Sílvio Romero, Tristão de Ataíde e José Veríssimo fizeram uma avaliação crítica sobre a obra de Euclides da Cunha. Em síntese, Sílvio Romero compreendeu que Os sertões (1902) foi “[...] um estudo social do nosso povo firmado até certo ponto na observação direta” (COUTINHO, 2002, p. 207). Já Tristão de Ataíde escolheu Os sertões para figurar entre os dois grandes livros dos últimos 50 anos; o outro foi Um estadista do Império (1897), de Joaquim Nabuco. Outro crítico a fazer uma avaliação sobre Os sertões foi José Veríssimo: (COUTINHO, 2002, p. 209): “[...] é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista”. Destaco, aqui, o posicionamento crítico de José Veríssimo referente ao romance de Euclides, pois, por volta de 1909, ele avalia também a obra barretiana. Percebe-se que algumas características comuns aos dois escritores são avaliadas positivamente na obra euclidiana, enquanto, na obra barretiana, as mesmas características deterministas e positivistas são consideradas como “o seu excessivo personalismo”.
Ambos criaram obras fortemente calcadas no real e, principalmente, contextualizadas historicamente, o que é avaliado de forma diferenciada pela crítica. Em Euclides da Cunha, isso foi visto e recebido de forma positiva. Já, em Lima Barreto, o que permanece é a crítica negativa e depreciativa. São muitos os fatores que diferenciam os dois escritores. Um deles se pode atribuir à linguagem utilizada pelos escritores. Euclides escreve com uma linguagem academicista e mantém o estilo elevado do começo ao fim. Segundo Bosi (1970, p. 308), “[...] pode-se apontar no Euclides manipulador do verbo o contemporâneo de
Rui e de Coelho Neto, o leitor intemperante do dicionário à cata do termo técnico ou precioso”. No que se refere à linguagem, as oposições continuam. Euclides da Cunha usou de todos os recursos da linguagem jornalística. Mais uma ocasião em que o jornalista está presente no escritor. A transparência e fluidez presentes nos textos, bem como as matérias jornalísticas, dão uma sensação maior de realidade, em que o escritor mescla documentos e acontecimentos do dia-a-dia. Em, Os sertões, Euclides da Cunha faz uma descrição determinista da terra, do homem e da luta, enquadrando-o em uma cultura científica e histórica.
Euclides da Cunha, tanto quanto Lima Barreto, escreveu deixando marcas pessoais inegáveis, porém é incompreensível que somente a obra de Lima Barreto tenha sido classificada de autobiográfica e memorialística. Classificação vista como pejorativa no início do século XX, e que marca, escritor e obra, profundamente. A verdadeira literatura, para José Veríssimo, seria “representação”, “síntese”, “e mesmo realista, idealização”. Com essas palavras se expressa o crítico – em relação à obra Recordações do Escrivão Isaías Caminha de Lima Barreto –, o que, na avaliação de Veríssimo, é, justamente, o que falta à obra do escritor. Esse era o ideal de literatura predominante e compartilhado pela crítica oficial do período.
Uma abordagem crítico-comparativa entre Euclides da Cunha, autor de Os sertões (1902), e o escritor Lima Barreto, foi feita por Nicolau Sevcenko, em Literatura como Missão (1999). No prefácio ao livro, assim se posiciona Francisco de Assis Barbosa: “[...] centrando a sua análise crítica em duas figuras aparentemente marginalizadas tanto política como intelectualmente, apesar do êxito incontestável alcançado pelas obras que publicaram: Euclides da Cunha e Lima Barreto” (SEVCENKO, 1999, p. 13). É estranho aceitar o “aparentemente marginalizadas”, com referência ao escritor Lima Barreto, uma vez que, mais que ninguém, Francisco de Assis Barbosa conheceu e teve contato com a obra barretiana, pois foi biógrafo do escritor e, automaticamente, constatou de perto a marginalização sofrida por Lima Barreto. Nota-se, assim, uma postura indefinida e de meios termos da parte de Barbosa, que não corresponde à visão explícita, escancarada e preconceituosa estabelecida pela crítica oficial desde a estreia de Lima Barreto.
O estudo de Nicolau Sevcenko possibilita uma equiparação entre as atuações de Euclides da Cunha e Lima Barreto na belle époque, mediante análise sob uma perspectiva histórica. Sevcenko encontra, na obra de ambos, elementos significativos para a elucidação, tanto das tensões históricas quanto dos seus dilemas culturais. O livro é composto de seis capítulos. No primeiro capítulo, “A Inserção Compulsória do Brasil na Belle Époque”, o autor faz uma
retomada histórica de tudo o que estava acontecendo no Brasil, mais especificamente, no Rio de Janeiro. Segundo Sevcenko, o advento da República trouxe, em seu bojo, amplas transformações do espaço público, do modo de vida e da mentalidade carioca, e quatro princípios nortearam essas transformações:
[...] a condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória à sociedade tradicional; a negação de todo e qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante; uma política rigorosa de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será praticamente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e um cosmopolitismo agressivo, profundamente identificado com a vida parisiense. (SEVCENKO, 1999, p. 30).
