Gráfico 5 - Áreas dos estabelecimentos agropecuários por Microrregião Geográfica no Maranhão entre 1996-2006
Fonte: INCRA
Org. MATTOS JUNIOR, Jose Sampaio
Percebe-se que, mesmo havendo uma redução nas áreas dos estabelecimentos, houve uma evolução no número de famílias assentadas de 1986 a 2006 e o município que se destacou foi Santa Luzia com 6.300 famílias assentadas, contribuindo para um total de 23.777 famílias assentadas na Microrregião de Pindaré, evidenciando o oeste maranhense como a mesorregião onde mais se assentou famílias nesse intervalo de tempo (Figura 2).
Percebe-se toda uma dinâmica territorial que vai se iniciando timidamente na década de 1980 nas mesorregiões do centro e do oeste maranhense e, ao longo dos anos, de forma desordenada, dependendo das intensificações dos conflitos, como já tinha evidenciado Carneiro (1998), vai se espalhando por todo Estado, exigindo das instituições governamentais mais infra-estrutura, crédito e assistência técnica. 0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 800.000 900.000 1996 2006
O que se verifica entre 1986 e 1994 é o início do processo de territorialização dos assentamentos que vai tanto evidenciar conflitos no leste maranhense, área de ocupação antiga, como também vai demonstrar que tanto no oeste maranhense, quanto no centro maranhense a luta pela terra vai ser o ponto principal para as primeiras desapropriações.
Já entre o período compreendido de 1997 a 2006 constata-se a intensificação da criação de assentamentos em praticamente todo Estado do Maranhão e principalmente nas Mesorregiões Centro e Oeste ratificando que essas áreas foram palcos de conflitos entre trabalhadores rurais e grandes empresas agropecuárias e agroindustriais.
Isso não significou que o incremento no número de famílias assentadas contribuísse para o amento linear no número de trabalhadores no campo. Carneiro (2008), ao analisar os dados de variação do número de produtores familiares, verifica que, na Microrregião de Pindaré, houve uma redução de 48% no número de agricultores familiares, 3% nos Lençóis Maranhenses e Médio Mearim e em relação aos estabelecimentos agropecuários do Estado uma perda total de 240 mil estabelecimentos no período compreendido de 1996 a 2006.
Carneiro (2008, p. 24) atribui essas reduções nas microrregiões de Pindaré e Médio Mearim a:
[...] questões que dizem respeito à própria reprodução da unidade familiar de produção. Isto é, problemas relativos a terra cultivada, à redução da área de plantio e à qualidade da assistência técnica recebida.
Diante do exposto, verifica-se que a quantidade de famílias assentadas e o aumento da área plantada não traduzem, necessariamente, produção e produtividade se a lógica produtiva da roça no toco continua sendo utilizada em solos que não refletem a aptidão agrícola desejada, com alto índice de desgaste e se a infra-estrutura existente continuar trazendo mais custos do que benefícios para o trabalhador rural.
As técnicas tradicionais utilizadas atualmente pelos pequenos produtores são resultados do processo histórico de concentração da própria modernização que se deu entre produtores e também entre regiões como aponta Hespanhol (2007, p. 274):
A modernização da agropecuária se processou de forma bastante rápida, especialmente nas regiões Sul e Sudeste do país, por meio da conversão de latifúndios em modernas empresas rurais e do estímulo para alteração da base técnica das explorações realizadas em médias e grandes propriedades rurais. O crédito rural oficial, principal instrumento utilizado para promover a modernização da agropecuária, foi altamente seletivo, pois a sua oferta se restringiu aos médios e grandes produtores. A grande maioria dos agricultores, notadamente os pequenos proprietários, arrendatários, parceiros e meeiros, cujas condições de acesso à terra eram precárias, não foi atendida pelo crédito rural oficial, tendo maiores dificuldades para alterar a base técnica da produção e permanecer no campo.
Ao se analisar cronologicamente os estudos realizados por Lima Junior (1987), Pedrosa (1998) e Carneiro (1998 e 2008), constata-se que a realidade rural maranhense, no que diz respeito à falta de assistência técnica, implementos agrícolas e técnicas utilizadas pela agricultura familiar, não sofreu grandes alterações ao longo desses 25 anos de Plano Nacional de Reforma Agrária. Lima Junior (1987) já apontava para os equívocos no planejamento referentes aos impactos ambientais e Carneiro (2008) continua evidenciando a falta de um zoneamento agroecológico como um dos fatores que entravam o desenvolvimento da agricultura familiar.
