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Quarto encontro, realizado em 15/03/2004 – D-E unidades 1, 2 e 3

Mathias requisita muito a caixa lúdica. No momento em que não a vê, procura-a pela sala e se altera. A pesquisadora, mesmo tendo avisado no encontro anterior, informa novamente que ele fará alguns desenhos e, caso haja tempo, ela lhe entregará a caixa no final do encontro.

1 D-E

Durante a confecção de sua produção, Mathias verbaliza, de forma seqüencial, sobre os materiais da caixa e requisita-os em quantidades, como nos encontros anteriores. “O que você está desenhando?” “Um homem... É a linha... Você trouxe barbante?” “Trouxe, mas continue o desenho”. Pausa139.

“É linha”. “Que linha?” “Hoje tem outro barbante lá no saquinho?” “Tem, mas vamos continuar o desenho... E agora, o que está fazendo?” “Um desenho mais bonito”. “E o que é?” “É linha... Tô fazendo uma casinha”. “Mostre no desenho onde está a casinha”. “Eu terminei”. “Agora Mathias, conte-me uma história sobre este desenho que você fez”. “Não, não vô fazê mais”. “Mas, então conte uma história sobre este que você fez”.

História: O desenho.

“Era uma linha grande”. Pausa. “O que esta linha faz?” “É uma casinha”. “Alguém mora nesta casinha?” “Eu”. “Você”. “Não... Eu não”. “Quem mora?” “Só eu”. Pausa. “A casinha é feia”. “Por que a casinha é feia?” “Porque sim”. “O que ela tem que a deixa feia?” Pausa. “É bonita a casinha”. “Tem alguém dentro dela?” Mathias não responde e pergunta sobre os materiais da caixa, a pesquisadora responde e retorna à história, questionando se há alguém próximo à casa. “O tio”. “Que tio?”: “O tio vai trabaiá com nóis”... “Aqui... E você também”. “E como está a casinha: alegre, triste?” Pausa. “Tem gente aí na casinha?” “Tem”. “Quem?” “O tio”. “Como se chama o tio?” “Tio E.”140.

“Tem mais alguém?” “A tia”. “A tia que é casada com o tio E.?” “É”. “A casinha está precisando de alguma coisa?” Pausa... “Como se chama a

139 A pesquisadora pergunta para Mathias sobre um hematoma que ele tem na testa. Mathias comenta sobre uma briga entre ele e outro menino do abrigo, o qual já havia brigado com ele na semana anterior.

história?” “O desenho”. “E o desenho, como se chama?” “O desenho mais bonito”. “Você é bonita... Você é bonita”. “Obrigada, Mathias”. Pausa. “O que está fazendo, Mathias?” “A porta”141.

Análise da unidade de produção 1

A atividade dirigida desperta angústia na criança, o que possivelmente contribuiu para o empobrecimento de sua produção, tanto quanto ao rendimento como também em nível simbólico. A criança comunica angústia quanto às situações futuras. Promove a dissociação diante de aspectos bons e ruins. A criança comunica a identificação com aspectos ruins, em que angústias são despertadas, exibindo reações defensivas, com a presença de aspectos bons e idealizados, dos quais se exclui. Mathias manifesta a tentativa de se aproximar do contato com a pesquisadora.

Unidade de Produção 2

2 D-E

“O que está fazendo?” “É a linha bonita... Não, uma casa... Depois você vai pegá a caixa?” “Vou, depois. O que é isto?” “É uma casinha”. “E como é esta casinha?” “É feliz... Terminei”. “Agora, conte-me uma história deste desenho”. História

“Eles tinham um púfi”. “O que é púfi?” “É uma casinha... Não, uma casinha bonita”. “Quem são eles?” Pausa. “O que vai acontecer com essa casinha?” “Tinha um bicho... O dinossauro vai pegá”. “O que é que o dinossauro irá

141 A criança inclui a “porta” no desenho. Enquanto desenha, Mathias pergunta à pesquisadora se ela já estava no abrigo antes de estar ali com ele, e a mesma responde que não, que chegara havia pouco tempo. A criança perguntou se ela estava arrumando a sala e também comentou que esperava por ela e que a viu chegar.

