Enquanto via de inculcação ideológica, a Mocidade Portuguesa actuou no sentido da desmobilização política mas também, como diriam muitos dos seus adeptos, educando “politicamente”. A formação de uma consciência profundamente nacionalista, tradicionalista, católica e obediente seriam os vectores primários desta educação. Aludindo ao programa de formação nacionalista, Nobre Guedes afirmava não se tratar de (...) uma formação partidária, mas
patriótica, pela destruição de ideias falsas e construção de mentalidade esclarecida ao serviço do País e não ao serviço de homens ou de grupos.153 O espaço por excelência desta formação da
“consciência política” seria, sem dúvida, o Liceu.
3.1.1.1. O Liceu, mecanismo operativo
Embora em franco crescimento154,o universo liceal acolhia, ainda na década de trinta, uma pequena amostra da população jovem, em larga medida representativa de uma elite social a privilegiar pela Mocidade Portuguesa. Luís Viana, que estudou em pormenor a penetração da MP no Liceu e respectiva influência na alteração daquele quotidiano, verificou ser a instituição liceal, desde cedo, o espaço de actuação preferencial da organização, por (...) aí se concentrarem um
conjunto de meios, de recursos que não existiriam em nenhum outro lugar.155 Meios estes que
consistiam sobretudo na disponibilização de instalações, recursos financeiros e instrutores. Quanto a estes dois últimos, o Liceu só seria verdadeiramente pressionado a fornecê-los a partir de 1942, pela absorção das respectivas caixas escolares para os tesouros da MP e da MPF e pela necessidade de substituir os militares então mobilizados por novos instrutores.
No entanto, Viana sublinha que esta ligação entre as duas instituições (...) não terá sido,
logicamente, o resultado de uma opção política que se pretendesse simplesmente conferir à Organização um carácter educativo. Pelo contrário, segundo observa, a escolha do Liceu pela MP
tratou-se essencialmente de uma (...) escolha unilateral, decidida a nível de cúpula e transmitida
hierarquicamente aos estabelecimentos escolares, (...) [originando] no interior destes reacções diversas que tanto podem ser de entusiasmo como de indiferença ou até de hostilidade.156 De facto, nem todos os liceus deram as boas vindas à Mocidade Portuguesa quando foi anunciada a sua criação. O melhor ou pior acolhimento da organização nas escolas de ensino secundário chegou mesmo a servir de barómetro da cumplicidade entre os reitores e o regime, ainda que em muitos
153
Editorial ao Boletim - 1937, Organização Nacional Mocidade Portuguesa, Litografia Nacional do Porto, 1938, p.4.
154
O número de alunos que frequentava o ensino liceal oficial em 1930 somava os 14 970, subindo para os 19 283 em 1945. O principal crescimento destes valores evidenciou-se nas décadas posteriores à guerra, alargando este grau de ensino a uma camada social mais vasta e declinando, em parte, o carácter restritivo do acesso ao liceu, ainda muito acentuado nos anos trinta. Assim, em 1960, chegou-se ao 46 060 alunos seguindo para uma verdadeira explosão que, em 1975, atingiu os 510 889. Note-se, no entanto, que a par do ensino oficial, as escolas particulares encontraram terreno propício de implantação e crescimento durante a década de trinta. A política educativa, em particular a reforma de Carneiro Pacheco, em 1936, privilegiou o escoamento dos alunos para o ensino particular. Baseada, em larga medida, em critérios economicistas do Estado, esta política permitiu uma taxa de crescimento do privado em detrimento da escola pública, passando de 4 298 alunos em 1930, para 24 355 em 1945 e 65 761 em 1960, número que só seria menos significativo em relação ao liceu oficial na década de 70, com um crescimento até aos 101 482, cinco vezes menos do que o primeiro. Nas contas finais, o total de alunos do ensino secundário era de 19 268, em 1930; 43 638 em 1945, 111 821 em 1960 e 612 371 em 1975. A MP acabaria por privilegiar esta população alvo em função do seu rápido crescimento.
Números fornecidos pelo Anuário Estatístico de Portugal, publicados no Dicionário de História do Estado Novo (dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito), vol. I, Círculo de Leitores, Lisboa, 1996, p. 301.
155
Luís Viana, op.cit., p.55.
