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em uma loja de móveis usados na esquina com a Rua Glete. Preço: 40 reais somado aos R$ 115,00 pelo aluguel do quarto por uma semana.

Em outro momento do trabalho de campo hospedei-me algumas vezes no Hotel Minho, na esquina da avenida Duque de Caxias com a rua Santa Efigênia. Segundo o administrador atual do estabelecimento o prédio funciona como hotel desde os anos 1940, e mostra-me um documento com tabela de preços e regulamento do hotel em 20 de junho de 1964. O preço do quarto com 1(uma) cama de solteiro era CR$ 1.800,00, e curiosamente entre as regras do hotel naquele tempo segue o artigo 3: “Roga-se aos senhores hóspedes a observância da mais rigorosa higiene, solicitando-lhes não escarrar no chão ou nas paredes”. Lembro que nos anos 1960 a região da Luz passa a ser reconhecida como a “Boca do Lixo” por atrair e agregar a prostituição, cinema marginal e pessoas com baixa renda. Tal regulamento me faz imaginar que uso se fazia deste mesmo hotel nessa época.

Atualmente o quarto de solteiro no ‘Hotel Minho’ custa R$ 35,00. Fiquei ali algumas vezes, sempre no segundo andar, no quarto 209. Quarto bom, antigo, chão de taco, pé direito alto e camas gastas. Oferecem roupa de cama e toalhas limpas. O banheiro é coletivo no corredor, e a limpeza e higiene são características positivas que se contrapõem a pensão de R$ 15 cada diária a alguns metros dali.

Nas pensões vejo muitas crianças correndo e brincando o tempo todo, um ambiente familiar. Cida é a administradora do “Café Alhambra” e também cuida de outra pensão na mesma rua. Ela veio do Ceará há 20 anos, e fala bastante sobre o fato de que o bairro recebe pessoas de diferentes lugares:

Aqui está sempre cheio, a não ser em algumas épocas, como no começo do ano. Aqui fica muita gente do Nordeste que trabalha na construção civil, sabe? No começo do ano voltam para suas casas e só chegam aqui de novo a partir de março. (Relato de campo – Cida, 11/06/2014).

Durante o período de campo conheci pessoas, que usam ou não crack, de outros distritos de São Paulo, cidades do interior do Estado, e outras localidades como Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Ceará, Amazonas, Rio Grande do Sul e Paraná, além dos ciganos que transitam entre São Paulo (SP) e Taubaté (SP) com frequência. Estrangeiros estão presentes e em alguns momentos conversei com Peruanos, Colombianos, e mais recentemente africanos. Conheço pessoas por ali e muitas me cumprimentam sempre que me avistam na rua. Sinto-me mais seguro que em outros bairros do centro da cidade, e de certa forma percebo que não sou tão estrangeiro ao território. Afinal, eu também venho de outra origem e fui também acolhido pela minha posição de trabalhador/pesquisador.

Assim como eu, é comum as pessoas terem vindo de outro lugar, portanto trago a seguir relatos de trajetórias de vida que em determinado momento atravessam pela

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cracolândia. Percursos que podem nos auxiliar a compreender os sentidos de chegada, permanência e saída neste espaço.

Amélia

Seu momento atual ilustra vulnerabilidade física e psicológica. Amélia tem aproximadamente 50 anos. A conheci em 2010. Ela estava bem vestida, limpa e com uma mala de viagem nas mãos. Amélia tinha ouvido dizer que “Bianca estava na cracolândia em São Paulo”. Ela me descreve a fisionomia de Bianca e me mostra uma fotografia antiga. Reconheço seus traços. Andamos juntos pela região, mas não a vimos. Amélia diz que ficará uns dias por ali para procurar a filha.

Figura 9. Chegada Amélia. Desenho por Barbara Salomé.

