O espaço e o tempo contêm tudo aquilo que podemos saber a priori de objectos, uma vez Schopenhauer rejeita as categorias de Kant e a única forma do entendimento puro que sobrevive da tábua das categorias, a causalidade é, como teremos oportunidade de ver, um produto da reunião entre o espaço e o tempo (cf. infra, I.4.4). Pelo contrário, no que diz respeito à doutrina da sensibilidade pura24, a doutrina de Schopenhauer é essencialmente a mesma que Kant apresentara na Crítica da razão pura, em particular na secção "Estética transcendental":
A estética transcendental é uma obra tão extraordinariamente meritória que ela sozinha bastaria para eternizar o nome de Kant. As suas demonstrações têm uma tão grande capacidade de persuasão que eu tomo os seus teoremas como verdades irrefutáveis.25
(W I, 518)
23 “(...) und wenn jede dieser Formen, welche alle wir als so viele besondere Gestaltungen des Satzes vom
Grunde erkannt haben, nur für eine besondere Klasse von Vorstellungen gilt; so ist dagegen das Zerfallen in Objekt und Subjekt die gemeinsame Form aller jener Klassen, ist diejenige Form, unter welcher allein irgend eine Vorstellung, welcher Art sie auch sei, abstrakt oder intuitiv, rein oder empirisch, nur überhaupt möglich und denkbar ist”
24 Schopenhauer resolveu manter o termo “sensibilidade pura” que é usado por Kant. Apesar disso,
Schopenhauer critica o seu uso como inadequado por o conceito de “sensibilidade” pressupor o conceito de corpo e, portanto, também o de matéria (W I, 13).
25 “Die transscendentale Aesthetik ist ein so überaus verdienstvolles Werk, daß es allein hinreichen
könnte, Kants Namen zu verewigen. Ihre Beweise haben so volle Ueberzeugungskraft, daß ich die Lehrsätze derselben den unumstößlichen Wahrheiten beizähle (...).”Cf. ainda, W I, 519: “Von den Lehren der transscendentalen Aesthetik wüßte ich daher nichts hinwegzunehmen, nur Einiges hinzusetzen.” Só que aquilo que Schopenhauer tem a acrescentar não diz respeito ao cerne da estética transcendental, mas
Dado que Schopenhauer adere sem nenhuma reserva às teses de Kant, ele exime- se de as apresentar de novo na sua obra publicada26. Vamos, por isso, limitar-nos a uma exposição breve da teoria de Kant acerca do espaço e do tempo, que servirá também de introdução às secções que se seguem27.
Para Kant, a intuição (Anschauung) é a faculdade de representar objectos singulares de forma imediata (KrV B 33/A 19). A intuição contrapõe-se ao pensamento, que representa objectos de forma mediada, isto é, através de representações gerais ou conceitos. A intuição empírica representa os objectos através do modo como somos afectados por eles, isto é, através da sensação (KrV B 34/A 19-20). Além da intuição empírica possuímos ainda uma intuição pura, isto é, uma intuição a priori de objectos. Os objectos que intuimos a priori são precisamente o espaço e o tempo.
Segundo Kant, não haveria nenhum outro modo de explicar o facto de intuirmos o espaço e o tempo sem recurso à experiência se o espaço e o tempo não fossem, para além de intuições puras, formas da nossa intuição (KrV B 41; Prol 51-2)28. É, aliás, por isso que todas as proposições relativas ao espaço e ao tempo puros valem também para os objectos empíricos (objectos que se encontram no espaço e no tempo).
O espaço é a forma do sentido externo, isto é, a forma da intuição de objectos diferentes de nós mesmos (exteriores a nós). O tempo é a forma do sentido interno, isto é, a forma de intuição de nós mesmos e dos nossos estados. Isto não significa que o tempo se aplique só aos fenómenos internos e não aos externos. Visto que todos os fenómenos externos são indirectamente também fenómenos do sentido interno, o tempo é a forma da intuição de todos os objectos dos sentidos, sejam eles internos ou externos (KrV B 50/A 34).
A “exposição metafísica” é a secção da “Estética transcendental” onde Kant procura demonstrar que o espaço e o tempo são, de facto, intuições puras. Visto que os
apenas às consequências que, segundo ele, a mesma tem no que diz respeito ao método de prova na Geometria (W I, 519).
26 Schopenhauer expõe as teses de Kant relativas à intuição pura do espaço e do tempo nas Vorlesungen.
Cf. Vo I, 132-134, 141-156.
27 Sobre a Estética Transcendental de Kant cf. Allison, 1983; Kitscher, 1990 e
28 Se, para Schopenhauer, as formas da intuição são ipso facto objectos da intuição, em Kant elas só são
objectificadas como tal quando o entendimento exerce a sua função de unificação do diverso puro do espaço e do tempo. Cf. KrV B 160, onde espaço e tempo, na medida em que são objectificados, são chamados “intuições formais”. Para a crítica de Schopenhauer à tese de Kant de que o diverso da intuição pura necessita ser reunido cf. W I, 530. Sobre a diferença entre as concepções de Schopenhauer e Kant relativamente à intuição do espaço e do tempo como objectos formais cf. Koßler (1990: 100-1).
argumentos usados quer para um quer para outro são bastante similares, vamos seguir a argumentação das duas exposições metafísicas em simultâneo.