pegar?” “O Tarzan... Não, o macaco.” “O Tarzan ou o macaco?” “O macaco vai procurar o Tarzan”. “E o dinossauro?” “O dinossauro não, ele é feio”. “O Tarzan pegou o macaco”. “O Tarzan pegou o macaco?” “Não, o tigre... O tigre”. “Não, o Tarzan pegou o tigre”. “E aí, ele fez o quê?” “Machucô ele”. “Não, o Tarzan”. “O tigre que machucou o Tarzan”. “O que vai acontecer com o Tarzan?” “Pegá o dinossauro... O dinossauro é feio”. “E o que vai acontecer com o Tarzan?” “O Tarzan vai lá na corda dele”. “E como vai terminar esta história?” “E nóis também”. “Quem é nós?” “Na corda balançando”. “Quem?” “É nóis”. “Você e eu?” “É... Não”. “Você vai ficar sozinha aqui, pintando aqui”. “E você, irá com ele?” “É. Eu sou o filho do Tarzan... Eu sou o filho dele”. “Você gosta de ser filho dele?” “Eu gosto”. “Como a história vai acabar?” “Eu já contei”.

Análise da unidade de produção 2

A criança não apresenta continência quanto às angústias emergentes, o que caracteriza a apresentação de movimentos dispersivos. Mathias reage inicialmente diante dessa unidade de produção com a apresentação de mecanismos defensivos com aspectos idealizados, decorrentes da presença de angústias. Como o sistema defensivo apresentado não se mantém, a criança comunica seu funcionamento por meio de aspectos agressivos. Mathias reage de maneira oposicionista diante da atividade dirigida, o que sinaliza que o contato com o instrumento pode ter desencadeado intensas angústias, além do comportamento opositor diante das regras. Apresenta reações agressivas diante da incidência de limites e regras.

Unidade de Produção 3

Nessa terceira produção Mathias reage, cruza os braços e demonstra raiva. Afasta-se da pesquisadora. “Eu quero brincá... Eu não quero mais... Você é que vai pintá esse... Vai sim, vai sim! Eu vô te batê”. A pesquisadora afirma para a criança que depois ela irá brincar. A criança inicia uns rabiscos.

3 D-E

“O que é isto que você desenhou?” “Uma baleia”. “O que ela está fazendo?” “Uma baleia”. “Outra?” Pausa. Mathias joga propositalmente os lápis ao chão. “Vamos contar uma história sobre este desenho?” “Não”. Mathias levanta-se e vai até os brinquedos expostos na sala. Mesmo advertido, ignora e continua com os brinquedos. Avisa que havia terminado o desenho, que é um macaco, e logo em seguida diz ser uma baleia. Mathias, de modo agressivo, quebra as pontas dos lápis e não responde ao inquérito. A pesquisadora encerra a aplicação do procedimento e entrega-lhe a caixa lúdica e sinaliza que restam quinze minutos. Mathias solicita que coloque seu nome no desenho.

Análise da unidade de produção 3

A criança manifesta movimentos dispersivos quanto à atividade dirigida. A dispersão é apresentada como uma maneira oposicionista quanto à continuidade da atividade. A criança exibe comportamentos agressivos em oposição à atividade dirigida, como também à incidência de regras. Após a intervenção da pesquisadora, a criança comunica a dissociação e prossegue com a apresentação de comportamentos agressivos reativos, como oposição quanto às regras, limites e enquadres dirigidos. A produção da criança pode ter sido alterada pela invasão de acentuadas angústias, reagindo defensivamente por meio da oposição, com a manifestação de

comportamentos agressivos na tentativa de buscar o domínio e o controle do ambiente.

O encontro com a caixa lúdica

Mathias abre a caixa, retira o cordão de barbante amarrado com a peça de encaixe e o coloca em seu bolso. Justifica à pesquisadora que o colocou em seu bolso e que poderá ficar com o cordão até o final do encontro e também que a pesquisadora permitiu que ele o levasse com ele. “Eu? Quando?” “A tia A. deixô” (monitora). “Eu acho que o Mathias não está falando a verdade”. “Essa linha é feia... O barbante é feio... A tesoura é feia”. “Então ficou bravo comigo e com tudo também”. “Ficô”... “Cadê a tesoura?” “Você guardou ali (aponta), lembra?” “Então pega... O durex também” “O que vai fazer?” “Tá

