Introdução
Este capítulo é uma aventura interpretativa de fontes primárias e do material histórico disponível a partir da análise dos Relatos de Cronistas Quinhentistas como o Padre Manuel da Nóbrega, Andre Thevet, Hans Staden e Jean de Léry sobre a religiosidade indíg ena. Neste sentido, uma das principais contribuições desta pesquisa é tentar estabelecer pontes e diálogos com a produção antropológica (Métraux, Hélène e Pierre Clastres, Darcy Ribeiro, etc.,) historiográfica (Jean Delumeau, Braudel, Ginzburg, Gruzinski, Ronaldo Vainfas, Laura de Mello e Souza, etc.,), cientistas religiosos (Campbell, Mircea Eliade. Etc.), entre outros pensadores.
Trata fundamentalmente, da documentação produzida pelos viajantes que no Brasil estiveram no Século XVI. A abordagem central é a análise da visão do cristão europeu, sobre a religiosidade indígena deste mesmo período, buscando avaliar a resistência indígena à colonização portuguesa, assim como, recuperar a atividade e participação dos índios em face da conquista, revelando as elaborações simbólicas produzidas pelos índios sobre o contato com vários agentes: missionários, administradores coloniais, viajantes, etc.
Na tentativa de desvendar o outro lado da história, a parte que cabe aos índios no processo religioso de cristianização, esta pesquisa busca entender também, as razões indígenas e a forma como estes elaboraram o processo de contato com os cristãos. Para fundamentar essa interpretação e tirar proveito da etnografia indígena, construída por aqueles que narraram seus encontros com estas culturas será proposto uma interpretação destas variáveis e seus possíveis cruzamentos, ao mesmo tempo realizar uma crítica da cultura e da história religiosa do povo brasileiro analisando as complexas relações engendradas pelo contato intercultural.
O Capítulo II está dividido em partes. Primeiramente refaz o percurso da “descoberta” e do encontro entre portugueses e índios, balizando o contexto em que se desenvolverá a trama principal: os relatos produzidos pelos
visitantes sobre o contato com os nativos, enfocando a questão religiosa, examinando assim, as versões dos europeus sobre os nativos e a produção de suas representações a propósito de idolatria e demonolatria, na classificação e percepção dos indígenas. A seguir, através de um material etnográfico sobre este contato, será analisada a morfologia social indígena, seus símbolos e suas principais manifestações: os rituais comemorativos e suas crenças religiosas, além de avaliar como o profeta-caraíba e seus seguidores interferiam no comportamento das diferentes tribos; enfim, fazer uma análise da religiosidade indígena, através dos relatos dos cronistas, sobre a parte referente à “feitiçaria” ou a espiritualidade indígena.
2.1 - Brasil – Paraíso ou Inferno Atlântico?
Como boa parcela do Novo Mundo, o Brasil deve muito aos elementos do imaginário europeu, pois é através desse olhar, que será inventada a Colônia portuguesa. O Brasil, assim como toda a América, foi colocado a serviço das novas descobertas do mundo. Como tudo que era considerado raro, estranho ou singular tornasse alvo de uma ganância que aumentaria a cada dia; à exuberância da natureza, dos humanos e dos animais somava -se a fascinação pela diferença: canibalismo, nudismo, liberdade sexual, erotismo, poligamia e incesto tudo isto, despertava uma atenção especial.
Podemos considerar que os desbravadores europeus, após ter explorado o Oceano Índico e desmistificado o seu universo fantástico, o Oceano Atlântico passou a ocupar papel análogo no imaginário do europeu medieval e assim, o Novo Mundo veio a ser “Reduto derradeiro das
humanidades monstruosas, do paraíso terreno, do reino do próprio demo...” (Souza, 1986: 26).
Sergio Buarque de Holanda, importante historiador brasileiro, em seu livro “Visão do Paraíso” (1969), nos mostra o deslocamento do mito do Paraíso Terrestre para o universo Atlântico vindo da Ásia e da África através de tradições bastante antigas. Essa mudança ocorreu de forma lenta. No Século X, o Paraíso Terrestre situava -se no meio do Oceano, conseqüentemente foi deslocando-se, acompanhando o progresso dos conhecimentos geográficos,
até desaparecer já em fins do Século XVI, embora estivesse presente na imaginação popular até o Século XVIII. (Souza, 1986: 27).
