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8. SONUÇLAR ve ÖNERİLER

Para Lévi-Strauss, existem entre os Bororo dois mediadores que regulam as relações entre a sociedade dos vivos e a sociedade dos mortos: o bári, xamã dos espíritos, “é o intermediário entre a sociedade humana e as almas malfazejas, individuais e cosmológicas”; e o aróe et-awára áre, xamã das almas, que, em oposição ao bári, “é o intermediário entre o mundo dos vivos e as almas benfazejas, coletivas e antropomórficas”.55 Existe uma clara rivalidade entre esses dois xamãs.

2.1.O XAMÃ DOS ESPÍRITOS

O bári, xamã dos espíritos, possui grande destaque dentro da aldeia, e é temido e respeitado por todos os Bororo. O bári, por sua ligação com os espíritos, tem alguns privilégios, como, por exemplo, ajuda sobrenatural nas caçadas solitárias, poder se transformar em fera e possuir dons proféticos e conhecimento sobre as doenças. Os produtos das caçadas e as primeiras colheitas são impróprios para o consumo enquanto não forem apresentados a ele. O bári é dominado pelos bópe, espíritos, que se utilizam dele para encarnar, e, por isso, é acometido continuamente por transes e convulsões. Em troca

54. Claude LÉVI-STRAUSS, O cru e cozido, p.52 55. Idem, Tristes trópicos, p. 222.

da proteção que recebe, ele é vigiado constantemente pelos bópe, espíritos, que são os donos do corpo e de todos os bens do bári.

Em geral, o bári é homem, mas as mulheres também podem exercer essa função. A respeito da mulher xamã dos espíritos, bári arédu, Albisetti e Venturelli afirmam:

Embora de instituição bastante recente, este xamã tem os mesmos poderes, deveres e privilégios do bári, xamã dos espíritos, com a diferença, porém, de não poder se transformar em fera e com a vantagem de poder tratar livremente mu lheres grávidas e no puerpério.56

O ofício de bári não depende da hereditariedade ou exclusividade clânica. Qualquer membro da sociedade Bororo pode vir a ser um bári. Segundo a tradição Bororo, a iniciação de um bári será efetivada somente quando o escolhido pelo bópe, espírito, aceitar as condições impostas por ele para se tornar xamã. Esse escolhido é convocado, durante a noite, pelo bópe, para se dirigir à floresta e fazer uma caçada. No decorrer dessa caçada, o espírito, na forma de júko, macaco, indaga ao futuro xamã se, em troca de poderes e privilégios, está disposto a abrir mão de sua liberdade e lhe entregar seu corpo e sua alma. Será realmente um bári aquele que declarar obediência ao bópe e entregar a ele seu arco e suas flechas. O bári irá, a partir desse momento, se referir ao espírito, bópe, como i-wáire, meu dono.

As principais funções e aptidões do bári, xamã dos espíritos, segundo Albisetti e Venturelli,57 são: prever o futuro por maio de sonhos ou evocações; agir de maneira extravagante, para evidenciar sua coragem e imunidade, como por exemplo, fumar considerável quantidade de charutos ou cigarros com a parte acesa na boca; fazer em pedaços, com os dentes, ossos de anta sem se ferir; tomar líquidos ferventes sem tirar seu recipiente do fogo; determinar o local para a caça, por meio de invocações dos espíritos; oferecer determinados alimentos aos bópe, espíritos; tratar e curar algumas doenças; fazer predições e esconjuros na passagem de um bólide; e transformar-se provisoriamente em fera.

56. César ALBISETTI; Ângelo VENTURELLI, Enciclopédia Bororo, v. 1, p. 253. 57. Ibid., v.1 p. 244-5.

A atuação do bári nos rituais de cura e exorcismo de alimentos é descrita por Viertler: “...sem pinturas nem adornos, oficia, sentado, segurando seu cigarro, esfregando-se o corpo e o cabelo com saliva e fumaça, gritando ao imitar o bópe, frente aos pedaços de carne de algum animal de caça já esquartejado ou um doente”.58

O exorcismo dos alimentos é a mais importante função do bári. Sem esse ritual, alguns alimentos não devem ser consumidos por nenhum Bororo. Segundo Viertler:

O exorcismo feito pelo bári, depois do esquartejamento, possui a função de revisar os pedaços de carne, peixe, frutos etc., por meio de mordidas, tornando-se assim liberados para o consumo comunitário. Sem isso, os Bororo imaginam ingerir o próprio bópe , que, não liberado pelo exorcismo, permanece retido dentro dos alimentos. Na falta da mordida de um bári, o bópe retido dentro dos alimentos não exorcizados termina por devorar, de dentro para fora, o consumido das espécies sobre as quais o espírito possui a primazia das primeiras mo rdidas.59

