Como explicitado na fundamentação teórica, vários estudos têm revelado a importância do conhecimento colocacional para o desenvolvimento da fluência e proficiência do aprendiz e, consequentemente, para a aquisição de uma língua (BAHNS; ELDAW, 1993, CHI MAN-LAI; WONG PIU-YIU; WONG CHAU-PING, 1994; GRANGER, 1998; HOWARTH, 1998; LEWIS, 2000; WRAY, 2002; NESSELHAUF, 2005; WANG; SHAW, 2008; KUO, 2009; HONG, et al. 2011; LAUFER; WALDMAN, 2011; WOLTER; GYLLSTAD, 2011). Muitos deles corroboram resultados que revelam que, aprendizes de inglês têm dificuldades com as colocações. Além dos resultados e dados provenientes desses estudos, minha experiência de sala de aula tem mostrado como os alunos têm dificuldade em combinar as palavras de forma adequada, ou seja, como eles têm problemas com colocações. Muitas vezes, tenho que explicar para um aluno que, gramaticalmente, sua frase está correta,
mas que não é „bom‟ inglês, que não soa natural ou que, provavelmente, não seria encontrada
no inglês produzido por falantes nativos. Howarth (1998) aborda essa questão citando Allenton (1984) que diz que “muito frequentemente o aprendiz de língua ouve de uma falante nativo que uma determinada sentença é perfeitamente possível em inglês, mas que falantes
nativos nunca a usariam.”19
(ALLENTON 1984 p. 39 apud HOWARTH 1998, p.31, tradução nossa). Nota-se que a aprendizagem de vocabulário isolado não gera conhecimento adequado
19 Minha tradução de “So often the patient language learner is told by native speaker that a particular sentence is
perfectly good English but that native speakers would never use it” (ALLERTON 1984, p.39 apud
da língua, o que tem sido comprovado nos estudos aqui mencionados. Wray (2002, p. 143,
tradução nossa) postula que “o conhecimento de uma língua não apenas pressupõe o
conhecimento de palavras isoladas, mas também de como essas palavras se combinam.20” Diante disso, decidi investigar a produção e uso das colocações por aprendizes brasileiros. Todavia, era preciso decidir quais colocações estudar.
Percebi, então, que vários estudos da área (HOWARTH, 1998; NESSELHAUF,
2005; JUKNEVIČIEN , 2008; WANG; SHAW, 2008; LAUFER; WALDMAN, 2011;
HONG, et al. 2011) têm seu foco nas colocações verbo nominais. Segundo Nesselhaulf (2005), as colocações verbo nominais formam o núcleo comunicativo das produções, uma vez que concentram a informação principal que se deseja passar e, assim sendo, elas devem ser priorizadas em pesquisas na área e no ensino de línguas. Para Howarth (1998), há um reconhecimento geral de que os problemas que aprendizes têm em usar a língua de forma natural e correta são derivados da seleção apropriada da fraseologia da língua. Ou seja, aprendizes, muitas vezes, não têm consciência das restrições das combinações ou do caráter seletivo da língua. O autor investigou o uso de colocações verbo nominais por aprendizes não nativos e comparou os dados ao de um corpus de falantes nativos. Os resultados do estudo revelaram que os aprendizes têm dificuldade de utilizar as colocações de forma correta. Além disso, os aprendizes utilizaram colocações com uma frequência bem inferior a do nativo, o qual tem grande parte do seu discurso, escrito ou oral, composto por colocações. Howarth (1998) enfatiza que, independente da perspectiva teórica, estudiosos concordam que a competência linguística de um falante nativo tem um componente fraseológico e, aqueles que têm interesse no desenvolvimento dessa competência em uma segunda língua ou, no nosso caso, língua estrangeira, precisam compreender as dificuldades dos aprendizes que envolvem esse componente.
Assim como Howarth (1998), Altenberg e Granger (2001), Juknevičien (2008), Hong et al. (2011), Laufer e Waldman (2011) e Wang e Shaw (2008) investigaram o uso de colocações verbo nominais por aprendizes de inglês e concluíram, com base nos dados de seus estudos, que um dos maiores problemas com as colocações é devido à escolha lexical errada, causada pela falta de conhecimento das restrições da língua. Todos estes estudos destacam as dificuldades dos aprendizes com as colocações verbo nominais envolvendo verbos de alta frequência, tais como do, get, give, have, make e take, principalmente, em seu
20 Minha tradução de “Knowledge of a language not only presupposes knowledge of the individual words of
uso deslexicalizado21.
Os autores Altenberg e Granger (2001), Juknevičien (2008) e Wang e Shaw
(2008) focaram sua investigação unicamente nestes tipos de combinações e, com base nos dados de suas pesquisas, concluíram que as colocações com verbos de alta frequência em seu sentido deslexicalizado são uma potencial fonte de erros para aprendizes de inglês, pois as escolhas lexicais para compor as combinações são arbitrárias. Os autores acreditam que as restrições quanto à substituição dos elementos ou comutabilidade é o que parece causar as maiores dificuldades dos aprendizes de inglês com os padrões fraseológicos desses verbos, uma vez que os aprendizes não demonstram conhecimento ou consciência das restrições da língua. Por exemplo, no Br-ICLE, identificamos a combinação make + actions, combinação essa que constitui um desvio colocacional22. Em inglês, o substantivo actions não se combina com make. Actions geralmente é usado com o verbo take, formando a colocação take actions. O aprendiz, provavelmente, não tem consciência da restrição da combinação, isto é, ele não sabe que actions se coloca com take, mas não com make. Ou ainda, o substantivo actions não pode ser usado com qualquer verbo, pois existem restrições nas combinações.
Com base no exposto acima foi que se deu a escolha do foco desta pesquisa e assim, investigar o uso de colocações com os verbos de alta frequência, principalmente aqueles usados como verbos deslexicalizados, por aprendizes brasileiros de inglês, se mostrou relevante para o ensino e aprendizagem de línguas no Brasil. Pela extensão dos objetivos da pesquisa, optamos por estudar os verbos get, give, make e take.