Mapa do Brasil, d’après Guillaume Lê Testu, Cosmographie universelle, Atlas enluminè sur papier, Lê Havre, 1556, f. 44 vº, Vincennes, S.H.A. T., clichê Giraudon.
As lendas medievais européias encontraram um novo espaço no imaginário dos cristãos civilizados. Às novas terras foram associadas antigas lendas sobre o arquipélago das ilhas Brasil. Estas ilhas constam em vários mapas e cartografias medievais. Laura de Mello liga esse conhecimento, às várias transformações que sofreu o nome Brasil, que os europeus associavam à Ilha de São Brandão. E diz, que de 1351 a 1508, estas ilhas conheceram variações como: Brazi, Bracir, Brasille, Bracil, Braxili, Bresilge, e muitos outros. Estas ilhas eram registradas na maioria das Cartas Marítimas, como disse anteriormente, e sua posição se manteve inalterada:
A mais meridional das ilhas encontramos assinalada no grupo dos Açores, aproximadamente na latitude do Cabo do
São Vicente; a segunda demora a NW do Cabo de Finistera, na latitude da Bretanha; a terceira a W e não muito longe da costa da Irlanda. (Souza, 1986: 27-28).
A primeira pessoa a comentar e a tentar explicar o nome Brasil foi Frei Vicente do Salvador. Ele não tinha conhecimento da presença do nome Brasil nas cartas medievais, mas explica a designação pela presença da madeira, de cor avermelhada utilizada para tingir, além de outras coisas, tecidos. Entretanto, é interessante notar que, ao fazê-lo forneceu uma complicadíssima explicação de cunho religioso, referente à luta entre o bem e o mal. O céu: reino de Deus e o inferno: reino do Demônio. Mais do que isso associou “esta porção imatura da terra” ao âmbito das possessões demoníacas. Sobre a Colônia nascente, projetou toda a carga do imaginário europeu, no qual, desde o início do Século XVI, o demônio ocupou papel de destaque. Se a identificação com as regiões infernais é transparente no texto do frei Vicente, a associação entre o fruto de uma viagem concreta, que foi o descobrimento do Brasil, e as incontáveis imagens “exóticas”, que os europeus tinham acesso há tempos, através de textos literários, diários de viagens, etc., Entre o real e o imaginário, se pensarmos nas terras selvagens, recém-descobertas, as imagens projetadas, não eram menos importantes, apesar de nem tão legítimas quanto pareciam.
Frei Vicente diria que o diabo transferira seu reino para a América, uma vez expulso da velha cristandade, do que resultaria inclusive o triunfo do nome Brasil sobre a Terra de Santa Cruz, homenagem ao “pau de cor abrasada e vermelha” que abundava no litoral. (Vainfas, 1995: 28).
O Brasil, Colônia portuguesa, nascia assim sob o signo do demo e das projeções do imaginário do homem ocidental. Mas o domínio infernal não era a única possibilidade neste trecho do Frei Vicente.
O primeiro movimento, o de Pedro Álvares se fez no sentido do céu: a este, acoplar-se-ia a Colônia. Não fossem os esforços bem sucedidos de Lúcifer, pondo tudo a perder. (Abreu, 1900: 48).
O texto do primeiro historiador que comenta as relações ambíguas existente à partir do próprio nome Brasil, para a Colônia é extraordinário,
justamente por dar conta da complexidade subjacente às duas possibilidades: enxergar-se a Colônia como domínio de Deus o paraíso, ou domínio do Diabo o inferno. Para Frei Vicente, o demônio levou a melhor. Brasil foi o nome que vingou, e o frade lamenta que se tenha esquecido a outra designação, muito mais virtuosa e conforme aos propósitos salvacionista da brava gente portuguesa; “Ilha de Vera Cruz” ou “Terra de Santa Cruz”. (Souza, 1986: 28- 29).
Existe uma outra interpretação para a mesma questão; a do frade Jaboatão, bastante diversa, que enxergou o descobrimento do Brasil como sobrenatural e miraculoso, ‘ uma dádiva dos céus’:
Por muitos anos Deus mantivera oculta a existência dessa dilatada região, desvendando-a por fim aos olhos dos homens e permitindo que desse tesouro colhesse o Céu “multiplicados lucros”. Foi Deus quem, através de seus desígnios insondáveis conduziu os homens até aqui. O descobrimento revela e reforça a existência de Deus: milagre divino, eis o que foi o descobrimento da colônia portuguesa na América. (Souza, 1986: 29).
