Quando cheguei à casa de João, ele e sua mãe me esperavam no portão. Assim que me viram, vieram em minha direção e cumprimentamo-nos. A casa é um sobrado com grades altas e com cadeado no portão. No mesmo terreno há mais três casas, de estilos diferentes.
João e a mãe me conduziram para dentro da casa, onde estava a irmã de João, Margarida. Seu pai e seu irmão não estavam presentes.
Marta, logo de início, apresentou-me a filha “essa é a minha filha que eu te falei”. Sentamo-nos na sala, composta por um sofá de três lugares e por uma poltrona de um lugar, uma mesinha lateral sobre cujo tampo havia um porta-retrato com uma foto de João, ainda bebê, no colo de Marta, além de vários papéis. Encostado à outra parede havia um móvel que parecia ser uma camiseira com várias gavetas, sobre a qual havia uma televisão, um vídeocassete, uma gravura de um santo, um quadrinho de Jesus iluminado por uma vela, caderno e outros objetos, que davam um aspecto desarrumado àquele ambiente. O chão era de taco de madeira, sem brilho, e as paredes careciam de pintura. Em uma delas havia um quadro da Santa Ceia. Começamos a conversar e Marta me perguntou se havia sido difícil encontrar sua casa. Respondi-lhe que não, que as indicações dadas por ela ao telefone haviam sido bastante precisas. João e Margarida permaneciam quietos. Marta perguntou-me então se eu tinha conseguido falar com a escola, a que respondi negativamente, que já havia tentado por três vezes esse contato e que em nenhuma delas a coordenadora pudera me atender. Nesse momento, João nos interrompeu e disse que aquela escola era assim, que ninguém queria trabalhar, e disse que isso também acontecia com as professoras, que faltavam muito e não davam atenção aos alunos. Marta, interferindo afirmou que João poderia ter razão, mas ele também não se interessava por aprender, pois não fazia os deveres escolares. João tentou se defender das críticas da mãe, visivelmente abalado e com
o tom de voz um pouco alterado. Estabeleceu-se um diálogo um tanto duro entre mãe e filho, até o momento em que Marta, percebendo a situação constrangedora que havia sido criada, disse que ia fazer um café.
Foi para a cozinha, enquanto permaneci na sala com João e sua irmã. Perguntei a ele o que havia feito naquele dia ao que me respondeu que andara de carrinho de rolimã. Perguntei-lhe se tinha um e ele me disse que sim. Perguntei-lhe ainda, se podia mostrá-lo a mim, ao que comentou que o carrinho estava em seu quarto e que me levaria até lá se eu assim o quisesse.
João levou-me até seu quarto, o qual dividia com seus dois irmãos. Havia no local três camas e um armário. O quarto estava bastante desarrumado. Havia muita roupa sobre as camas e, espalhados pelo chão, vários objetos e material escolar.
João agachou-se e retirou, de baixo de uma das camas, seu carrinho de rolimã e mostrou-o a mim. Conversamos um pouco a respeito dele, de como era feito e depois como Marta nos chamasse, voltamos à sala, onde, sobre a mesa, havia uma bandeja com uma toalhinha, um bule de café e duas xícaras, uma travessa com biscoitos, um bolo de chocolate, pratinhos e garfos.
Marta perguntou-me se queria bolo e café, a que respondi afirmativamente, porém disse que o pedaço do bolo deveria ser bem pequeno. Serviu-nos, a mim e a João, serviu a si mesma e pediu que sua filha se servisse.
Enquanto comíamos, Margarida permaneceu calada e sua mãe então, referiu- se ao fato explicando que ela era muito quieta, que não falava nada e que era uma garota muito insegura. Isso criou nova situação constrangedora, Margarida ficou vermelha, e tive a sensação de que ia desabar em lágrimas a qualquer momento.
Tentando minimizar a situação, esclareci que algumas pessoas eram mais tímidas que outras, que algumas tinham mais facilidade para falar que outras.
Nesse momento, Marta interrompeu dizendo que rezava a Deus para que Ele pudesse dar um jeito em seus filhos. Perguntei-lhe se ela sempre acendia uma vela em frente à imagem de Cristo, ao que confirmou, dizendo que se Deus é o“cabeça da família”, ele tem de ter seu lugar nela. Perguntei-lhe ainda qual era o nome do outro santo, ao que me respondeu ser Santo Antônio.
A seguir, Marta informou que seu marido não estava em casa, pois havia aparecido um “bico” e, como ele está sem trabalho por conta de seu problema de saúde, ele aceita qualquer serviço que apareça. Quanto ao filho mais velho, comentou que ele havia saído com amigos.
João declarou então que era bom que seu irmão não estivesse em casa, pois caso contrário, os dois já teriam brigado, visto seu irmão não gostar dele.
Marta, retrucando a isso, disse que não se tratava do fato de o irmão não gostar dele, que ela acreditava que o irmão, talvez tivesse ciúme e, que, por isso, acabava brigando com ele. Perguntei a João se algum dia já havia conversado com o irmão sobre as brigas entre os dois. Ele me respondeu que isso não era possível porque seu irmão já chegava perto dele esbarrando e batendo. Insisti, dizendo-lhe tentasse conversar com seu irmão.
Nesse momento, Marta perguntou-me se eu gostaria de tomar mais café ou comer mais um pedaço de bolo. Dando-lhe uma resposta negativa, concluí que era hora de ir-me embora.
Desse modo, agradeci-lhe a hospitalidade e despedi-me.
Percebi que a família preparara-se para receber-me. Marta não apenas fez um bolo para que pudesse servir-me, como também arrumou a sala, com esse mesmo fim. Apesar de a sala e a casa de modo geral aparentarem um certo ar de
descuido e desleixo, havia uma diferença entre o modo como a primeira estava arrumada e a total desordem que reinava no quarto. A minha impressão é que a sala fora arrumada e que Marta não esperava que eu fosse ao quarto. Isso me fez pensar ser esta uma família que não dá grande importância à organização, mas que, entretanto, precisem aparentar para estranhos algo que não ocorre cotidianamente. Quanto a João, não demonstrou nenhum constrangimento em relação à desordem.
A presença do aspecto religioso é marcante, não apenas pela vela acesa em frente à imagem, mas também pelo discurso recorrente de que Deus é o “cabeça da família” e por esta razão precisa estar ali presente.
Quanto às relações familiares, pareceu-me que, tanto Marta quanto João têm uma forma similar de funcionamento e de relacionamento. Ambos denunciam o que acreditam estar errado, e com o que não concordam. Em diferentes momentos Marta criticou seus dois filhos, insensível a seus sentimentos. Ou seja, de alguma forma, denegriu os filhos em minha presença, sem considerar o que poderiam estar sentindo diante disso. Do mesmo modo, João denigre a escola, generalizando a todos professores, coordenadores etc... um padrão de comportamento profissional pouco recomendável, sem nenhuma preocupação com as conseqüências de suas acusações. De qualquer modo, é perceptível a relação forte estabelecida entre João e a mãe, tanto assim que o único porta- retrato existente na sala contém uma foto de ambos, do tempo em que João ainda era um bebê. Além disso, Marta serviu o bolo a João e não fez a mesma coisa com a filha. Esses dois episódios me fazem ainda pensar que Marta incentiva o caráter regredido de João. Eu já tinha conhecimento de tais fatos e a visita veio confirmá- los.
Quanto à Margarida, pareceu-me tímida, insegura e de pouca expressão no âmbito familiar.