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Este capítulo teve como objetivo mostrar que o seqüenciamento dos textos na seção Brasil é utilizado pela revista Veja como uma estratégia discursiva, por meio da qual se tenta influenciar a construção de sentidos do leitor. Utilizando como instrumento de análise a forma de organização informacional e valendo-me de contribuições da Teoria da Relevância, pude constatar que, em cada uma das seções analisadas, as informações ativadas com a leitura do primeiro texto podem funcionar como pontos de ancoragem para as informações ativadas com a leitura do segundo texto e assim sucessivamente. A razão disso é que as informações de um texto podem permanecer na memória discursiva do leitor e, por isso, podem ser selecionadas para participar do contexto de interpretação do texto seguinte. Dessa forma, o seqüenciamento possibilita que informações ativadas em um texto de uma seção Brasil constituam um subconjunto das informações de que o leitor dispõe na memória ao ler o texto que aparece em seguida na mesma seção.

As análises efetuadas neste capítulo permitiram ver que, numa seção, o ato de um texto pode apresentar traços lingüísticos que indicam a ancoragem do ato em diferentes informações localizadas em níveis menos imediatos da memória discursiva, informações que, no MAM, são chamadas de pontos de ancoragem de segundo plano. Cada um dos traços que foi objeto de análise indica uma ancoragem necessária e uma ou mais ancoragens possíveis. Na maior parte dos casos estudados, o propósito de um ato se ancora de forma necessária em informações que têm origem no próprio texto de que esse ato faz parte, sendo essa uma ancoragem fundamental para a compreensão do ato. Em todos os casos analisados, a ancoragem do ato de um texto em informações com origem em outro texto da seção é uma ancoragem possível, porque, mesmo que essa ancoragem não seja feita, ainda assim o ato poderá ser compreendido. Mas, mesmo não sendo necessária à compreensão do ato e implicando um gasto maior de esforços cognitivos, a ancoragem possível permite ao leitor a derivação de suposições ou

81 inferências que provavelmente não seriam produzidas de outra forma. Acredito que a instância de produção tenha a expectativa de que ancoragens possíveis, tais como as que foram descritas, sejam realizadas pelo leitor. Somente assim a estratégia de dispor os textos em determinada seqüencia será eficaz. Caso o leitor realize de fato essas ancoragens possíveis, confirmando a expectativa da instância de produção, ele sofrerá uma modificação no seu estado inicial de conhecimento, devido à produção de inferências. Essas inferências poderão não ser (e muito certamente não serão) idênticas às que foram apresentadas, mas, assim como essas, elas poderão ser formatadas segundo o ponto de vista ou o sistema de valores e crenças do veículo de comunicação.

A distinção entre a ancoragem necessária e a ancoragem possível pode ser precisada com mais clareza, se se considerar o tipo de inferência envolvido em cada uma dessas ancoragens. A realização da ancoragem necessária parece envolver as inferências que Coscarelli (1999) chama de conectivas e que Brown e Yule (1983) chamam de bridging ou missing links. Essas inferências são importantes “para preencher lacunas que ajudem

o leitor a compreender as relações entre as partes do texto” (Coscarelli, 1999, p. 126) e,

quando realizadas num nível mais local, como na interpretação de um ato, são responsáveis pela compreensão das anáforas, sejam elas correferenciais ou associativas. Já a realização da ancoragem possível parece envolver as inferências que Coscarelli (1999) chama de elaborativas e que Brown e Yule (1983) chamam de elaboratives ou

evaluatives. Essas inferências seriam menos automáticas e envolveriam um custo maior

de processamento para serem realizadas, como se observou nas análises feitas anteriormente. As inferências elaborativas são aquelas que não desempenham papel determinante no estabelecimento da compreensão de um ato. Porém, Coscarelli (1999, p. 109) esclarece que, embora essas inferências não sejam necessárias para o

estabelecimento da coerência local, “isso não significa que elas não sejam necessárias

no estabelecimento da coerência global”. A razão disso é que as inferências elaborativas podem ter um papel estratégico na geração de informações úteis na interpretação global do texto31.

No caso específico das seções Brasil, as inferências resultantes da ancoragem possível do ato de um texto numa informação que tem origem em outro texto podem ser úteis na

31

Para uma definição mais adequada das inferências conectivas e elaborativas, ver Coscarelli (1999, cap. 4) e Brown e Yule (1983).

82 compreensão global da seção e são responsáveis pelo sucesso da estratégia discursiva que dispõe os textos da seção Brasil em uma seqüência X. Somente por meio da realização dessas inferências, é possível construir relações de analogia ou de causa e conseqüência entre informações ativadas pelos vários textos de uma seção. Defendo que é a expectativa de que essas inferências poderão ser feitas que leva os produtores de

Veja a dispor os textos da seção Brasil em determinada seqüência. Caso as inferências

decorrentes de ancoragens possíveis não sejam realizadas, a disposição dos textos em uma seqüência específica não funcionaria como estratégia de persuasão do leitor.

No próximo capítulo, os resultados obtidos nesta etapa do trabalho serão aprofundados. Com a acoplagem da forma de organização informacional a outros módulos e formas de organização do discurso, será possível desenvolver o estudo da forma de organização tópica. O estudo dessa forma de organização permitirá verificar o grau de saliência na memória discursiva das informações que funcionam como ponto de ancoragem e permitirá justificar as inferências que podem surgir a partir das ancoragens de um ato nos seus pontos de ancoragem, inferências apenas apontadas neste capítulo. O estudo da forma de organização tópica terá, portanto, como objetivo evidenciar se o seqüenciamento ou a ordem de apresentação das reportagens na seção Brasil é de fato um recurso importante de que a revista Veja se vale para tentar guiar a construção de sentidos do leitor.

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Benzer Belgeler