O descobrimento do Brasil desvendou aos portugueses a natureza paradisíaca que tantos aproximaria do paraíso terrestre: buscavam, assim, no acervo imaginário, os elementos de identificação da Nova Terra. Associar a fertilidade a vegetação luxuriante, a amenidade do clima às descrições tradicionais do paraíso terrestre tornava mais próxima e familiar para os europeus a terra tão distante e desconhecida. A presença divina fazia-se sentir também na natureza. Esta elevada à esfera divina, mais uma vez reiterava a presença de Deus no universo: é o que dizem Thevet e Lery, como veremos mais adiante ao analisarmos os relatos desses cronistas. Rocha Pita, que viveu neste mesmo período, comenta sobre os atributos da terra brasileira:
É o próprio Paraíso Terrestre: em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são as mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol ou se sepulte, estão sempre claros, as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos
aquedutos, são as mais puras: é enfim o Brasil terreal o paraíso descoberto, onde tem nascimento e curso dos maiores rios; domina salutífero clima; influem benígnos astros e respiram auras suavíssimas, posto que por ficar debaixo da tórrida zona, o desacreditassem e dessem por inabitáveis Aristóteles, Plínio e Cícero. (Souza, 1986: 38).
Lugar de concretização dos mitos de um paraíso terrestre, as terras brasileiras se contrapunham a humanidade pecadora. Como afirma Laura de Mello, entre a visão paradisíaca da Terra e a visão da natureza pintada de negro pelo escravo africano e de amarelo pelo indígena, venceu a diferença:
infernalizou-se o mundo dos homens em proporções jamais sonhadas em toda a história européia. O Brasil passou a ser o lugar imaginário das visões
ocidentais de uma humanidade inviável. (Souza, 1986: 29-30).
Diante de tal impasse, muitos hesitaram ao decidir entre o inferno ou o paraíso e escolheram o purgatório. Pelo menos teriam a possibilidade de purgarem seus pecados e garantirem uma vaga no céu.
Os relatos de viagens nos mostram essa ambigüidade. Em muitos momentos, poderiam ser agradáveis ou trágicos, dependendo da imaginação do autor. Agindo como choque cultural e provocando dúvidas e questionamentos às estruturas sociais de então, umas surgem como tendências edenizadoras, outras como inferno atlântico; que têm ressonância nas crônicas e relatos escritos sobre o Brasil.
2.2 - Colonização do Brasil e Cristianização dos Indígenas
Xilogravura de Hans Staden. Primeiros registros escritos e ilustrados sobre o Brasil e seus habitantes,1557.
Sobre o início da colonização do Brasil e catequese dos indígenas, utilizarei como principal referência bibliográfica o livro “Brasil – A época
colonial”, v.2: administração, economia e sociedade de Aziz Nacib (2003); além
dos livros de Emília Viotti da Costa “Monarquia-República”, (1999) e “Cartas –
Correspondência Ativa e Passiva” do Pe. Hélio Abranches Viotti, S.J (1984).
Em 1534, Dom João III, rei de Portugal, tomou as primeiras providências para a colonização do Brasil, criando as Donatárias. A primeira das Capitanias foi a de São Vicente, entregue a Martim Afonso de Souza. O rei de Portugal resolveu impetrar de Paulo III, Sumo Pontífice de Roma, que destinasse alguns apóstolos para ajudá-lo na propagação da fé, nos seus domínios ultramarinos: Ásia, África e América.
Reconhecido o “generoso patrocínio”, dispensado desde então pelo monarca lusitano à Nova Ordem, este mereceu da parte do fundador e de seus filhos, o título de “Pai da Companhia de Jesus”. (Viotti, 1984: 10,11).
A expansão missionária dos Jesuítas está sem dúvida, vinculada à expansão política e comercial dos portugueses pelo mundo. É desse período que temos notícia dos primeiros provimentos eclesiásticos. Por alvará de 5 de outubro de 1534, determinou D. João III que o provedor dos armazéns pagasse a um vigário e quatro capelães, que iam para Pernambuco com Duarte Coelho, quinze e oito mil-réis respectivamente. Os ditos eclesiásticos haviam sido examinados pelo bispo de São Tomé, Deão da Capela Real, provavelmente comissário pelo metropolita do Funchal, chefe de sua província eclesiástica. Esse alvará ocorre no livro, Primeiro das Provisões e está publicado na série Documentos Históricos (Bibl. Nac., vol. XXXV, p. 42. In. Nacib, 2003: 66-67).
