A epifania, tratada aqui sem qualquer conotação religiosa ou litúrgica, é uma técnica narrativa cuja utilização foi consagrada por uma das principais figuras do modernismo, James Joyce, em algumas de suas obras e, em especial, no livro Stephen Hero (1944), no qual o autor irlandês define a epifania como “uma súbita manifestação espiritual” (apud BECKSON & GANZ, 1989, p.78)212. Nádia Battella Gotlib expande essa concepção de epifania formulada por Joyce, argumentando que esse dispositivo textual revela-se em um dado momento da história “em que um objeto se desvenda ao sujeito”, ou seja, a epifania é “um modo de se ajustar um foco ao objeto, pelo sujeito”, desencadeando, dessa maneira, uma “percepção reveladora de uma dada realidade” (2003, p.51). Ian Reid, em The Short Story, tece o seguinte raciocínio acerca da relevância da epifania como um instante especial captado dentro da estrutura do conto:
Poder-se-ia dizer que o conto tipicamente centra-se sobre o significado interior de um evento crucial, sobre grandes intuições súbitas, ‘epifanias’, no sentido que James Joyce confere à essa palavra; em virtude de sua brevidade e delicadeza, ele [o conto] pode, por exemplo, singularizar com especial precisão aquelas ocasiões em que um indivíduo está mais alerta ou mais solitário. (REID, 1977, p.28)213
Conforme estudamos no capítulo anterior, o conto “The Dead”, último texto do volume Dubliners, de Joyce, projeta uma situação em que a personagem Gabriel Conroy ouve sua esposa Gretta confessar-lhe que vivera uma intensa paixão por um rapaz chamado Michael Furey, quando estes gozavam de tenra idade, e, por conta disso, Gabriel sofre uma
212
A sudden spiritual manifestation. 213
[...] one could say that the short story typically centres on the inward meaning of crucial event, on sudden
momentous intuitions, ‘epiphanies’ in James Joyce’s sense of that word; by virtue of its brevity and delicacy it can, for example, single out with special precision those occasions when an individual is most alert or most alone.
“súbita manifestação espiritual”, percebendo, de repente, a mediocridade de sua própria existência e do papel patético que desempenhou ao longo dos anos na vida de sua esposa. Tentamos demarcar, na seguinte passagem, o momento em que essa realidade revela-se na consciência da personagem:
Enquanto ele [Gabriel] estivera cheio de lembranças de sua vida secreta juntos, repleta de ternura, alegria e desejo, ela [Gretta] estivera comparando-o com o outro [Michael Furey].
Uma vergonhosa consciência de si mesmo o invadiu. Ele se viu como uma figura ridícula,
agindo como um garoto de recados de suas tias, um sentimentalista nervoso e bem- intencionado, discursando para a gente vulgar e idealizando sua própria cobiça grotesca, um lamentável tolo o qual vira de relance no espelho. (JOYCE, 1996, p.251, grifo nosso)214 Esse instante revelador apresentado no conto de Joyce exprime um “momento de iluminação” (MAGALHÃES JR., 1973, p.17) para a personagem, pois esta toma “consciência do [...] significado” (BECKSON & GANZ, 1989, p.78)215 de um determinado objeto, de uma dada realidade e, dessa maneira, vivencia um insight: sua própria mediocridade torna-se clara para ela. Magalhães Júnior observa que a epifania é “o momento em que, num breve lapso de tempo, o caráter de um personagem é posto à prova, revelando-se a sua fortaleza moral ou as suas debilidades” (1973, p.17). Desta maneira, podemos notar que Gabriel Conroy, a partir desse momento de revelação súbita provocado pela confissão de sua esposa, passa a questionar sua própria identidade, sua falsa moralidade e, sobretudo, a problematizar suas fraquezas e limitações.
Um outro exemplo de epifania pode ser observado no conto “A Painful Case”, coligido no mesmo volume de histórias de James Joyce. Nesse texto, o soturno e ensimesmado Sr. James Duffy, um homem sem “companheiras, nem amigos, nem igreja ou credo” (1996, p.121)216, deixa de viver um grande amor com Emily Sinico, uma solitária mulher casada, por obediência às “convenções que regulam a vida cívica”217 da estagnada
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While he had been full of memories of their secret life together, full of tenderness and joy and desire, she had
been comparing him in her mind with another. A shameful consciousness of his own person assailed him. He saw himself as a ludicrous figure, acting as a pennyboy for his aunts, a nervous, well-meaning sentimentalist, orating to vulgarians and idealizing his own clownish lusts, the pitiable fatuous fellow he had caught a glimpse of in the mirror.
