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24 Já em nossa Dissertação de mestrado26, detectamos que diversos aspectos da

profissão de bancário, em termos genéricos e específicos, foram transformados. As qualificações outrora existentes como pré-requisitos para o bancário são transformadas e outras desapareceram. Surgem, como padrão dominante, exigências de cunho mercadológico, como a aptidão para venda de produtos e serviços bancários, mudando o perfil ocupacional dos trabalhadores do Banco. A própria ―qualificação-desqualificante‖, imanente aos processos de reestruturação nos circuitos da automação, permite a contratação quase indiscriminada de outros trabalhadores alheios ao setor, via processos de terceirização. Cabe que estes processos de fragmnetação-simplificação-terceirização, a partir da substituição do ―trabalho vivo‖ pelo ―trabalho morto‖, via automação, indicam riscos elevados para o trabalhador bancário, destacando-se a própria perda do domínio do processo de trabalho, transferido para segmentos da área tecnológica e terceirizados.

Na ocasião, percebemos que estas mudanças substanciais no universo do trabalho dos bancos vêm implicando a perda da coesão intrafirma entre os bancários, agora, ―reféns‖ de intensas jornadas de trabalho, parecendo revelar um dado preocupante do ponto de vista sindical. Dessa maneira, o processo de incremento tecnológico, permitindo e influenciando uma fragmentação do saber e uma simplificação do trabalho bancário, além de representar inquestionáveis vantagens para o capital, confere riscos para o trabalhador, como o possível comprometimento dos circuitos de solidarismo, construídos dentro das instituições bancárias. Vale ressaltar que esta cooperação interna entre funcionários, no caso do Banco do Brasil, é percebida secularmente. Em raras ocasiões, deu-se um hiato tão significativo, para renovação de quadros dentro do Banco, como o presenciado a partir do final dos anos noventa do século passado.

Em 2007, ingressei na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) como aluno especial da disciplina Estado e Sociedade, ministrada pelo Prof. Gabriel Vitullo. Sob influência das novas leituras no âmbito da disciplina (Rosanvallon, Tillly,

26Optamos em realizar o presente percurso a partir do encerramento de nossa pesquisa de mestrado apresentada em setembro de 2004 na Universidade Federal do Ceará (UFC). O leitor que desejar conferir o processo de aproximações sucessivas desde o curso de graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual do Ceará (UECE) até a dissertação de mestrado intitulada ―A Simplificação do Trabalho e a Fragmentação do Saber na Nova Ordem do Capital: A Experiência do Banco do Brasil‖ poderá encontrar esse relato no próprio texto dissertativo disponível na biblioteca do Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFC.

25 Przeworski, Castel, Friedmam, Gramsci, Lenin, Luxemburgo, Poulantzas, Sartori, Habermans, Paoli, Borón, Antunes, Kurz, Hardt e Negri), nossos eixos temáticos pensados para o projeto de doutorado começaram a tomar novos contornos. Em meio aos debates semanais com a turma na disciplina retro, fui provocado a repensar os elementos fundantes das metamorfoses da intervenção social da iniciativa privada em meio às inovações do estado capitalista na contemporaneidade. E, inspirados nas discussões teóricas, fomos nos aproximando, sempre mais, da questão do protagonismo dos programas de responsabilidade social das empresas, em termos de uma trincheira ideológica assumida, inclusive, no setor bancário. As reflexões me remeteram à chave explicativa das mudanças de atuação do Banco do Brasil em suas ações sociais a partir dos anos noventa do século passado. Assim, foi se impondo como exigência investigativa a discussão das conseqüências desta nova postura do Banco na esfera do trabalho bancário. De início, relutei em assumir esse desafio analítico numa tese de doutorado, pensando em trabalhá-lo num possível artigo para publicação científica. No entanto, o progresso das discussões com os colegas e, sobretudo, com o Professor da disciplina, convenceu-me que era deveras recorrente a temática da ―responsabilidade socioempresarial ‖ no curso de nosso raciocínio crítico. O argumento que sustentava tal tendência era que o enfoque na ―responsabilidade socioempresarial no setor bancário‖ daria um fecundo direcionamento ao eixo central do projeto cuja finalidade era resgatar a sociologia como desveladora do complexo ideológico que tenta obscurecer a incompatibilidade entre a reprodução do capital e a satisfação das necessidades humanas.

Finalizada a disciplina Estado e Sociedade, o Prof. Gabriel Vitullo aceitou ser meu orientador nesse desafio de investigação científica, esclarecendo que o desenvolvimento de tal pesquisa sobre ―responsabilidade socioempresarial no setor bancário‖ não prejudicaria a retomada da temática inerente ao ―trabalho‖ numa potencial tese de doutorado. Compreendia, ele, noutro sentido, que o estudo desta categoria constituía condição básica para o entendimento das mudanças no mundo bancário, sendo, de fato, este segmento profissional um dos mais violentamente atingidos pela automação, portanto, uma categoria vulnerável aos programas de intervenção social nos termos orquestrados pela iniciativa privada.