rasgado... Eu quero pô durex”142. Mathias emenda o desenho com a fita

adesiva. “Eu vô cortá... Eu vô deixá acabá... Eu vô cortá... Cortei sozinho (sorrindo)”. O movimento se repete. A pesquisadora aguarda Mathias terminar de emendar a folha e informa sobre o término do encontro. “Esse aqui é meu, eu vô colocá no bolso” (cordão de barbante). A pesquisadora repete que não é possível levar o cordão com o brinquedo amarrado e também retoma o término do horário. “Não vou sair... Você é feia”. “É, quando você é contrariado tudo fica feio...” “Eu vô te batê”. “Então você agora quer intimidar?” “Você me empurrou!” “Você está mentindo!” “Você me empurrou sim!” “Bem, quando você não consegue o que quer, então recorre a estes meios, com mentira? Vamos guardar as coisas”. “Não”. “Então vai sair sem guardar?” “É... Quero colocá no meu bolso”. “Mas você sabe que não pode. Estará na caixa na próxima vez que vier”. “Não... não termino nada”. “Eu não vô pra fora” (Encostou-se na parede). “Bem, então eu preciso ir, depois a tia T. vem te buscar aqui”. “Não... Eu quero outro barbante”. “Bom, eu vou te dar então um outro pedaço pequeno de barbante, para ficar com você até o nosso próximo encontro”.143

142 A criança rasgou a folha da unidade de produção 3 do procedimento de desenhos-estórias que estava em cima da outra mesa e, logo após, colocou a fita adesiva para reparar. Mathias repete este movimento, rasga a folha e solicita que a pesquisadora coloque a fita adesiva sobre o rasgo.

143 A pesquisadora entregou outro cordão de barbante para a criança e sinalizou o quanto Mathias estava negando a separação com o encontro com ela. A pesquisadora compreendeu, além do domínio exercido pela criança, a possível intervenção de oferecer o cordão como simbolização do objeto transicional. Enfatiza Winnicott

Análise do encontro com a caixa lúdica

Mesmo quando a criança, por meio do contato com a caixa lúdica, parece que alcançou a continência quanto às angústias despertadas, busca a satisfação de seus impulsos se utilizando do movimento de faltar com a verdade (Mathias mente para ficar com o cordão). Quando a verdade é revelada pela pesquisadora, ou seja, quando promove a quebra de seu funcionamento, Mathias reage agressivamente. A criança comunica a tentativa de apresentar comportamentos reparatórios, possivelmente pela ação de aspectos agressivos emergentes. Mas não se mantém, pois novamente diante da incidência de limites e regras reage de maneira oposicionista por meio de movimentos agressivos e de falsa acusação. Esses movimentos revelam a busca, pela criança, do domínio e do controle ambiental pela evitação da quebra do sistema defensivo.

Quinto encontro, realizado em 17/03/2004 – D-E unidades 4 e 5144 Mathias estava sonolento. Diante da retomada das instruções do desenho- estória, a criança solicita a caixa lúdica. Mathias solicita outra folha além daquela que estava sobre a mesa e a coloca no lugar em que habitualmente deixa a caixa lúdica, com a bolsa da pesquisadora por cima.

Unidade de Produção 4

4 D-E

(1951/2000) que o objeto transicional continua a ser necessário também ao longo da infância, como na hora de dormir ou “em momentos de solidão, ou quando surge a ameaça de um humor depressivo”.

144 Mathias estava dormindo quando chegamos para o encontro. As monitoras informaram que, curiosamente, a criança fora dormir, e ela não tem o hábito de dormir à tarde. Orientamos que não acordassem a criança, mas assim mesmo acordaram.

Mathias faz os riscos e quase ultrapassa as bordas da folha. “Tá na padaria?” “O quê?” “A caixinha”. “Não Mathias, não está na padaria. A tia deixou em outra sala, depois vamos buscá-la. O que está fazendo?” Mathias está disperso. “O homem”. “Quem é este homem?” “É o homem”. “O que ele faz?” Pausa. “Aponte com o dedo no seu desenho onde está o homem”. Pausa. “Eu acho que esse homem não quer me contar o que ele está fazendo”. Pausa. “Onde está o homem, Mathias?” “Na sua casa”. “Ele está na minha casa, o que ele está fazendo lá na minha casa?” Mathias dispersa, vai até um piano de brinquedo disponível na sala e toca por um bom tempo. “Já terminou de tocar?” “Não”. A pesquisadora orienta Mathias a vir terminar o desenho, mas a criança continua a brincar com os brinquedos da sala e afirma que a psicóloga voluntária havia permitido. Mathias traz os brinquedos para perto dele e comenta sobre o desenho. “É lição”. “É um homem ou lição?” “Lição”. A pesquisadora conversa com Mathias, mas ele se mostra indiferente. Mathias novamente toca o piano. “É, hoje você está fazendo de conta que não está me ouvindo”. “Eu quero a caixa”. “Era uma vez a lição...” (ensaia a história) “O que ela faz?” Pausa. “É o desenho”.

Não conta a história.

