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Quinze edições da coluna Painel do Leitor compõem o corpus desta dissertação, sendo que em sete veiculam 17 notas em resposta a esse texto de Gullar. Três delas são divulgadas já no dia seguinte ao artigo e todas são identificadas pelo intertítulo “Hospital Psiquiátrico”.

Pérola Soares Zambrana (SP), parabeniza o poeta e afirma que “Quem não conhece o problema de ter em casa uma pessoa com problemas mentais não faz ideia de como essa pessoa, sem querer, transforma a vida de uma família inteira e causa um sofrimento indescritível” (PAINEL DO..., 2009d), o que também reitera o estudo da ABRE em parceria com o Proesq. Ela defende a existência de casas de acolhimentos para portadores de transtornos mentais, uma vez que a sua manutenção no seio familiar é dificílima também para outros irmãos que acabam relegados por falta de tempo.

A psicanalista Thais Garrafa, por sua vez, classifica o artigo como lamentável, por reunir, segundo ela, uma série de informações equivocadas sobre os avanços nas políticas de atenção às pessoas com sofrimento psíquico intenso. Ela afirma que a lei não propõe o fim das internações, mas que ela só é indicada quando cessam os recursos em meio aberto e o que Gullar refere-se como “campanha” é um “conjunto amplo de pesquisas científicas, práticas interprofissionais e discussões consistentes no âmbito das políticas de saúde e de inclusão social." (PAINEL DO..., 2009d).

Já o psiquiatra e doutor em saúde mental Marcos Aurélio Martins Ribeiro, corrige Gullar sobre o uso de alguns medicamentos por ele citados, porém, afirma que isso em nada diminui a relevância do tema abordado, uma vez que as políticas atuais de saúde mental resultaram na desassistência progressiva ao doente mental.

No dia 14, a coluna veicula outras quatro notas em resposta ao poeta. A psicóloga Nina Cardoso afirma que o artigo merece palmas, uma vez que ela também não entende o porquê da desarticulação do tratamento público de saúde mental. Segundo ela, o destino de portadores cuja família não tem condições de colocá-los numa clínica particular, são as sarjetas ou manicômios judiciários após cometerem crimes.

Familiar de um portador, Jerson dos Santos considera o artigo excelente e afirma: “Como irmão de esquizofrênico, conheço bem a realidade dos doentes mentais, que muitas vezes necessitam, sim, de internação para que se evitem homicídios e suicídios. O fechamento dos manicômios é um ato de crueldade, principalmente com os pacientes mais humildes.” (PAINEL DO..., 2009e).

Por outro lado, o presidente do Conselho Federal de Psiquiatria de Brasília, Humberto Verona afirma que o conselho manifesta-se favoravelmente à lei:

Muito mais que ‘demagogia’, como escreveu Ferreira Gullar, a lei 10.216/01 representa enorme avanço em relação à política de isolamento que há séculos o Brasil dispensa aos portadores de sofrimento mental. O movimento de luta antimanicomial, que inclui profissionais que atuam diariamente com saúde mental, considera que a loucura pode e deve ter o seu lugar no mundo, que as subjetividades individuais contribuem na construção do todo social e que a aceitação das diferenças, sejam elas quais forem, faz parte do ideal de democracia da nossa sociedade. A luta antimanicomial, fundamentada no oferecimento de direitos de cidadania e de convivência social aos portadores de transtornos mentais, é um desafio epistemológico para as ciências da saúde, contra o qual muitos segmentos se colocam contrariamente, afirmando imediatismos mercadológicos, farmacológicos e de encarceramento como caminho. (PAINEL DO..., 2009e)

Porém, é importante frisar que ao mesmo tempo em que fala em cidadania, igualdade e exclusão, ele reforça a imagem que resume todos os transtornos mentais em loucura, representação que melhor ilustra o estigma e a exclusão social. Por isso, diante de tal constatação, questiona-se que conceito de cidadania é esse a que Verona e tantos outros especialistas referem-se? Como discursar a respeito de inclusão e igualdade, se os transtornos ainda são descritos como sinônimos de loucura e seus portadores, consequentemente, continuam vistos como os loucos, os alienados e irracionais? Talvez tão demagogos quanto a lei sejam os argumentos de quem para defendê-la subestima a opinião dos maiores

interessados em uma solução para a questão do tratamento das doenças mentais, seus próprios personagens.

No mesmo dia da declaração de Verona, o doutor em psiquiatria Luís Fernando Tófoli também critica Gullar, ao dizer que há pessoas satisfeitas com a nova lei e que ao invés de pedir sua revogação, o poeta deveria reivindicar a expansão dos bons atendimentos.

No dia 15, outras cinco notas se referiam à polêmica dos “Hospitais Psiquiátricos”. O psiquiatra Luís Fernando de Araújo elogia o texto e a discussão proposta pelo poeta. Já a professora do IPq/USP e membro da Associação Brasileira de Saúde Mental Lianni Regia Scarcelli critica o poeta e afirma que ele, enquanto pessoa pública, aderiu a uma causa sem conhecer profundamente as discussões científicas por ela suscitadas.