215
[...] awareness of [...] [the] meaning [...]. 216
[...] companions nor friends, church nor creed. 217
Dublin. Ao tomar conhecimento, anos depois da separação, da morte de sua amada, o Sr. Duffy subitamente percebe os sofrimentos que infligira à única mulher que fora capaz de elevá-lo a uma “estatura angelical” (p.124),218 e sente, de modo inexorável, que está completamente sozinho no mundo, “excluído do banquete da vida” (p.131).219
Como vimos no capítulo I desta dissertação, a personagem Nan passa por uma experiência epifânica ao final do conto “The Student’s Wife” da coletânea Will You Please Be
Quiet, Please? (1976), de Raymond Carver. Após uma noite de grande desconforto e
lamentos por causa da falta de dinheiro e de prazer em sua vida, Nan é acometida por uma dolorosa hiperestesia com o raiar do sol e, de modo repentino, há um ajuste entre o sujeito e os fatos cruéis da realidade, um momento em que “um objeto se desvenda ao sujeito” (GOTLIB, 2003, p.51), permitindo a este vislumbrá-lo, e, com isso, a mulher torna-se consciente das mazelas de sua vida: “Aos poucos, as coisas estavam se tornando bem visíveis. Ela permitiu que seus olhos vissem tudo [...]” (CARVER, 1992, p.131).220 As “coisas” que Nan passa a ver durante a manhã são fatos de sua vida que, por alguma razão, não estavam claros ou nítidos para a personagem antes e que, de maneira inesperada, descortinam-se diante de seus olhos e ela pode então apreendê-los em sua consciência como nunca fora capaz de percebê-los até aquele instante.
No livro A arte do conto, Magalhães Júnior postula que, em alguns casos, a epifania é percebida pela personagem e, em decorrência, pelo leitor, como acontece em “The Dead”; mas há outras ocorrências em que esse instante de “apreensão [...] da significação” (BECKSON & GANZ, 1989, p.78)221 de um determinado objeto é revelado apenas ao leitor, mas não à personagem, cujo espírito permanece inalterado: “Dependendo do tipo de história, o personagem pode estar ou não estar cônscio de que chegou tal momento, de que foi colhido na armadilha de uma epifania” (MAGALHÃES JR., 1973, p.17).
218
angelical stature. 219
Outcast from life’s feast. 220
By stages things were becoming very visible. She let her eyes see everything [...]. 221
É o que ocorre, por exemplo, com a personagem Maria no conto “Clay” de Joyce (REID, 1977, p.56). Nesse texto de Dubliners, a pacífica protagonista, após trabalhar duro na lavanderia durante o dia, vai a uma confraternização na casa de seus parentes. Ainda que Maria tenha a ilusão de que, só por ter algum “dinheiro em seu bolso”, pode considerar-se uma pessoa “independente” (JOYCE, 1996, p.113)222 e, portanto, acha tudo perfeito, crê que todos são “muito bons para ela” (1996, p.117)223 e ri até “a ponta de seu nariz quase encontrar a ponta do queixo” (1996, p.117),224 o texto deixa transparecer as circunstâncias de isolamento e de exploração em que a personagem vive. Dessa forma, a epifania, ou o “momento de verdade percebida” (REID, 1977, p.56),225 é revelada apenas ao leitor. A protagonista do conto falha em compreender o sentido dos fatos de sua existência medíocre e, principalmente, o significado da “substância mole e úmida” (JOYCE, 1996, p.117)226 que Maria, vendada pelas crianças, toca durante uma brincadeira. O leitor atento estabelece a conexão dessa imagem com o título do conto, “Clay” [argila], e percebe a patética amorfia e passividade de Maria, ao passo em que esta prossegue sem enxergar sua própria alienação (REID, 1977, p.56).
Vejamos a seguir, nas análises dos contos “A Small, Good Thing” e “Cathedral”, como Raymond Carver tenta desenvolver sua escrita e representar as aflições de suas personagens solitárias e isoladas, e verificar a maneira pela qual esses mesmos seres ficcionais, nessas duas narrativas, vivem momentos epifânicos de iluminação da consciência.
222
[...] money in your pocket [...] independent [...]. 223
[...] they were all very good to her. 224
[...] till the tip of her nose nearly met the tip of her chin. 225
[...] a perceived moment of truth. 226