Em primeiro lugar, Kant argumenta que o espaço e o tempo não são representações extraídas da experiência. A experiência de objectos exteriores ao sujeito e também exteriores uns aos outros, quer dizer, situados em diferentes lugares, já pressupõe a representação do espaço (KrV B 38/A 23); assim também a experiência da sucessão e simultaneidade dos objectos já pressupõe a representação do tempo (KrV B 46/A 30). Para além disso, segundo Kant, podemos representar um espaço e um tempo sem objectos, mas nenhum objecto que não esteja no espaço e no tempo (KrV B 38-9/A 24, B 46/A 31). Se o espaço e o tempo fossem meros conceitos de relações entre as coisas, como defendia Leibniz, não seria possível representar o espaço e o tempo sem as coisas que se encontram neles.
Para além de argumentar que o espaço e o tempo são representados independentemente da experiência, a priori, Kant tenta também demonstrar que a sua representação é intuitiva e não conceptual. O espaço e o tempo são representações singulares, representações de um único objecto e não representações gerais de uma nota comum, de algo que possa ser uma propriedade de muitas coisas diferentes. Isto porque só existe um espaço e um tempo; todos os espaços e tempos diferentes são partes deste espaço único e daquele tempo único respectivamente. Quer dizer, o espaço e o tempo como um todo não são agregados constituídos pelas suas partes; estas já pressupõem aquelas totalidades, de tal modo que a representação de cada uma delas envolve já a representação de todo o espaço e de todo o tempo respectivamente. Os diferentes espaços e os diferentes tempos são apenas limitações de um único espaço e de um único tempo (KrV B 39/A 24-5, B 47/A 31). Por outras palavras, as partes do espaço e do tempo não se encontram sob os conceitos gerais de espaço e de tempo, do mesmo modo que todos os seres humanos são subsumidos sob o conceito de “ser humano”, mas sim
no espaço e no tempo.
Um exemplo a que Kant recorre frequentemente (Prol 58-9), e que Schopenhauer também usa por vezes, para demonstrar que a nossa representação do espaço é intuitiva, é o da percepção de objectos idênticos que podem ser postos no lugar um do outro. Trata-se de objectos que apresentam uma diferença que não é conceptual, isto é, não diz respeito ao conjunto de predicados que os define, mas meramente espacial. Kant quer mostrar, através da análise deste tipo de objectos, que a sua determinação espacial é irredutível à sua identidade conceptual e que, portanto, só pode
ser intuída. Este é o caso da diferença entre a luva esquerda e a luva direita. Ambas possuem as mesmas determinações, os mesmos predicados e, no entanto, são incongruentes: não podemos calçá-las trocadas. É também devido ao facto de o espaço e o tempo serem intuições que não se pode explicar por via conceptual o que é a esquerda e a direita, o "em cima" e o "em baixo". Estas determinações espaciais são representadas de forma imediata (intuitivamente) e são irredutíveis à representação conceptual.
Por último, só o facto de o espaço e o tempo serem intuições (puras) é que explica que os representemos como quantidades infinitas (KrV B 39-40/A 25, B 47-8/A 32). Cada parte do espaço e cada parte do tempo pressupõem todas as outras, isto é, cada uma das partes pressupõe o espaço e o tempo como um todo, uma vez que cada uma delas é apenas um determinado recorte deles. Se o espaço e o tempo como um todo fossem conceitos gerais abstraídos a partir das suas partes, nunca os representaríamos como infinitos, porque, na formação de conceitos, a representação das partes precede a representação do todo.
É também pelo facto de o espaço e o tempo serem intuições puras que se explica a possibilidade de fazermos juízos sintéticos a priori acerca deles – juízos em que há uma relação necessária entre dois conceitos sem que, contudo, o predicado esteja contido no conceito do sujeito. Todas as proposições da geometria euclideana são juízos sintéticos a priori relativos ao espaço. Existem também juízos sintéticos a priori relativos ao tempo como “dois tempos diferentes são sucessivos e não simultâneos” ou as operações aritméticas. Ora, todas as proposições como as da geometria, ou aquelas que acabámos de ver, implicam a intuição pura do espaço ou do tempo. Em primeiro lugar, elas não resultam da mera análise de conceitos; por exemplo, o conceito de linha recta não contém o predicado de ser o percurso mais curto entre dois pontos; de igual modo, o conceito de 5+7 não inclui o conceito de 12. É necessário, portanto, recorrer à intuição do espaço ou do tempo respectivamente para transitar de um dos termos para o outro. Se esta intuição fosse empírica, a relação entre o sujeito e o predicado nunca seria necessária. Deste modo, só o facto de as intuições do espaço e do tempo serem puras é que explica a possibilidade da geometria, das proposições relativas ao tempo e da aritmética.