Já a defensora pública Maria Fernanda Maglia afirma que a “lei acerta em cheio ao introduzir um novo olhar sobre a loucura. Um olhar humanizado, que concebe o sujeito portador de sofrimento mental não mais como mero objeto de tutela, mas como sujeito de direitos. É o conceito de cidadania introduzido à loucura” (PAINEL DO..., 2009f), uma vez que “Ao repudiar as instituições totais como o principal tratamento da loucura, a lei agrega à sociedade o portador de sofrimento mental, possibilitando o exercício das diferenças na vida social, justamente o que se espera de um Estado democrático de Direito.” Assim como Verona, a defensora pública fala em cidadania reforçando a visão de transtornos mentais como loucura. Por isso, a seu discurso também cabem os questionamentos e reflexões proferidos à fala do presidente do Conselho Federal de Psiquiatria.

Pai de um jovem de 21 anos que vem de surto psicótico diagnosticado como esquizofrenia, o carioca Luiz Antônio de Souza, manifesta-se favoravelmente ao artigo e contou que: “por total incapacidade de controle e de ação, me vi obrigado a interná-lo. Não o fiz por recreação nem para me livrar do ‘problema’. Não foi essa minha intenção. Queria tão somente tratá-lo -e, por que não dizer?, me tratar, pois desconhecia até aquele momento o que era” (PAINEL DO..., 2009f).

Por fim, a psiquiatra que trabalha em um hospital público Margareth Rahmé afirma que Gullar mostra ter conhecimento de causa e elogia seu artigo.

No dia seguinte, outros dois leitores manifestam-se sobre o tema, o presidente do hospital psiquiátrico Allan Kardec, de Franca/SP, parabeniza Gullar por ter provocado essa discussão pública sobre a questão dos doentes mentais. Já o estudante de psicologia Daniel Lomonaco, que se diz envolvido há anos nesses emaranhados que é a “questão da loucura”, critica-o por questionar a lei, ainda que tenha confessado que ela não trouxe “grandes avanças nos cuidados ao dito ‘louco’” (PAINEL DO..., 2009g, grifo nosso).

No dia 17, a discussão tornou-se notícias da editoria Cotidiano, e continuou motivando manifestações dos leitores, a partir da opinião da vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, Maria Ermínio Aliberti, que acusa o poeta de estar em defesa do lucro dos hospitais privados e da indústria farmacêutica. Ela afirma que a lei acabou com antigos matadouros e o tratamento humanizado só desagradou quem lucrava com a doença.

Um dia depois, a mestre em psicologia Paula Fonseca também mostra indignação com o texto de Gullar e afirma que o modelo brasileiro não é uma “campanha contra a internação de doentes mentais, mas uma proposta amplamente discutida”. (PAINEL DO..., 2009i)

Quatro dias após a nota de Aliberti, o tema volta à coluna com a opinião de Erasmo França, de São Paulo. “Tendo cuidado durante quase 30 anos de um irmão esquizofrênico, quero manifestar meu total apoio ao texto corajoso e lúcido de Ferreira Gullar, bem como minha integral solidariedade ao grande poeta” (PAINEL DO..., 2009j). Em resposta às críticas recebidas, ele, familiar de um portador de esquizofrenia, afirma que quem alega que Gullar está defendendo clínicas particulares é porque “nunca sentiu esse problema na pele.”

Portanto, a coluna Painel do Leitor é dividida em opiniões favoráveis e contrárias ao artigo do poeta e permite afirmar que Gullar teve êxito em sua empreitada, uma vez que inseriu a questão dos transtornos mentais na pauta de discussões do público e do jornal.

A respeito da coluna Painel do Leitor, algumas características são marcantes como a tendência dos especialistas em saúde em posicionar-se contra o artigo, alegando que o poeta não conhece a profunda discussão científica que marcou a implementação da lei ou não teria

know-how suficiente para posicionar-se sobre tal tema por não pertencer ao meio acadêmico e

de saúde. Ou ainda, o fato de que todas as pessoas que têm familiares com transtornos mentais terem se manifestado em defesa de Gullar, aproveitando o ensejo para contar suas histórias, dramas e medos, o que só foi possível após o incentivo do poeta. Por fim, nota-se que até mesmo os especialistas, que se declaram mais aptos a discorrer sobre o tema, por muitas vezes usam termos como loucura, louco ou esquizofrênico. Expressões populares e estigmatizadas, que por seu próprio processo de construção e significados sociais vão de encontro ao conceito de cidadania, e eles, do alto de seu pedestal de autoridade, deveriam negar, mas utilizam seja para fazer-se compreender ou por tê-los como parte de sua bagagem cultural.

Benzer Belgeler