• Sonuç bulunamadı

A preocupação com a utilização do mercúrio, seu consumo na indústria e, atualmente, nos garimpos de ouro que, a partir dos anos 80, vêm se constituindo na principal fonte de perdas desse produto químico, gerando graves danos ambientais, no país, motivam a realização de pesquisas no campo da biologia. A região do Tapajós concentra os garimpos fluviais, onde buscam realizar o levantamento do índice de contaminação mercurial e as decorrentes alterações no material genético da população a ela exposta.

São inúmeros os organismos que se voltaram para a questão e que, desde a década de 80, promovem encontros para discutir os resultados de suas investigações e suas preocupações com esse problema. Dessa intervenção, resultou, em fevereiro de 1989, a realização do I Encontro de Entidades Conservacionistas Não–Governamentais, em Altamira-PA, onde tomaram parte entidades como: Associação de Universidade da Amazônia – UNAMAZ, Sociedade de Preservação de Recursos Naturais e Culturais da Amazônia – SOPREN, Grupo de Defesa dos Ecossistemas do Baixo e Médio Amazonas

– GEDEBAM, Secretaria de Estado da Indústria Comércio e Mineração – SEICOM, Universidade Federal do Pará – UFPA, Departamento Nacional de Pesquisa Mineral – DNPM, Secretaria de Estado de Ciência Tecnologia e Meio Ambiente – SECTAM, Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia – INPA, Museu Paraense Emílio Göeldi – MPEG e a Faculdade de Ciências Agrárias do Pará – FCAP.

A principal denúncia recai sobre a possibilidade de contaminação que a exposição, tanto curta quanto prolongada, poderia causar aos garimpeiros, ribeirinhos e grupos indígenas. Inúmeras adesões e encontros se seguiram a esse primeiro evento, dentre outras: Environmental Defense Fund, University of Connecticut, University of New York, Departamento de Meio Ambiente da Universidade de Helsinque, Fundo Monetário Internacional – FMI, e Banco Mundial. A situação, entretanto, permanece inalterada.

A riqueza existente na região amazônica sempre levanta a possibilidade de solução para o quadro de miséria em que vive grande parte da população, não apenas local, mas nacional. As jazidas de ouro estão em nosso imaginário, como alternativas freqüentemente citadas ao falarmos de dívida externa e interna, quer de governo estadual, quer federal. Não há clara noção de que a exploração do ouro, na Amazônia, utilizando-se do mercúrio, pudesse ou possa acarretar qualquer possibilidade de catástrofe maior do que a pobreza já representa. Mas, ao que tudo indica, não só os que estavam manipulando aquela bomba química desconheciam o perigo.

A fragilidade presente na legislação brasileira, que não contém qualquer restrição quanto à comercialização, produção e consumo do mercúrio, pode ser um outro fator relevante para que o Brasil passasse a ser considerado um importante mercado consumidor: as características da Amazônia puderam ser vistas também como ideais, num momento em que o ouro tinha sua comercialização em alta, no mercado

internacional, e a descoberta de Serra Pelada prenunciava a possibilidade de pagamento da dívida externa brasileira. Sem falar que, na forma como essa atividade extrativista é desenvolvida, sem o reaproveitamento desse metal pesado, as perdas de mercúrio são praticamente totais, garantindo a manutenção de sua importação.

Diante desse problema, vivenciávamos uma imensa inquietação. Não seria esse um caso de simples solução? Se, estava constatado que o uso desse produto representava a morte do homem e a destruição da natureza; porque alguém insistiria em sua utilização? Bastava que os ingênuos manipuladores da bomba química soubessem o que tinham em mãos. A resposta: − “Não há dados conclusivos sobre a questão”

Quanta ingenuidade a minha!

O esclarecimento fica aliado à racionalidade apenas adequada a métodos de investigação, mas distanciado de seu objetivo de emancipação humana A inter- relação entre a finalidade da UFPA, enquanto instituição que busca conhecer a realidade da região para encontrar alternativas reais, em resposta às questões que a ela se apresentam, e a sua efetivação pela reflexão, visando desmistificar como ideologia a razão que a governa, leva-nos a voltarmos o olhar numa outra direção: a de sua alteração. Adorno é enfático ao afirmar que: “Nenhuma história universal leva do selvagem à humanidade, mas certamente à megabomba”. (ADORNO apud DUARTE, 1993, p.156). Vejamos um pouco da história desses homens, no interior da Amazônia.