Ao longo desses 20 anos, observam-se avanços e recuos, principalmente em relação ao processo produtivo.Todavia o avanço, no que diz respeito ao reconhecimento da importância da agricultura familiar, dependerá de políticas públicas de desenvolvimento regional que possam também refletir os interesses dos trabalhadores rurais.
Diante do exposto, considera-se relevante aprofundar a discussão sobre as experiências na formação dinâmica do Assentamento Entroncamento como estudo de caso para se compreender essas relações interna e externa e, baseada na reflexão sobre o histórico de criação dos assentamentos, responder vários questionamentos que já foram feitos ao longo do capítulo no que tange a pensar, primeiro, que já havia um território previamente definido e a regularização fundiária apenas homologou uma situação, segundo, não houve uma desterritorialização de um processo histórico de expropriação na medida em que as famílias já se encontravam desenvolvendo atividades, não se tratando de uma agricultura de larga escala ligada ao processo agroexportador e, terceiro, as análises não terminam com
a formação, elas continuam para evidenciar as novas articulações que serão efetivadas e que incidirão nos desdobramentos das propostas realizadas.
Não se pretende com este estudo evidenciar o Assentamento rural Entroncamento como modelo que deve ser seguido a partir das reflexões sobre os erros e acertos na condução de estratégias que visualizavam a implantação de projetos produtivos, nem fazer uma avaliação quantitativa evidenciando o econômico, pois, na visão de Ferrante (2006, p. 27):
A avaliação do desempenho econômico dos assentamentos, conforme frisado na introdução, é matéria polêmica, cercada de um verdadeiro bloqueio ideológico imposto pelo discurso economicista de setores mais ou menos distantes da investigação empírica desses territórios. Os diferentes graus de capitalização e os correspondentes distintos padrões de acumulação capitalista em cada contexto regional, por si só, já criam conjunturas pouco semelhantes quando se estuda a integração econômica dos assentamentos. Há que se pensar na situação de um segmento da agricultura familiar latu senso, em cada região, para se ter uma visão menos distorcida do desempenho econômico das experiências de assentamentos de reforma agrária. Nesse sentido, as atividades econômicas dos assentados, seu grau de inserção em sistemas produtivos específicos, são bastante díspares, mesmo num único P.A.
Os pontos que serão ressaltados podem servir de orientação sob o ponto de vista das relações construídas entre os assentados e as instituições governamentais e não governamentais, que na análise vão ser de fundamental importância para a identificação das descontinuidades, sejam elas no acesso ao crédito, sejam elas na assistência técnica, sejam elas na mobilização para cobrar institucionalmente o INCRA para melhorias na infra-estrutura, cobrar das Secretarias de Agriculturas dos Estados e Municípios apoio para o processo produtivo, na elaboração de propostas técnicas, no fornecimento de mudas, sementes e às vezes implementos agrícolas para a preparação da área para o cultivo dos seus produtos. Dessa forma, a perspectiva de Ferrante (2006, p. 20) será essencial para as análises:
Assim, nossa perspectiva permite analisar algumas dimensões dessa realidade, revelando pontos de tensão relativo ao conjunto de preocupações que o conceito de desenvolvimento pode enfeixar Privilegiamos aqui a noção de gestão do território, que pode ser decomposta analiticamente, em três dimensões que achamos importantes: a organização interna das famílias assentadas, a inserção política dessa população nos contextos locais e regionais e
a integração ou bloqueio à integração) econômica aos sistemas produtivos locais e regionais.
Enfatizar as relações que foram construídas para o processo de desapropriação e as que foram construídas após a criação vai levar a uma orientação para a compreensão de uma multidimensionalidade que passa pelo econômico, social e ambiental e vai ser de suma importância para o avanço nas reflexões e apreender a formação e a dinâmica dos Assentamentos na Microrregião Geográfica de Itapecuru Mirim, auxiliando a desvendar algumas questões que entravam a sustentabilidade das famílias assentadas.