Análise da unidade de produção 4

A criança comunica o movimento defensivo de negação quanto às separações pela incontinência às angústias depressivas, e também a negação é apresentada diante da incidência de limites e regras, revelando os comportamentos oposicionistas. O empobrecimento apresentado quanto à simbolização de sua produção é compreendido pela ação de angústias emergentes; a criança comunica intolerância em promover o contato com os aspectos depressivos. A criança também comunica aspectos da sexualidade, possivelmente fantasias em relação à pesquisadora e ao casal que deseja adota´-la, talvez como defesa contra as angústias de perda.

Mathias senta-se, pega o lápis e menciona que está sem ponta. Risca a folha. A pesquisadora recolhe a unidade de produção anterior, mas a criança solicita que a deixe próximo a ele.

5 D-E

“O que está fazendo?” “É desenho”. “Desenho lição”. “O que vai acontecer com o desenho lição?” “Porque sim”. “O que este desenho lição está fazendo?” “Eu”. “Você entendeu quem está fazendo, mas perguntei o que vai acontecer com o desenho lição”. “Terminei”. “Conta uma história para a tia sobre o desenho”. “Era uma vez a lição...” Mathias joga a unidade de produção ao chão, não quer continuar. Encerramos a aplicação do procedimento.

Análise da unidade de produção 5

A criança apresenta comportamentos oposicionistas diante da produção da atividade dirigida, possivelmente pela incidência de angústias. Mathias utiliza comportamentos agressivos como recursos defensivos para promover a finalização da atividade dirigida e assim conquistar o domínio e o controle do ambiente, pela incontinência às angústias despertadas. Mathias também parece comunicar que compreende o que é esperado dele e tenta encerrar apresentando aspectos bons, mas reage diante da apresentação de angústias.

O encontro com a caixa lúdica

Mathias joga ansiosamente os materiais para fora da caixa. “Eu não falei que tava lá tráis” (Sorrindo, ao se referir à caixa) “Olha tia!” “Esse, esse, esse.” Mathias retira as tintas e demonstra contentamento e agitação. “Tia tem que trazê o roxo senão eu vou ficá sem”. “Sabe, Mathias, eu não sei se existe tinta

roxa, mas você está me dizendo também que gostaria de estar aqui mais vezes”. Bate com intensidade as tintas na mesa. Pega o telefone: “alô. “Alô”. “Alô”. A criança sorri quando a pesquisadora responde “alô” e, por algumas vezes, permanece nesse diálogo. Mathias menciona que “machucou” e pega o estetoscópio. Ele mesmo se examina. “Eu sou o médico. Vai tomá injeção”. Mathias retira os brinquedos da caixa e joga-os ao chão. “Você vai me dá um pedaço, tá tia?. Quando for embora?” “Eu vou te dar um pedaço de barbante. O que fez com o pedaço que eu te dei?” “Você não deu nada”.“Ah, não!” “Deu”. Mathias gagueja intensamente. Corta um cordão de barbante e solicita à pesquisadora que guarde-o com ela, e também começa a guardar os materiais na caixa lúdica. Informa que quer terminar o encontro antecipadamente e sair para o salão. Antes, Mathias solicita que a pesquisadora segure o barbante para ele cortá-lo e informa que o levará com ele. Decide cortar mais dois cordões para levar com ele e solicita ajuda da pesquisadora. Termina de guardar os materiais e comunica: “quero ir pra fora”. “Agora? Não quer ficar mais aqui? Temos tempo ainda”. “Eu quero. Não, eu quero ir pra fora. A caixa tá pesada... Guardei tudo que tava na mesa, tá tia”.“Então não quer mais brincar por hoje. Só quer o barbante?” “Então me dá”. Mathias requisita também o cordão que havia deixado com a pesquisadora e uma folha e decide sair antes do término do horário. “Você vai embora né?” “Eu vou, e você também vai, não é mesmo? Boa sorte na sua casa nova”. Mathias despede-se com um abraço e um beijo.

Análise do encontro com a caixa lúdica

A requisição da caixa lúdica pela criança provavelmente se manifesta como um continente externo às angústias emergentes. Mathias apresenta o movimento de tentativa de promover ligações e contato, mas também comunica as angústias despertadas diante da possibilidade de incidência de separações das ligações. A criança evita o despertar de angústias depressivas diante de separações, por exemplo, ao encerrar a sessão e não aguardar o encerramento pela pesquisadora. Mathias mostra afetividade e movimentos de ligação, e também nesse último encontro a criança finaliza a sessão adequadamente.

Benzer Belgeler