Nesse período, o País passou por um processo de “regeneração”, cujo significado sintetiza-se nas expressões “o Rio civiliza-se” e “ditadura do smartismo”. A esse processo, Lima se opõe sem meios termos, como, também, a esses quatro princípios citados anteriormente. Seu projeto literário demonstra bem isso: primeiro, faz questão de preservar os hábitos e costumes da sociedade; segundo, busca resgatar a cultura popular; terceiro, critica a expulsão dos grupos populares da área central para os subúrbios, sem uma infra-estrutura adequada; quarto, critica abertamente o cosmopolitismo vigente e reforça o nacional.
No segundo capítulo, “O Exercício Intelectual como Atitude Política: os Escritores- cidadãos”, demonstra que o engajamento se torna a condição ética do homem de letras. Nesse período, o principal núcleo de escritores carioca fez-se conhecer por “mosqueteiros- intelectuais”. No terceiro capítulo, “Euclides da Cunha e Lima Barreto: Sintonias e Antinomias”, Sevcenko aborda as semelhanças e as diferenças encontradas na vida e na obra dos dois escritores. Por meio de um cotejamento crítico entre as obras de Lima Barreto e Euclides da Cunha, proporciona uma visão dos campos de tensões históricas que marcaram a
belle époque. No quarto capítulo, “Euclides da Cunha e o Círculo dos Sábios”, divide sua
análise em três enfoques: a linguagem, a obra e os fundamentos sociais. No quinto capítulo, “Lima Barreto e a República dos Bruzundangas”, utiliza-se do mesmo modo de análise aplicado a Euclides e sob o mesmo enfoque, só que, agora, o escritor é Lima Barreto.
Como vimos, a maioria da crítica manifestou-se quanto aos processos da ironia e da caricatura utilizados por Lima Barreto em suas obras. Sevcenko também aponta a ironia e a caricatura como recursos básicos da ficção barretiana. A ironia, concebendo-a de forma bastante ampla, “que vai da simples malícia ao mais profundo humour”; quanto à caricatura, “[...] ela deriva de sua convicção de que a realidade não fala por si, é preciso que ela seja exagerada criticamente para revelar os seus defeitos e expor as deformações que despertem o desprezo geral” (SEVCENKO, 1999, p. 167). O crítico diz, ainda, que os modelos, tanto da
ironia quanto do humour e da caricatura, Lima vai buscar nos “[...] grandes mestres do gênero, folheando avidamente Swift, Dickens, Voltaire, Balzac, Daudet e Maupassant com destaque” (SEVCENKO, 1999, p. 167). É importante destacar que a avaliação de Sevcenko mostra-se positiva ao apontar as possíveis influências no estilo de Lima, porém o mais importante é o fato de Sevcenko ter percebido que Lima se preocupou em preservar sua originalidade e que não é possível filiá-lo a esse ou aquele escritor, “[...] antes ocorrendo o autor acrescentar muito de si próprio e dos outros ao que retira de cada um” (SEVCENKO, 1999, p. 167).
O sexto e último capítulo, “Confronto Categórico: a Literatura como Missão”, divide-se em três tópicos: “Disparidade elementar”, “Identidade profunda” e “Literatura e Ação pública”. Enfim, assim se estrutura e resume a obra de Sevcenko. A análise de Sevcenko apresenta-se sob um enfoque historicista, isto é, estuda cada escritor pautando-se em uma contextualização histórica da belle époque. Desse modo, as obras e posturas, tanto as de Lima Barreto quanto as de Euclides da Cunha, são explicadas e justificadas em função do contexto histórico.
Constata-se, então, que a avaliação de Sevcenko coloca os dois escritores em equilíbrio, isto é, ambos ocupando lugares de destaque na literatura brasileira, com o mesmo grau de participação e importância. Sevcenko demonstra que, apesar dos escritores, Lima e Euclides, posicionarem-se de formas totalmente contrárias um do outro, cada qual agiu de maneira coerente com as ideias que professavam.
Ao retomar alguns dos estudos e avaliações críticas sobre os escritores contemporâneos a Lima – quando do momento das respectivas estreias no mundo literário – pela crítica oficial vigente, deu-se preferência aos que apresentavam uma perspectiva comparada. Pelo visto, as aproximações apresentadas, nos periódicos, ocorreram de modo superficial, porém isso marcou profundamente a obra e o escritor Lima Barreto. Quanto à avaliação crítica de Bosi e Pereira, embora fazendo a opção pelo modo de escrita de Machado de Assis, ambos estabelecem uma visão positiva da obra de Lima Barreto. Já os trabalhos de Sevcenko (1999) e os de Almeida e Silva, mais recentes, apresentam uma análise sob a perspectiva comparativista de forma mais abrangente, constatando-se, nesses trabalhos, que a avaliação do escritor Lima Barreto realmente atinge o lugar tão esperado pelo escritor. A avaliação crítica do escritor Lima Barreto realmente passa por mudanças; a crítica privilegia, agora, outro foco. Deixa de dar importância à vida do autor e enfatiza sua criação ficcional, isto é, o texto. A citação retirada do Diário íntimo (1904), de Lima Barreto – de certa forma –
vem justificar o percurso de aproximações e comparações que há pouco percorremos; nela, Lima denota coerência, bom senso e cobrança exagerada consigo mesmo: “Quando me julgo – nada valho; quando me comparo, sou grande” (BARRETO, 1956, v. XIV, p. 52).