É bastante preocupante e assustador o aumento do grau de intensidade a que são submetidos os trabalhadores das mais diversas atividades. Nos mais diversos setores, os trabalhadores são induzidos a exercer suas atividades laborais dentro de uma dinamicidade que, por vezes, supera os limites admitidos física e emocionalmente.
O que tem sido constatado é um aumento expressivo nos mecanismos de controle das diversas atividades laborais, sobretudo através do controle informatizado destas atividades. Desta forma, são criados indicadores de qualidade, produtividade e metas que devem ser cumpridas. Sadi Dal Rosso estabelece um conceito sobre intensidade do trabalho, sendo oportuno transcrevê-lo:
Por esse conceito entende-se a condição pela qual requer-se mais esforço, físico, intelectual ou emocional de quem trabalha com o objetivo de produzir mais resultados, consideradas constantes a jornada, a força de trabalho empregada e as condições técnicas. A dimensão de intensidade distingue-se, pois, de outras condições como produtividade e precariedade. Sociologicamente, o significado da questão da intensidade está no fato de que não se trata de um evento individualizado e sim de uma condição geral do trabalho contemporâneo, fixada em regras e normas de conduta, em habitualidade, constituindo um padrão de organização que, portanto, independe dos desejos, das vontades e das características específicas de cada trabalhador. Como quaisquer outras condições de trabalho, o grau de intensidade de uma atividade resulta das relações que entre si estabelecem trabalhadores e empregadores. O emprego contemporâneo concentra-se
majoritariamente em atividades de serviço, o que conduziu à necessidade de uma digressão sobre materialidade e imaterialidade.8
A valorização do conhecimento, manifestado e utilizado através de diversas formas pelas empresas, demonstram uma mudança no mundo do trabalho. Mudança que, cada vez mais, conduz a uma canalização de atividades nitidamente braçais para fora das grandes corporações, sobretudo através de mecanismos de terceirização. Desta forma, quem possui o maior quadro de capital humano capacitado a encontrar as soluções exigidas, domina não apenas o mercado, mas também acumula grande parte da massa do capital circulante.
O trabalho material é exercido não necessariamente empresas contratadas para a materialização das novas idéias e projetos, mas na contemporaneidade este fenômeno tem sido cada vez mais comum. O trabalho imaterial tem sido o objeto central das grandes corporações. Sadi Dal Rosso explica de maneira bastante didática a diferença entre trabalho matéria e trabalho imaterial. Distingue então o autor que:
Nos serviços baseados na materialidade, o emprego da mão-de-obra pauta- se tão integralmente no trabalho físico e corporal quanto o trabalho industrial. Assim, as atividades vinculadas à prestação de serviços pessoais como em bares, restaurantes e os serviços que os viabilizam, entre eles as cozinhas e a produção de alimentos e bebidas, equiparam-se ao trabalho industrial no sentido de sua materialidade. Os serviços com base na imaterialidade marcam diferenças significativas em relação ao trabalho industrial pelo fato de demandarem mais intensamente as capacidades intelectuais, afetivas, os aprendizados culturais herdados e transmitidos, o cuidado individual e coletivo. A intensidade em tais serviços não é adequadamente avaliada caso se expresse exclusivamente em termos corporais, físicos, materiais.9 (grifos nossos).
Infere-se do conceito supracitado que determinadas profissões possuem aspectos baseados essencialmente na imaterialidade. É possível ilustrar o conceito de trabalho imaterial quando analisamos o labor de uma enfermeira que atua na área assistencial. O grau de intensidade do trabalho deste profissional não é medido apenas pela quantidade de procedimentos diários que devem ser executados, como a colocação de sondas ou análise de prontuários médicos. O desgaste maior ocorre na relação interpessoal com os pacientes e demais profissionais da área de saúde, pois tais relações são expressas através do
8 ROSSO, Sadi Dal. Mais Trabalho!: A Intensificação do Labor na Sociedade do Contemporânea. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 42-43
conhecimento adquirido e manifestadas através do apoio psicológico ao paciente e da elaboração conjunta de estratégias de tratamento com os demais membros da área de saúde da unidade de saúde.
Analisando-se sobre um contexto global, o trabalho material tem sido na contemporaneidade desvalorizado e delegado a empresas menores, ficando a cargo das grandes corporações a criação e o desenvolvimento de novos produtos que levaram seu nome e, conseqüentemente acumularão a maior parte do capital. Esse fenômeno foi descrito por André Gorz através dos seguintes dados e exemplos:
Uma proporção rapidamente crescente de firmas prefere alugar seu capital fixo material (prédios, instalações, máquinas, meios de transporte) a ser proprietária dessas coisas. “Use it, don’t own it”, é o lema. Nos Estados Unidos, um terço das máquinas, das instalações e dos meios de transporte, é alugado. 80% das empresas alugam sua infra-estrutura a duas mil agências especializadas. Um terço das indústrias terceirizou mais da metade das suas atividades de produção. IBM e Compaq, as duas líderes de seu ramo, contrataram a mesma firma, Ingram, para a construção, entrega e a fatura de seus computadores. Nike não possui nem instalações, nem máquinas: sua atividade se limita à concepção e ao design. A fabricação, a distribuição, o marketing e a publicidade são confiados a empresas contratadas para tal.10
5.2.1 A intensidade do trabalho no setor de telecomunicações
O objetivo deste tópico é mostrar através de um exemplo prático, como os mecanismos de intensidade do trabalho manifestam-se na contemporaneidade. Para tanto, é conveniente analisar os resultados sobre intensificação do trabalho presente na obra de Sadi Dal Rosso no setor de telecomunicações. Convém observar que o autor faz uma análise completa acerca da intensificação do trabalho também nas atividades bancárias e financeiras, de supermercados, de ensino privado, de construção civil e de serviço público, cujos resultados são bastante semelhantes aos que serão apresentados em linhas gerais na presente dissertação.