Vale ressaltar, que, no meio dessas discussões sobre os novos rumos da pesquisa, elaboramos um projeto de pesquisa incipiente. Nele incorporei as fecundas

26 sugestões do Professor Gabriel. Concorri, então, em 2008.1, à seleção do Programa de Pós- Graduação em Ciências Sociais da UFRN, logrando aprovação. No âmbito do Banco do Brasil, participei de um recrutamento interno que visava a liberação de bolsas nas modalidades de mestrado e doutorado. Os selecionados teriam o apoio à pesquisa com liberação parcial do trabalho e outros incentivos institucionais. Para minha grata surpresa, fui aprovado. No entanto, a ―banca‖ de seleção propôs que, dentre as nossas discussões na tese, incluíssemos algo em torno das diferentes visões dos bancários acerca do projeto de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) levado a cabo pelo Banco do Brasil e de sua postura de Responsabilidade Socioambiental. O que me caiu como uma luva, vez que esse era justamente o foco central pensado para a nossa a pesquisa.

Realizadas estas preliminares considerações, faz-se mister expor os principais eixos temáticos, em que ora recaem os esforços analíticos e sob os quais brotam os problemas teóricos desenvolvidos na tese ora apresentada. Podemos considerar, enquanto nossa preocupação analítica básica, no próprio sentido dado à reestruturação bancária na esfera do Banco do Brasil que desencadeou na gestação dos programas de Responsabilidade Socioambiental da instituição, sobretudo, a partir do final dos anos noventa do século passado. Nesta perspectiva, parece crucial investigar as mediações dessa reestruturação com o processo global de acumulação flexível, impulsionada a partir da substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto, tanto na esfera do capital produtivo, como no segmento financeiro.

Incorporando os fatores acima abordados e ainda incluindo os componentes da dimensão política, identificamos a hipótese norteadora - que alicerça as problematizações do nosso objeto de estudo – qual seja, que as ações sociais desenvolvidas pelo setor bancário oficial integram o rol das estratégias potencializadoras de dominação do capital. Isso porque seguem os modelos irradiados a partir das experiências da iniciativa privada, cujo parâmetro é conferir substância à hegemonia da reprodução do metabolismo do capital, perseguindo um consenso social acerca da ―missão‖ do empresariado engajado na satisfação das necessidades humanas pela via dos programas de ―responsabilidade social‖. Assim, busca-se resgatar o papel central da empresa capitalista como ator imprescindível na promoção do ―desenvolvimento sustentável‖. Com efeito, tal postura assumida pelo discurso da ―responsabilidade socioempresarial ‖ tenta vulnerabilizar o papel do Estado

27 como gestor das políticas públicas, bem como secundarizar a ação dos movimentos sociais como peças-chave na articulação política dos segmentos mais precarizados pela heteronomia do sociometabolismo do capital. A empresa, nesse arcabouço ideológico, deve assumir a regência das iniciativas atinentes à ―concertação social‖, em face de encarnar em si o ―ethos‖ da eficiência gerencial, elemento, segundo a visão predominante da iniciativa privada, raro nas políticas sociais gestadas pelo poder público. Daí, a constatação segundo a qual o Estado (sozinho) é incapaz de minimizar as iniqüidades geradas na ordem capitalista.

De fato, no transcurso das mediações acerca do processo de reestruturação bancária no âmbito do Banco do Brasil, surge um significativo número de questões carentes de uma análise mais apurada. A partir dos desdobramentos remontados pela tessitura analítica entre os dados empíricos e as categorias teóricas, objetivando trilhar do real caótico para o concreto pensado, surgem pelo menos duas perspectivas de análises que não podem ser desprezadas: i) o sentido político-ideológico da identidade do funcionalismo do Banco, a partir da percepção do ideário de ―Responsabilidade Socioambiental‖ assumido pela instituição e que possíveis conseqüências essa postura pode aportar na cultura institucional do Banco; e ii ) e em que consiste o projeto de Desenvolvimento Regional Sustentável do BB, ou seja, quais são seus pressupostos, seus limites e suas perspectivas para as comunidades assistidas. Com efeito, tal esforço investigativo poderá oferecer pistas sobre como é tratada hodiernamente a ―questão social‖ no âmbito de uma empresa de economia mista de controle estatal. Talvez, confirmando a hipótese assumida nesta pesquisa, segundo a qual o ―social‖ na esfera das instituições financeiras públicas é tratado à luz da mesma lógica que permeia o discurso da ―responsabilidade socioempresarial ‖ peculiar ao setor privado, inclusive, no que diz respeito aos seus pressupostos ideológicos de legitimação social (valores, crenças e distinções), bem como às estratégias de retorno aos investimentos alocados nas iniciativas sociais a partir do ganho de imagem da instituição junto aos consumidores/clientes via marketing social27.