Os dias foram passando, e algumas semanas depois vejo as duas, mãe e filha, fumando crack juntas. Ficamos meses neste movimento, apenas nos cumprimentávamos de longe. Quando enfim retomei uma conversa com Amélia me dizia em diversos

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momentos que ainda não era o momento de retornar para Minas. “Eu não tenho nada, olha como eu estou! Como vou voltar assim?”.

Figura 10. Vergonha de Amélia. Desenho por Barbara Salomé.

Sempre me intrigou o movimento de Amélia. Teria ela vindo buscar a filha de volta e acabou se fixando ali, ou vindo se juntar a filha por algum motivo que a fez também abandonar a terra natal. O fato é que ela veio e ficou.

Em setembro de 2012 eu e Robertinha encontramos Amélia. Amélia acabara de sair de uma clínica que ficou 1 mês internada na Zona Sul. A proposta era ficar 2 meses, mas como conquistou a confiança da equipe conseguiu conversar com Psiquiatra sobre o sonho que teve na noite anterior. Havia sonhado com Bianca, que havia ficado na cracolândia, lhe pedindo ajuda e dizendo “sozinha eu não vou conseguir”. Quando chegou na região da Luz ficou sabendo que Bianca havia sido presa. Estava aflita, pois como Bianca estava sem documento, provavelmente teria informado informações, como nome e data de nascimento, fictícias ao sistema penitenciário, e Amélia não conseguiria localizá-la para visita. Amélia se sentia culpada, pois deixou a filha sozinha para tentar se cuidar. Sabia dos riscos que Bianca corria, mas relatava ter buscado o tratamento pois sentia muito cansaço. Estava desiludida. Dizia que Bianca já estava mais organizada, não estava mais na rua e estava “até conseguindo pagar uma pensão”. Em algumas semanas Amélia conseguiu localizar Bianca. Informações cruzadas entre rua, crime organizado e presídios colocaram as duas em contato.

Bianca segue presa, e ao longo dos anos Amélia foi piorando seu estado físico e mental. Apesar de diversas vezes tentar diminuir o uso e se reorganizar, permanece oscilando bastante. Aos poucos começou a apresentar muita tristeza, depressão e sinais de surtos psicóticos, cheguei a vê-la falando sozinha e gritando na rua em alguns momentos. Sua aparência é bem diferente da primeira vez que a vi. Está mais magra e sem cuidados pessoais de higiene. O descuido é marcado pela recente perda de um dente frontal.

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Figura 11. Os obstáculos de Amélia. Desenho por Barbara Salomé.

Seu olhar muitas vezes é bastante desesperançoso e frequentemente parece acompanhado da angústia.

Durante um trabalho de campo em junho de 2014, Amélia me chamou para conversar. Estava indignada e irritada pois havia se cadastrado no programa “De Braços Abertos”, mas haviam colocado seu nome errado. Ela dizia irritada que eu precisava ajuda-la, pois estavam dizendo que ela era outra pessoa. Ela repetia várias vezes, “Eu não sou a Vera, eu sou Amélia! Por favor você tem que me ajudar Thiago! ” Juntos conversamos com a assistente social do programa e foi apenas um mal-entendido e Amélia estava registrada com seu nome. Seu movimento parece explicitar um resgate e afirmação de sua identidade. Curiosamente, poucos dias depois, em junho de 2014, a vi de

longe participando de uma oficina de cartas proposta pelo teatro Faroeste55. Segundo

relato de campo:

Neste momento Amélia escreveu bastante. Se emocionou e chegou a soltar algumas lágrimas. Parece ser um momento forte para Amélia. Logo depois a vejo no meio do fluxo. Ela está sorridente e conversando com outra mulher. Penso que foi interessante observar este processo da carta. Me pergunto se mandam a carta para alguém ou é apenas um exercício de lembrança do que é importante para as pessoas. Uma válvula de escape. O resgate de uma origem. (Diário de campo – 07/06/2014).

Sinto que ela mesma foi o principal destinatário da carta que escreveu. Parecia que aos poucos Amélia entrava em contato consigo mesma. Quando nos encontramos mais

Benzer Belgeler