsequente em países como Portugal, Es- panha e Brasil.
A ascensão do “neoconstitucionalismo” evidenciou, ao longo da segunda metade do século passado, uma crise do positivismo jurídico, pois a lei deixa de ser a única, suprema e racional fonte do direito, para fixar novas orientações ou linhas de evolução: mais regras do que princípios; mais ponderação do que subsunção; a onipresença da Constituição em todas as áreas jurídicas e confli- tos; e a coexistência de uma constelação plural de valores, às vezes tendencial- mente contraditórios, no lugar de uma homogeneidade ideológica em torno 2 O neoconstitucionalismo identifica um conjunto amplo de transformações ocorridas no Estado
e no direito constitucional, em meio às quais podem ser assinalados, (1) como marco histórico, a formação do Estado constitucional de direito, cuja consolidação se deu ao longo das décadas finais do século XX; (2) como marco filosófico, o pós-positivismo, com a centralidade dos direitos fundamentais e a reaproximação entre direito e ética; e (3) como marco teórico, o conjunto de mudanças que incluem a força normativa da Constituição, a expansão da jurisdição constitucional e o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação constitucional. Desse conjunto de fenômenos resultou um processo extenso e profundo de constitucionalização do Direito. Cf. Barroso (2005). Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/7547>. Acesso em: 1o nov. 2011. Sobre o tema, conferir, ainda, Ávila (2009). Disponível em: <www.direitodoestado.com/rede.asp>. Acesso em: 1o nov. 2011; Barcellos (2007); Carbonell (2009).
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150 de inúmeros princípios coerentes entre si e em torno das sucessivas opções
legislativas (Sanchís, 2005:131-132).
Uma vez que as normas constitucionais estão presentes em esferas jurídi- cas variadas, oferecendo orientações diversas, o controle judicial exercido pelos tribunais, sobretudo pelas supremas cortes, assume um relevante papel, o que se dá em detrimento da autonomia do legislador. Isso não significa que o cons- titucionalismo contemporâneo estabeleça a lei como mera execução do texto constitucional, mas apenas reforça a necessidade de a lei estar em consonância com os parâmetros constitucionais (Sanchís, 2005:132-133).
No Brasil, a promulgação da Constituição de 1988 representou uma ex- pansão efetiva da jurisdição constitucional. O controle de constitucionalidade teve, em 1988, a ampliação do rol de legitimado à sua propositura, somada à criação de novos mecanismos de controle concentrado, como ação declaratória de constitucionalidade, introduzida pela Emenda Constitucional no 3/1993, e a
previsão da arguição de descumprimento de preceito fundamental, regulamen- tada pela Lei no 9.882/1999.
Essa capacidade do Poder Judiciário de exercer o controle de constitucionali- dade das leis e atos normativos propiciou um aumento substancial das áreas de intervenção e atuação política desse poder, pois a Constituição de 1988 conferiu aos magistrados e às cortes judiciais o poder de produzir impactos sobre o proces- so de decisão política, sendo a Constituição de 1988 um ponto de inflexão, pois representou uma mudança substancial no perfil do Judiciário, ao expandi-lo para a arena pública e conferir-lhe um papel de protagonista de primeira grandeza.3
Sob a ótica penal, essa politização da jurisdição também resta patente, pois o Judiciário deixa de ser o mero aplicador da norma penal e passa a representar um agente de formulação de política criminal, isto é, deixa de ser um órgão de concretização da política criminal do legislador para se tornar um produtor de 3 Ver Sadek (2004:81). Em torno do Poder Judiciário cria-se uma nova arena pública, externa ao
circuito clássico “sociedade civil — partidos — representação — formação da vontade majoritária”, pois os procedimentos políticos de mediação cedem lugar aos judiciais, expondo o Judiciário a uma interpelação direta de indivíduos, de grupos sociais e até de partidos, em um tipo de comunicação em que prevalece a lógica dos princípios, do direito material, deixando-se para trás as antigas fronteiras que separavam o tempo passado, de onde a lei geral e abstrata hauria seu fundamento, do tempo futuro, aberto à infiltração do imaginário, do ético e do justo. Vianna (1999:22-23).
o prin cípio D a insiGnificân cia n os crimes c ontra o p a trimônio e c ontra a orDem ec onômic a 151 diretrizes políticas próprias. Cumprindo o papel de gestor da política criminal, o
Judiciário passa a ter condições de aplicar a norma jurídico-penal, com base no sistema social, permitindo que as expectativas sociais de promoção e efetivação da segurança pública se voltem para a atuação jurisdicional (Bottini, 2011:124).
A crescente aceitação da aplicação do princípio da insignificância pelo STF comprova esse protagonismo do Judiciário em matéria penal, o que denota a influência da Suprema Corte nos rumos da política criminal brasileira.