156
casos a MP fosse mal encarada por perturbar os trabalhos escolares normais ou afectar o poder de autoridade dos corpos directivos.157
Inserido na teia reformista desenrolada ao longo de 1936, o decreto-lei n.º 27 084158 de 14 de Outubro renovou metodologias e programas do curso liceal, salvaguardando à partida a articulação entre o Liceu e a Mocidade Portuguesa. Antes mesmo da publicação do regulamento próprio, estava reservado à organização (...) um dia de cada semana, exercícios colectivos e
marchas ao ar livre, graduados segundo o desenvolvimento físico dos alunos, e todos os anos se farão grandes demonstrações nos campos desportivos regionais e no Estádio Nacional. 159 Na verdade, algumas linhas atrás, o artigo 3.º deste diploma de Outubro de 1936 contemplava a relação de forças entre a organização de juventude e a escola secundária, repetindo a oratória de 11 de Abril: A organização nacional denominada Mocidade Portuguesa cooperará com todos os
estabelecimentos oficiais e particulares do ensino liceal, no que respeita ao desenvolvimento da capacidade física, à formação do carácter e à devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina e no culto do dever militar.
Nova prova de cooperação forçada, os programas curriculares liceais160, publicados em simultâneo com o texto da reforma, contemplavam a organização patriótica da juventude na disciplina de formação moral e cívica. Selava-se, pelo menos teoricamente, o pacto Liceu-MP, pela promessa de efectiva colaboração entre as duas instituições. Embora seleccionado como meio de acção privilegiado da Mocidade Portuguesa, o Liceu nunca seria esse aliado forte e leal que a lei determinava. Foi o caso do Liceu Alexandre Herculano, no Porto, cujo reitor, António Barbosa, seria acusado pelo sub-delegado regional de boicotar as actividades da MP, sobrepondo-lhe os horários escolares. António Barbosa, que terá mesmo defendido uma (...) pedagogia identificada
com o espírito educativo do Estado Novo,161 não se mostrou tão colaborante com a nova organização. Segundo apontava o sub-delegado, capitão Dario Tamegão, o liceu ocupava as horas
157
Ao ensaiar possíveis respostas para a reacção, muitas vezes negativa, do Liceu em relação à MP, Luís Viana propõe que o frequente choque de hierarquias terá criado sérios embaraços quando não ferido o orgulho de muitos reitores, que escapavam frequentemente ao cargo de direcção dos respectivos centros: (...) Os Reitores, por via de norma, aceitaram de mau grado a subalternização hierárquica dentro dos quadros da Mocidade Portuguesa pois como Directores de Centro estavam submetidos às ordens do Subdelegado Regional e do Delegado Provincial que não raras vezes eram, em conformidade com a legislação, militares que muitas vezes desempenhavam também funções de professores de Educação Física (...) nos próprios Liceus. O Reitor era assim, por um lado superior hierárquico do militar enquanto professor e seu subordinado no âmbito da MP (...).
Conclui assim: Talvez por isto, as interferências da Mocidade Portuguesa na esfera liceal foram, normalmente, refreadas pelos Reitores. (...).Luís Viana, op.cit., p.66.
158
Diário do Governo, I Série, n.º 241, de 14 de Outubro de 1936.
159
Ibidem.
Somava-se ainda, ao regime de boa colaboração entre a MP e o Liceu, a constituição da sede de uma delegação da MP (Centros) em cada instalação liceal, (...) a cujos serviços o reitor destinará, dentro das possibilidades, as dependências e pessoal necessários. A cantina, ao serviço do liceu, funcionaria também para a delegação da Mocidade Portuguesa.
160
Decreto n.º 27 085 publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 241, de 14 de Outubro de 1936.
161
ALVES, Luís Alberto Marques Alves, “Liceu Alexandre Herculano” in NÓVOA, António e SANTA-CLARA, Ana Teresa (coord.), «Liceus de Portugal», Edições Asa, Porto, 2003, p.614.