Segundo Albisetti e Venturelli, é no mito de Méri e Ári que estão explicadas as origens lendárias do bári e da reserva de alimentos aos espíritos. A narrativa mítica é sobre dois espíritos que viveram como humanos entre os Bororo. Esses espíritos, Méri, sol, e

Ári, lua, foram assim designados pelos Bororo em sinal de admiração e respeito, pela

superioridade que esses espíritos demonstraram.

Méri é o próprio Maerebóe-dóge Etúo, Pai dos espíritos, morador do barú kavóru,

céu azul, ou seja, o mais alto. Tendo ele, certa vez, quebrado uma grande cerâmica dos membros do clã dos iwagúdo dóge, estes ofenderam-no com violentas recriminações, pelo que o espírito vingou-se transformando-os em karáwoe , aves do pantanal. Os índios, por sua vez, desforraram-se zombando dele e, depois, o fizeram subir ao céu por meio de vento, produzido com abanicos. Em seguida fizeram-lhe muitas promessas, como móri, retribuição do mal que haviam praticado. 60

Os autores apresentam um fragmento desse mito, que faz parte de um ciclo de lendas expostas no segundo volume da Enciclopédia Bororo.61 Nesse fragmento, cujo título é “Méri feito subir ao céu”, são especificadas as obrigações dos Bororo, enumerados

58. Renate B. VIERTLER, Fragmentos da cosmologia Bororo: xamãs, oráculos e cerimônias de cura, p. 209. 59. Idem, A comida dos espíritos bópe e o seu significado para a cosmologia dos bororo orientais, p. 195. 60. César ALBISETTI; Ângelo VENTURELLI, Enciclopédia Bororo, v. 1, p. 241.

os alimentos reservados aos bópe e instituído o intermediário entre homens e espíritos, que mais tarde recebeu o nome de bári:

...então os Karáwoe Kujaguréuge (i.é. os membros de um subclã dos Iwágudo-dóge) fizeram subir ao céu Méri, dizendo-lhe: “Tu não és um ente que deve caminhar e viver sobre a terra; tu és um espírito verdadeiro. Tu pedirás, para teu alimento, antas, queixadas com pêlos brancos, caititus; veados-galheiros, guaçuetês, suaçutingas, guaçutis; emas, seriemas; capivaras, jacarés, jaús, pirarucus, surubins; pequis, marmeladas pretas, amoras, mangabas, cajás; tubérculos; cipós comestíveis; mel de tataíras; frutas de almecegueiras, frutas de algodãozinhos, frutas de pau-do-serrote; milho. Se, por acaso, os Bororo deixarem fugir algum desses animais feridos, ou aproximarem sua boca desses alimentos, tu te irarás, tu os farás morrer imediatamente. Esses alimentos serão oferecidos pela boca de um homem, mas não pela boca de um Bororo qualquer.” 62

Os alimentos reservados aos bópe, espíritos, são oferecidos pelo bári, xamã dos espíritos, por meio de rituais que segue m regras tradicionais. Ao receber uma caça para o exorcismo, o bári segue uma seqüência de procedimentos, iniciados pelo akagíri, esquartejamento. O esquartejamento da kí, anta, e a repartição de suas partes estão descritos minuciosamente no primeiro volume da Enciclopédia Bororo,63 e é descrito por

seus autores como o mais solene ritual, entre os rituais de esquartejamento, e o mesmo vale para a oferta desse alimento para o bópe. Após a repartição das partes do animal, o bári as entrega para sua esposa para serem cozidas, em seguida, evoca o bópe, que se apodera de seu corpo, come as partes destinadas a ele, fuma muitos charutos, faz algumas predições para então partir. A carne já cozida é colocada em uma bandeja e servida a todos, contudo, a melhor parte do que sobrou é oferecida aos caçadores. O bári toma o caldo dessa carne e o oferece aos báires falecidos. Segundo Albisetti e Venturelli:

Toda a cerimônia é acompanhada por muitas gesticulações, por fortes fricções com as mãos sobre o peito, coxas e nádegas, por tremores convulsivos de todos os músculos, especialmente do das pernas, por inclinações rítmicas do dorso e movimentos rápidos dos joelhos. O cerimonial realiza -se entre gritos altíssimos e dilacerantes que tornam a cena impressionante e inesquecível.64