O ano de 1549 começa nova fase em nossa história religiosa do povo brasileiro com a chegada dos primeiros jesuítas. Em carta a Tomé de Souza recomendou o rei que lhes fosse dado “tudo para que as ditas cousas ouverem
mister”. Em cumprimento dessa ordem fixou o governador em 5.600 réis, o
auxílio real para cada um. (Holanda 2003:63-67).
Fato decisivo para a Igreja no Brasil foi a criação, pela bula Super
specula militantes ecclesiae (04 de dezembro de 1554), do bispado de
cláusula de que, enquanto não houvesse outros bispados na Colônia Portuguesa, exercesse o novo bispo a sua jurisdição em todas as terras e partes da Colônia. O próprio bispo intitulava-se “bispo do Salvador e comissário-geral, em todas as terras do Brasil”. A carta de apresentação e confirmação do bispo (04 de dezembro de 1554) é um documento notável sob todos os pontos de vista, inclusive o histórico, pois que, começa por uma minuciosa exposição relativa à ereção dos bispados nas terras descobertas e ao padroado e termina por determinar expressamente o sistema de escolha das autoridades religiosas:
O bispo ora novamente, e os que adiante se proverem do dito bispado sejam providos à minha apresentação e dos ditos reis meus sucessores, mas a apresentação das dignidades, conezias e benefícios da dita igreja catedral, e assim das igrejas e benefícios com cura, ou sem cura, do dito bispado, seja do mestre ou do Governador da dita Ordem e Cavalaria de N. S. Jesus Cristo, o que tudo pelo Santo Padre me foi concedido. (Holanda, 2003 : 67).
O rei se propunha sustentar a diocese a principio com seus próprios rendimentos, visto que as terras do limite dito bispado são poucas, e os gastos que se fazem com as armadas (que continuamente é necessário que ande na costa do mar das terras do Brasil para defensão dos moradores) são muito grandes.
O primeiro bispo do Brasil foi um homem ilustrado. Mestre em artes pela Sorbonne, foi aluno do famoso Colégio de Santa Bárbara, núcleo de estudantes portugueses e espanhóis regido pelo célebre Diogo de Gouveia. Foi colega de Calvino, então padre católico e contemporâneo de Santo Inácio e Simão Rodrigues.
Foram os jesuítas que fizeram a campanha pela criação do bispado. Em cartas sucessivas o Pe. Manoel da Nóbrega evidenciara, perante o provincial português, a necessidade da vinda de uma autoridade, que contivesse os péssimos elementos do clero português que para cá vieram. A pobreza de recursos dificultava a obtenção da medida. Os dízimos a esse tempo deveriam representar minguada contribuição daí assumiram o rei a responsabilidade das despesas pela sua tesouraria, caso as contribuições eclesiásticas não fossem
suficientes. A América espanhola já contava dezenas de dioceses quando o Brasil começou a forma a sua hierarquia.