27No circuito empresarial, o retorno de imagem ao qual nos referimos é comumente conhecido como ―valor agregado à marca‖. De fato, na esfera da Economia Política ―agregar valor‖ diz respeito ao processo de incremento de valor incorporado ao trabalho morto.Po outro lado, a crescente tendência da extração da mais- valia relativa, em meio à dinâmica de subsunção real do trabalho vivo ao capital. Portanto, no nosso entendimento, a utilização indiscriminada da categoria ―valor‖ encarna, para além de um viés meramente de imprecisão teórico-conceitual, uma estratégia de embotamento de seu conteúdo crítico imanente ancorado

28 Neste sentido, nos desdobramentos das abordagens acerca do fenômeno da reestruturação bancária, surgem algumas indagações sobre as quais pretendemos nos debruçar no decorrer dos capítulos desta tese, dentre elas: Qual a particularidade da reestruturação bancária do Banco do Brasil enquanto parte de uma reestruturação produtiva mais geral? O que hoje significa ser um funcionário de um banco oficial e tradicional como o Banco do Brasil? Qual o sentido atribuído pelos funcionários do Banco às estratégias do programas de Responsabilidade Socioambiental da instituição? Quais são os limites e as perspectivas do programa de Desenvolvimento Regional Sustentável do Banco do Brasil? Quais as qualificações consideradas cruciais para a formação do ―novo‖ bancário, ao mesmo tempo ―vendedor‖ e preocupado com o desenvolvimento sustentável das comunidades em que atua? Em que medida o poder de barganha do movimento sindical bancário é afetado, ante essas novas determinações?

Assim, nas redefinições do objeto, nossa investigação tem como eixo identificar e analisar as dimensões e os impactos sociais do macro-projeto de ―responsabilidade socioempresarial no setor financeiro‖, tomando como banco-chave o Banco do Brasil S.A. Nesta direção, estaremos centrando nossa abordagem no fenômeno do Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) do BB no Rio Grande do Norte e nas iniciativas levadas a cabo pela Divisão de Cidadania Empresarial do Banco em Brasília (DF). O campo empírico da pesquisa será composto, basicamente, pela Gerência de DRS do BB (RN), pelas agências dessa instituição em Natal (RN) e pela Direção Geral do Banco em Brasília (DF), inclusive, nos termos já abordados no item 3 desta Introdução.

Poderíamos, ainda, mencionar alguns dos passos necessários para realização do processo da pesquisa. Neste sentido, seguem enumerados, determinados percursos considerados fundantes:

1. Fazer um enquadramento sociológico da reestruturação bancária do Banco do Brasil, relacionando-a ao processo mais amplo da reestruturação produtiva em resposta à crise estrutural do capital.

nas análises de Marx e de outros seus predecessores. Tal tentativa de esvaziamento ideológico e de

vulgarização das categorias ocorre similarmente em vários outros casos, inclusive, com o conceito de ―sociedade civil‖ sobre o qual nos deteremos adiante.

29 2. Realizar um estudo das atuais iniciativas de Responsabilidade Socioambiental do Banco do Brasil, gestadas na Unidade de Desenvolvimento Sustentável da instituição, pontuando as diferenciações e similaridades com as intervenções sociais operadas a partir do ideário da ―responsabilidade socioempresarial ‖ exercidas no âmbito do setor privado.

3. Configurar o padrão de trabalho bancário no Banco do Brasil, considerando atribuições tradicionais e atribuições recentes, buscando delimitar as alterações no perfil profissional a partir da difusão dos princípios de Responsabilidade Socioambiental na cultura institucional da empresa;

4. Desenvolver trabalho de campo por meio de entrevistas com vários segmentos de funcionários do Banco, de diferentes áreas e cargos, buscando pontuar as diferenças inerentes ao processo de trabalho, bem como, demarcar os distintos olhares do funcionalismo, ontem e hoje, no que concerne à atuação social do Banco.

5. Obter informações atualizadas sobre o projeto de Desenvolvimento Regional Sustentável do Banco do Brasil, entrevistando os analistas da Unidade de Desenvolvimento Sustentável do Banco em Brasília (DF) e da Superintendência Estadual do BB no RN, bem como de pesquisa documental, junto ao material produzido pelo próprio Banco;

6. Construir um estudo acerca da controvérsia causada pelas ações de intervenção social voltadas para o público interno e externo do Banco - tendo como parâmetro os programas desenvolvidos na Divisão de Cidadania Empresarial do BB– consultando, sobretudo, os agentes envolvidos no processo: o bancário ―veterano‖, o bancário ―recente‖, o gerente executivo da Direção Geral, o gerente de agência e os analistas responsáveis pela condução hodierna de tais iniciativas sociais na esfera da Direção Geral da instituição.

Benzer Belgeler