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Dentre as revistas que lê (Estilo, Gloss e Máxima), Fernanda optou por falar sobre a Gloss. De maneira geral falamos nas revistas no plural, porque não é possível em uma conversa, que foi a proposta deste estudo, separar o que ela lê, visto que as características gerais se aproximam muito. Apenas na seleção de um material para comentar é que a revista Gloss aparece exclusivamente, porque as revistas Estilo e Máxima não foram consideradas nesta pesquisa.

Fernanda reconhece nas revistas um perfil profissional feminino de mulheres empreendedoras, que administram o próprio negócio. Diz não lembrar de ter lido nenhuma reportagem sobre mulheres que cresceram profissionalmente dentro de uma empresa, por exemplo, ou investindo na carreira “trabalhando para os outros”. Fernanda acha que nas revistas existe indícios claros sobre a divisão do trabalho por gênero, justificando que as principais reportagens que lembra ter lido são de mulheres trabalhando em profissões femininas:

Eu nunca li uma reportagem de uma mulher que tenha entrado num mercado de trabalho de homem e tenha sido bem-sucedida. Eu nunca cheguei a ler isso. Eu acho que falta um pouco nas revistas um incentivo dessa parte. Fazer uma reportagem das mulheres que tão trabalhando num cargo que geralmente homem ocupa e são bem- sucedidas. (Fernanda, 32 anos, Coordenadora Operacional).

Mulheres empreendedoras são, automaticamente, mulheres bem- sucedidas, afirma. Segundo ela, nenhuma das mulheres que aparecem nas revistas falando sobre a carreira, sobre investir no empreendedorismo, é mal sucedida, porque elas investem no que gostam. Fernanda retoma o exemplo de mulheres que trabalham com a área das tecnologias, ela acha que dificilmente as mulheres gostam dessa área, por isso não existem muitas mulheres trabalhando com isso, elas não teriam como ser bem sucedidas apenas ganhando bem, teriam que fazer o que gostam, por isso investem nas próprias empresas.

Essas mulheres bem-sucedidas, que fazem o que gostam, tem um perfil explicado por Fernanda: São dinâmicas e inteligentes, muitas são autodidatas, porque “vão atrás”, não ficam paradas no tempo, esperando as coisas acontecerem. Por outro lado, as revistas dificilmente mostram o “outro lado” da mulher, com relação a vida pessoal, marido e filhos:

As reportagens que eu já li não fala de marido e filhos. Só fala da

profissão. [...] Inclusive, tem reportagens que ela se divorciou

porque o marido, deu algum conflito que ela começou a ganhar mais do que ele. [...] Pra mim, as mulheres bem sucedidas só

trabalham. Vivem pro trabalho. Nessas revistas. Eu conheço

mulheres...Inclusive, uma amiga minha abriu uma loja[...] Trabalha manhã e tarde e tá dando certo. [...] Nem por isso ela se divorciou, nem por isso ela deixa os filhos com babá. [...] O estilo dela também é assim. É dinâmica, não para quieta. Ela fala com todo mundo, ela

sempre tá atrás. Pode não tá ganhando rios de dinheiro, mas ela tá

ganhando o sustento. Ela tá realizando um sonho, é o que ela gosta e ela ganha pra isso. Então, pra mim, ela é bem-sucedida. (Fernanda, 32 anos, Coordenadora Operacional).

Fernanda se identifica com essa mulher profissional que “vai atrás”, porque nunca espera as coisas acontecerem, sempre está em busca de aperfeiçoamento, faz cursos, busca aprimorar suas habilidades. Ela acredita que nem mesmo um salário confortável é motivo para “parar no tempo”, a mulher dinâmica e inteligente sempre está em busca de novos sonhos.

Profissionalmente Fernanda ainda quer abrir o próprio negócio. É um objetivo de vida. Admite que educação não é a área que mais gosta, então buscou no seu trabalho estar diretamente coordenando pessoas, que é o que gosta de fazer na Escola. Seu negócio vai ser na área de moda, uma loja de roupas.

Nas seis edições da revista Gloss, Fernanda optou por reler e comentar a reportagem de quatro páginas da subeditoria Gloss trabalho intitulada “Seja homem, mulher!”, que fala sobre profissões tradicionalmente masculinas que estão em busca de um toque feminino. Fernanda destaca o que mais lhe chamou a atenção:

Que tem muito emprego. Essas áreas ali, mulheres se dariam bem

ali. Só que eu entendo porque não tem mulher. São áreas que

não são atrativas. Difícil ter mulher que adora tecnologia. Quem gosta disso é homem. Homem já nasce gostando de tecnologia. A

mulher é mais voltada pra parte humana, mais com pessoas. Os homens que são mais voltados pra máquina. Por isso que faltam

mulheres pra trabalhar nessas áreas que é muito a parte mecânica, de equipamento. Elas poderiam, com certeza, exercer essas funções. Na parte de TI, elas iam ser melhores que os homens. Pra mim, mulher é muito inteligente. Mulher grava mais informação. Mulher tem uma visão mais ampliada da coisa. Elas se sairiam bem, mas não é

uma área que a mulher goste. (Fernanda, 32 anos, Coordenadora

Operacional).

Segundo Fernanda, a reportagem valoriza a mulher:

Valoriza bastante. A mulher tem a capacidade de percepção, armazenamento de informações. Essas profissões precisam desse tipo de características, que os homens têm. Mas as mulheres, não. São características que a mulher tem, mas não quer dizer que ela goste disso. É difícil inserir as mulheres nesse tipo de profissão. É mais por não ter mais opções. Engenharia do petróleo não sei o que faz, não sei. Mas aqui também, gerente de TI é tecnologia. Eu acho que esse aqui seria bem interessante. E civil, trabalhar em construção. Não tem mulher que trabalha em construção. Engenharia civil que é acompanhar as obras. Analista de sistema até tem. Eu conheço mulheres analistas de sistema. Isso aí eu acho que é normal ter mulheres. Mas mais é questão de engenharia. Engenharia da Produção não tem, principalmente em empresas fumageiras. Antes tinha ciência da computação. Agora, é engenharia da computação. Na minha sala, se tu fizer engenharia da computação, engenharia da produção, engenharia mecânica, tu entra fácil. (Fernanda, 32 anos, Coordenadora Operacional).

Dessa forma Fernanda encerra o seu comentário sobre a reportagem, dizendo que não ter sido convencida pelo texto, pois segundo ela, as mulheres não querem trabalhar em algumas áreas, principalmente as que caracterizam os homens, como máquinas, tecnologias e engenharias. A conversa também é encerrada após este momento.

Benzer Belgeler