CAPÍTULO 2

‘ESCLARECIMENTO’

“O amor pelo passado não tem nada a ver com uma orientação política reacionária. Como todas as atividades humanas, a Revolução extrai toda a seiva de uma tradição. Marx o sentiu tão bem que fez questão de buscar a origem dessa tradição nas mais longínquas idades, fazendo da luta de classes o único princípio de explicação histórica [...] A oposição entre passado e futuro é absurda. O futuro não nos traz nada, não nos dá nada, nós é que temos que construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe a nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados e recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.” (WEIL, 1979, p.353-354).

Nenhuma transformação se dá abruptamente, tampouco é imposta à força, apenas. Ela vai sendo preparada e atingindo desde as raízes. A violência que impõe

desenraizamento desfigura a tradição, porque afeta a derradeira possibilidade de resistência – a moral.

Os mecanismos acionados para controlar os impulsos internos do homem, que dirige a si mesmo, bem como os que controlam sua ação, em direção a tudo aquilo que lhe é exterior, aqui compreendidos como mecanismos de auto e hetero-regulação, vão sendo identificados, ao longo do processo civilizatório, como condição de sua existência tanto individual como coletiva. Marcuse (1968) chega afirmar que a teoria freudiana desenvolve um conceito de homem que é “[...] a mais irrefutável acusação à civilização ocidental - e ao

mesmo tempo, a mais inabalável defesa dessa civilização. [...] As vicissitudes dos instintos são as vicissitudes da engrenagem mental na civilização.” (p.33).

Cabe ressaltar que um caráter determinista biológico, natural, tem sido transplantado para quase todas as esferas da vida, obscurecendo o processo histórico evolutivo que transformou vidas primitivas, desde sua origem até atingir o estado atual em que se encontram. A psicanálise de Freud, ao expor o processo civilizatório como resultado da repressão de instintos humanos, o que resulta na perpetuação da dominação, deixa entrever, por meio de sua hesitação em tomar partido pelo caráter a- histórico dos processos psicológicos, os fundamentos históricos, sociais e políticos, nos quais o indivíduo era conformado no interior da sociedade.

“Fica-se com a impressão de que a civilização é algo imposto a

uma maioria resistente por uma minoria que compreendeu como obter a posse dos meios de poder e coerção. Evidentemente, é natural supor que essas faculdades não são inerentes à natureza da própria civilização, mas determinadas pelas imperfeições das formas culturais que até agora se desenvolveram. E, de fato, não é difícil assinalar os seus defeitos.” (FREUD, 1992, p. 640, grifo nosso)

A distância, encontrada no tempo e espaço que separam as questões teóricas que vínhamos discutindo, no capítulo anterior, e as da realidade que agora iniciamos, pode parecer, no primeiro momento, uma barreira intransponível, capaz de impossibilitar qualquer tentativa de aproximação entre elas. Acredito, no entanto, que confrontar situações aparentemente distintas sirva aos propósitos de validação do próprio conhecimento que, uma vez superado pela realidade, esteja a exigir novas respostas às questões que ela não cansa de colocar. Por outro lado, sabemos que a dominação do homem assume formas diversas e tem demonstrado capacidade de ajuste a toda e qualquer transformação que seja realizada, o que exige, de nossa parte, voltarmo-nos para a identificação dos processos que a efetivam.

É buscando compreender os mecanismos adotados que conduzem à concretização de tal condição, que me embrenho na Amazônia, tal como o caboclo dessa região, que a penetra na tentativa de conhecê-la, para com ela relacionar-se. O olhar, através dos olhos dos

habitantes da região, não pode deixar de perceber a atração que aquela vem despertando, transformando-a em objeto de grande interesse por parte dos mais variados grupos e nações, cujos motivos correspondem às proporções da própria região.

Benzer Belgeler