Depois da alteração do texto constitucional resultante da Emenda Constitucional n°8, de 15 de agosto de 1995, o caminho das privatizações ficou aberto no setor de
10 Gorz, André. O Imaterial: Conhecimento, Valor e Capital. Trad.: Celso Azzan Júnior. São Paulo: Annablume, 2005, p. 38-39.
telecomunicações, fato consumado em 1998, quando, em poucas horas, todo um patrimônio construído pelo povo brasileiro ao longo de anos foi vendido a alguns poucos grupos, cuja origem, em sua maioria, era internacional.
Desta forma, os trabalhadores que antes laboravam em empresas de caráter essencialmente estatal, em meados de 1998 passaram a incorporar os quadros deste novo tipo de empresa criada pelo mecanismo ideológico neoliberal, ou seja, a empresa privada recém privatizada. Com a chegada dos executivos destas novas empresas, houve um verdadeiro choque de gestão que, por óbvio, resultou num processo de intensificação do trabalho. De acordo com a pesquisa de Sadi Dal Rosso:
A privatização do sistema repercutiu sobre os trabalhadores de diversas maneiras. Inicialmente, por demissão: houve uma redução substancial do número de empregados em telefonia e comunicação. A expansão dos serviços para empresas fez com que novos trabalhadores fossem contratados para atender a demanda, conduzindo mais tarde ao crescimento do emprego no setor. Em segundo lugar, os funcionários remanescentes passaram a trabalhar segundo a cartilha do programa de qualidade total. [...]
Os telefônicos aparecem em segundo lugar (67, 3%), em nosso levantamento no Distrito Federal, como o ramo de atividades em que os trabalhadores mais sentem os efeitos da intensidade. Em primeiro lugar, está, como já escrito, o serviço em bancos e instituições financeiras (72, 5%). Portanto, no Distrito Federal, as verdadeiras sweat-shops11 do início do século XXI seriam as instituições bancárias e financeiras, seguidas de perto das empresas de telecomunicação.12
Quando questionados sobre se o labor hoje é mais intenso que quando começou a trabalhar, 67,3% dos trabalhadores nas atividades de telefonia do Distrito Federal responderam que o trabalho tornou-se mais intenso. 38,8% responderam que trabalharam mais horas de que quando começaram a trabalhar. 34,7% afirmam acumular atividades que antes eram exercidas por mais de uma pessoa. 93,9% responderam que o ritmo e a velocidade do trabalho hoje são maiores e que administração da empresa cobra mais resultados que anteriormente.13
Não é cabível, nem mesmo é objetivo deste trabalho analisar os aspectos positivos ou negativos da privatização do setor de telecomunicações sob o aspecto macro. Porém, os dados
11 Sadi Dal Rosso conceitua sweat-shops como uma expressão que indica elevado grau de exploração e precarização das condições de trabalho. No mesmo parágrafo o autor faz referencia a Francis Green, uma vez que este estabelece a comparação de que os call centers são para a Revolução Informática o que as Sweat-shops foram para a Revolução Industrial. ROSSO, Sadi, Dal. Op. cit., p. 164.
12 ROSSO, Sadi Dal. Op. cit., p. 164.
mostram que, pelo menos para os trabalhadores do setor e, sob o aspecto da intensificação do trabalho, houve um prejuízo enorme para a classe trabalhadora.
Pelo menos no Estado do Rio Grande do Norte, houve um pequeno aumento da oferta de mão-de-obra, conforme exposto pelo autor, no curto espaço de tempo necessário para que fossem atingidas as metas de universalização estabelecidas e exigidas pela ANATEL. Em janeiro de 2001, uma empresa terceirizada foi escolhida dentre as que atuavam no ramo de construção naquele momento pela operadora, cabendo a tal empresa, por força do curto espaço para cumprimento das metas de universalização, absorver parte da mão-de-obra excedente das demais empresas terceirizadas excluídas do rol de fornecedoras de serviços da operadora.
O fato é que as metas foram atingidas ainda em 2001 e em junho de 2003, a empresa terceirizada que executou este projeto teve suas atividades encerradas por dificuldades financeiras, deixando centenas de desempregados e um enorme passivo trabalhista. Passivo este que, com o passar dos anos, coube a operadora arcar na condição de responsável subsidiária, por força da Súmula n° 331 do TST.