Duas grandes lutas sustentaram o bispo durante sua estada no Brasil a primeira contra os jesuítas, a segunda contra o Governador Duarte da Costa. É realmente chocante que, num momento tão delicado da colonização, divergissem força que deveriam concorrer para a salvação da grande empresa da colonização. Frei Odulfo van der Vate, vê no primeiro conflito, o choque entre duas mentalidades: a da renascença encarnada pelo bispo, nutrido dos ensinamentos clássicos, e a da Contra-Reforma, de que eram expressão máxima os jesuítas. Sem contestar a validade da atribuição daquelas representações, não se pode duvidar que aquele conflito tenha sido o primeiro, entre duas concepções do empreendimento colonizador: a dos jesuítas, querendo colocar a cristianização acima das contingências políticas e mesmo culturais da Europa, e a do bispo, não concebendo a catequese se não como a conquista do Brasil para o tipo de civilização e “cristianização” européias. Confundindo, e até identificando, a religião com a cultura, queria o bispo que se exigisse dos índios, antes de serem admitidos ao batismo, a capitulação diante da civilização ocidental. Escandalizou-se assim, com o fato de tolerarem os missionários a nudez dos selvagens, mesmo em reuniões religiosas, quando observava Nóbrega, não haveria no país inteiro, fazenda que chegasse para todos. Mais ainda por aceitarem nas procissões e cerimônias não litúrgicas, cantos e danças selvagens. Escandalizou-se ainda mais com o fato de permitirem os jesuítas que as suas visitas às aldeias indígenas fossem feitas, com a cruz alçada, mas cantando os meninos e tocando à moda dos índios “com os seus mesmos sons e cantares, mudados as palavras em louvor a Deus”. Os índios “folgavam muito e vinham ao nosso tanger a cantar e bailar”, dizia Nóbrega. Impugnou asperamente a catequese através das crianças, mortificando em extremo o Pe. Nóbrega, que tinha posto nisso todas as suas esperanças. Repreendeu, até certo ponto, os inacianos por admitirem a confissão por meio de intérpretes, mas baseado no pressuposto que deveriam os índios fazê-lo em português, “porque enquanto o não falarem, não deixam
Sem levar em conta a assimilação pela igreja de tantos ritos pagãos, dando-lhes um sentido sublime, opôs-se tenazmente a qualquer concessão nos hábitos puramente europeus da época. Profundamente racista ao que parece, não concebia sua missão apostólica senão perante os europeus imigrados e nunca perante os selvagens. Segundo Nóbrega:
“não se tinha por seu bispo, e eles lhe pareciam incapazes de toda doutrina, por sua bruteza e bestialidade, nem as tinha por ovelhas de seu curral, nem que Cristo Nosso Senhor se dignaria de as ter por tais”. (Nacib, 2003: 70)
Nem mesmo as missões volantes nas aldeias permitiu que fossem mantidas, pois “não gostava de capelas e casas de meninos entre os índios”. (Nacib, 2003: 70).
Com essa mentalidade não admira que o bispo quebrasse a resistência dos jesuítas em admitirem como legítima a escravidão dos selvagens. Segundo ele, seria “lícito fazer guerra a este gentio e cativá-lo, hoc nomine et titulo, que não guarda a lei da natura por todas as vias”. (Nacib, 2003: 70).
Ninguém, portanto, mais afastado da conduta defendida por Bartolomé de Las Casas, e até mesmo das determinações pontifícias, especialmente do Papa Paulo III que em sua bula Veritas ipsa, (1537), declarara ilícita a privação dos direitos humanos dos selvagens, todos remidos pelo sangue de Cristo. (Holanda, 2003:70-71).
Nesse conflito portou-se o Pe. Nóbrega com alto espírito de disciplina. Feitos os protestos perante os superiores e esclarecidas as autoridades régias, preferiu retirar-se da Bahia e dirigir-se a São Vicente, onde o chamavam não menos importantes interesses da sua empresa espiritual. Nunca mais se encontraria com o seu digno oponente, porque, ao voltar do Sul, já o bispo tinha sofrido a terrível morte, que bem pode ser tomada como um martírio. Voltaram mais tarde, os jesuítas a desenvolver amplamente sua ação missionária, mas nunca mais nas bases da larga tolerância para com os costumes indígenas com que a haviam iniciado.
O conflito entre o bispo e o Governador teve aspectos bem graves e até trágicos. Os motivos foram, porém, de natureza bem menos elevada as queixas, de parte a parte, acumulavam-se na Corte. O rei terminou por convocar o bispo, o que não deixou de constituir uma vitória parcial de Don Duarte da Costa. Com o naufrágio e posterior matança canibalesca dos refugiados, encerrou-se tragicamente a primeira luta no Brasil em torno do papel da igreja. (Holanda,2003:70,71).
Daremos continuidade a questão catequética dos jesuítas no próximo capítulo quando abordarmos o relato do Pe. Manoel da Nóbrega.
2.3 - Aspectos da Religiosidade no Brasil Colonial
Baseado no livro de Laura de Mello e Souza, “O Diabo e a Terra de
Santa Cruz” (1986), abordarei alguns acontecimentos que retratam, a
espiritualidade do povo brasileiro no início da colonização. A religião forneceu os mecanismos ideológicos justificativos da Conquista da América (do Brasil) encobrindo e escamoteando as atrocidades cometidas em nome da fé. Como já foi colocado, existem poucos trabalhos sobre o mundo complexo da religiosidade brasileira. Nunca é demais lembrar que o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna caracterizaram-se por uma religiosidade profunda,