62. César ALBISETTI; Ângelo VENTURELLI, Enciclopédia Bororo, v. 2, p. 242-3. 63. Ibid., v. 1, p. 31-4.

2.2.O XAMÃ DAS ALMAS

O aróe et-awára áre, xamã das almas, assim como o bári, tem grande prestígio e exerce considerável influência entre os Bororo. Contudo, apesar de suas funções em alguns pontos se assemelharem às do bári, esses sacerdotes têm papéis bem específicos na vida religiosa dos Bororo. Lévi-Strauss,65 ao se referir comparativamente a esses sacerdotes, e sobre o poder que eles têm de se transformarem em animais, afirma que, enquanto o bári se transforma em um animal como a onça, animal coletor, o aróe et-awára áre transforma-se em animais, como araras, gaviões e antas, que servem de alimento aos Bororo. O autor afirma também:

O bári é possuído pelos espíritos, e o aróe et-awára áre sacrifica-se pela salvação dos homens. Mesmo a revelação que o convoca à missão é dolorosa: o eleito identifica a si próprio como tal, primeiramente, pelo fedor que o persegue, e que lembra talvez aquele que empesta a aldeia nas semanas de inumação provisória do cadáver à flor da terra, no meio da praça de dança, mas que é então associado a um ser místico, o aíje. Este monstro das profundezas aquáticas, repugnante, fedorento e afetuoso, que aparece ao iniciado, e cujas carícias ele suporta. A cena é imitada no funeral por jovens cobertos de lama, que abraçam o personagem fantasiado encarnando a jovem alma. Os indígenas concebem o aíje de uma forma suficientemente precisa para representá-lo em pintura; e designam com o mesmo nome os zunidores, cujos roncos anunciam a emergência do animal e imitam seu grito. 66

O aróe et-awára áre não recebe oferendas, é obrigado a oferecer ao bári os alimentos reservados a ele, antes de consumi-los como qualquer Bororo; é também obrigado a seguir regras alimentares e vestir-se com sobriedade. Não pode enfeitar-se e nem usar cores vivas. Deve ter o máximo cuidado ao presidir os rituais, pois a menor falha poderá ser motivo de punição por parte das almas. Mas, segundo Lévi-Strauss, ele não precisa estabelecer pactos com as almas, “...estas lhe estão sempre presentes e, de certa maneira, são imanentes a ele”.67 Ao contrário do bári, o aróe et-awára áre não tem seu corpo apoderado nos transes pelos espíritos. Eles aparecem em seus sonhos e somente são invocados em favor de alguém.

65. Claude LÉVI-STRAUSS, Tristes trópicos, p. 224. 66. Ibid., p. 224.

As funções e aptidões do aróe et-awára áre, segundo Albisetti e Venturelli,68 são: evocar as almas; prever o futuro; indicar o lugar adequado para a caça ou pesca; curar doenças; e transformar-se em animal venatório. A evocação das almas é feita pelo aróe et-

awára áre, para prever o futuro, e curar doenças. Existe também a evocação das almas

feita durante algumas fases do ítaga, funeral, porém, com outras finalidades.

O aróe et-awára áre executa sua funções de modo silencioso e calmo, o inverso do

bári, que, normalmente, o faz de forma ruidosa e repleta de gestos. De acordo com

Albisetti e Venturelli:69 as mulheres também podem exercer a função de xamã das almas, e, nesse caso, são designadas como aróe et-awára áre arédu, xamã das almas-mulher; e uma mesma pessoa pode acumular as duas funções, uma vez que esses cargos não são incompatíveis.

Nos rituais de cura, segundo Viertler, o aróe et-awára áre, fuma como o bári, “...além de ingerir água lamacenta, tal como fazem o aróe maíwu e os cantores. Contudo, o instrumento tocado pelo aróe et-awára áre é o chocalho, instrumento de percussão. Os chocalhos são usados para acompanhar os cantos em complexas estruturas rítmicas associadas a certos movimentos de corpo e pernas”.70

Portanto, vê-se que, para os Bororo, o universo físico consiste numa hierarquia complexa de poderes individualizados. Se sua natureza pessoal é claramente afirmada, o mesmo não ocorre com os outros atributos, pois esses poderes são, ao mesmo tempo, coisas e seres, vivos e mortos. Na sociedade, os feiticeiros formam a articulação que liga os homens a esse universo ambíguo das almas maléficas, a um só tempo pessoas e objetos. 71

Benzer Belgeler