da Mocidade com excursões, actividades escolares e, por vezes, tarefas religiosas, que quebravam sistematicamente o curso da instrução dos filiados.162 O conflito, que se arrastou até ao ano seguinte, mereceu resposta do mesmo reitor, que assegurava manter o centro em actividade, atribuindo os incidentes declarados à errada interpretação do sub-delegado sobre os meios de articulação entre os horários do liceu e da MP, insinuando mesmo a falta de competências directivas de Dario Tamegão.163 Em Julho de 1941, o delegado regional foi informado que as actividades do centro teriam cessado, sem autorização prévia do ministério da Educação Nacional. Alguns meses mais tarde, o director-geral do Ensino Liceal, Rilley da Motta, atribuiu as causas do conflito a Dario Tamegão, dando o caso por encerrado.164 Esta crispação, provavelmente motivada por desencontros pessoais, acabou por se reflectir na vida da Mocidade Portuguesa dentro daquele liceu, à qual os relatórios anuais deixaram de fazer qualquer referência.165
Mas, se a aproximação da MP às escolas oficiais, que eram na verdade o alvo mais apetecido, se fez de movimentos ondulatórios, também o ensino particular ofereceu resistência conforme a sua natureza. À semelhança do que reflectiram as reitorias liceais, as direcções dos colégios, que gozavam de maior autonomia administrativa e educativa, desafiaram em maior ou menor escala a organização de juventude. Foram disso exemplo o Grande Colégio Universal, instituição de ensino católica, e o Colégio João de Deus, acusados de não colaborar com a organização logo no ano lectivo de 1937-1938. Em visita de inspecção à província do Douro Litoral, onde encontrara a maioria dos filiados com (...) notável aprumo e muita disciplina e um
grande entusiasmo por esta organização patriótica, Durão Ferreira chamou a atenção para a atitude
destes dois centros do Porto, pela (...) nenhuma importância que ligam à organização da Mocidade
Portuguesa ou ao seu representante nesta Província.166 Este género de “guerra surda” entre a
escola e a MP atravessou no espaço e no tempo as tentativas de implantação do organismo, ao qual foram oferecidas resistências, quando não ideológicas, de sentido concorrencial. Note-se que o ensino particular reunia mais recursos para ocupar os tempos livres dos respectivos alunos, aos
162
Arquivo Histórico do Ministério da Educação, Direcção Geral do Ensino Liceal. Diversos. Cx 2315. Cópia da exposição, de 31 de Maio de 1940, enviada por Dario Tamegão ao Delegado Provincial da MP no Douro Litoral.
163
Idem, Exposição de 17 de Maio de 1941, enviada por António Barbosa Delegado Provincial da MP no Douro Litoral.
164
Idem, Ofício n.º 15, de 18 de Agosto de 1941, enviado por Rilley da Motta ao secretário-inspector da Mocidade Portuguesa.
165
AHME, Relatórios dos Liceus. Caixas 13 e 16 - Relatórios n.º 78/A e 109 – Liceu Alexandre Herculano, anos lectivos de 1941-1942 e 1942-1943.
Nos anos anteriores a este conflito, a actividade da MP mereceu descrição pormenorizada. Nos anos a que nos referimos, o capítulo referente à organização não foi contemplado.
166
AHME, Gabinete do Ministro. Diversos. Cx. 2831, Ofício n.º 830, de 28 de Outubro de 1937, enviado pelo secretário-inspector A. Durão Ferreira ao chefe de gabinete do ministro da Educação Nacional.
Segundo Durão Ferreira, os dois colégios não acataram as ordens de formação para fins de revista, emitidas pela MP: Os directores destes centros escolares não mandaram formar os alunos para a revista, tendo-me o do primeiro dito que como era sabido, mandara os rapazes para o cinema às 4 horas e o do segundo que não tinha tomado conhecimento da minha Ordem de Serviço, determinando a revista e este nada lhe tinha dito.(...) E o desinteresse de um e outro era evidente: O Director do Centro Escolar do Grande Colégio Universal, não compareceu nem se fez representar e o do centro escolar do Colégio João de Deus fez-se representar por um dos alunos do colégio (...).
quais era dado o acesso a actividades desportivas e circum-escolares, mais raras nos liceus. E também por isso era mais difícil tornar apetecível a filiação na MP.
Para lá do espaço escolar, a organização pisou quase sempre território desconhecido. A obscuridade do mundo extra-escolar e o difícil enraizamento da MP entre os jovens trabalhadores, que constituíam extensa fatia da população em idade de filiação, provou evidência desde cedo. Em 1938, Nobre Guedes reconheceu, junto de Salazar, que a Mocidade Portuguesa não dispunha (...) de
recursos materiais, de pessoal e de processos de repressão, que lhe permitam qualquer acção efectiva sobre os jovens em idade de obrigatoriedade e que não frequentam escola, ou a abandonam cedo, sobretudo nos meios rurais e industriais, onde um grande número de rapazes antes dos 14 anos se empregam em trabalhos de campo e nas oficinas. 167 Mas o universo liceal
seria, em todo o caso, o espaço predilecto do regime para cultivar a sua nova geração.
3.1.1.2. Vigiar oposições
A história da MP no final dos anos trinta fez chegar até nós alguns outros episódios que a integraram no combate ao “perigo comunista” tantas vezes glosado pela política de propaganda do Estado Novo. A potencial propagação do ideário bolchevista entre os portugueses mais jovens, perturbou sempre a organização, em particular no período de radicalização política alimentada pelo conflito espanhol, que levou ao reforço dos mecanismos repressivos. Em finais de 1938, a Legião Portuguesa alertava para o crescendo (...) das ideias comunistas, sobretudo entre a juventude e em
muitas localidades onde as autoridades são fracas ou indiferentes (...), realçando que entre (....) os propagandistas adversos (...) estavam (...) os professores primários, funcionários pagos pelo Estado e que contra a Nação encaminham a Mocidade que lhe confiaram e que, em vez de educar, pervertem.168
A par da tarefa inculcadora, dentro do ideário do regime, em que a Mocidade Portuguesa convidava à desmobilização política da juventude, surgiu também a aptidão vigilante dos movimentos juvenis opositores. Um artigo sem autoria, publicado no Jornal da M.P. de 16 de Dezembro de 1937, lançou o primeiro aviso ao inimigo que circulava na sombra da organização. Procurando mitigar as acusações de colaboracionismo com os nacionalistas espanhóis, ironizava o autor anónimo: (...) conta-se esta: a “Mocidade” está a fabricar soldadinhos para o Franco:
manda-os em camionetas como mercadoria barata a caminho das trincheiras de Madrid! Não lembra ao diabo, mas lembra ao farsante comunista, que é muito pior que o diabo!!!169 E,
referindo-se ainda ao mesmo “inimigo”, fazia crer: Não há felizmente nas Escolas Portuguesas
167
AOS/CO/ED-1D. Carta confidencial de 12 de Setembro de 1938, enviada pelo comissário nacional, Francisco Nobre Guedes, ao Presidente do Conselho.
168
AOS/CO/PC-21. Informação confidencial de 7 de Novembro de 1938, emitida por um elemento da Legião Portuguesa (assinatura ilegível).
169
bloco anti-fascista (...). Os rapazes da “M.P.” vestem com orgulho a sua farda que não é de fascistas mas de portugueses de lei, seguros de si e das suas convicções patrióticas, passeiam pelas ruas e frequentam as Escolas, sem que o “bloco” os assuste. Ele não lhes sai ao caminho, por certo, e quando muito deixa por de baixo da porta um panfleto, mas sempre a olhar para trás com medo que lhe descubram o gesto e lhe dêem o correctivo.170 Mas a mesma oposição, para confirmar o engano do repórter, deu sinais de vitalidade alguns dias depois.
O artigo referia-se ao Bloco Académico Antifascista, organização clandestina activa entre 1936 e 1938, que concentrou jovens comunistas e outros grupos de estudantes anti-salazaristas (de influência republicanista e maçónica) e promoveu acções de solidariedade com a frente republicana espanhola. O Bloco, que pretendia ser (...) a organização profissional dos estudantes (...) afirmava- se como (...) sucedâneo das Associações Académicas, abolidas ou deturpadas no seu carácter e
desenvolvimento pelo governo de Salazar.171 Para assegurar que, afinal, sempre havia “bloco” nas escolas, os representantes do Comité Central assinaram uma carta enviada ao comissariado nacional da MP, onde justificavam a sua existência como marcha contrária à que pontuava a organização. Criticando claramente a imposição doutrinária e religiosa da Mocidade Portuguesa, os abaixo- assinados defendiam para os estudantes (...) a defesa dos interesses económicos e culturais dos
estudantes e a articulação num movimento único das aspirações das Juventudes das Escolas pela Paz, a Liberdade, a Cultura, uma Vida Alegre e Saudável, (...) [abrindo] as suas fileiras a todos os estudantes, independentemente das suas convicções políticas e das suas crenças religiosas.172 Em
resposta do movimento, que concentraria então cerca de 3000 membros, os abaixo-assinados declaravam integrar a verdadeira mocidade portuguesa (...) a mais decidida defensora dos
interesses reais da classe estudantil, a lutadora insofismável pela melhoria efectiva da vida económica, moral e cultural da Juventude (...) que estava (...) aglomerada no Bloco Académico - organização à margem da lei. A declaração de intenções foi acompanhada pela denúncia do regime
de coacção vivido nos meios estudantis e apadrinhados pela nova organização estatal: Não é
verdade que, atentando no conteúdo dos seus desígnios se pode acusar a ordem existente de postergar os direitos e reivindicações de uma parte notável da Mocidade Portuguesa - a que trabalha nas Escolas? 173 Dois anos mais tarde o “Bloco” foi eliminado da cena oposicionista.
170
Ibidem.
171
AOS/CO/ED-1D. Carta de 20 de Dezembro de 1937, assinada pelo Comité Nacional do Bloco Académico (Pedro Costa, Rui Tavares, Alfredo Coelho, Mário Carvalho) e enviada ao Comissariado Nacional da MP para a direcção respectivo jornal. Cópia remetida a Salazar.
172
Ibidem.
173