Uma das preocupações do grupo de pesquisa (GP) em Sensibilidade Ambiental a Derrames de Petróleo tem sido a caracterização da sensibilidade ao óleo para os ambientes terrestres e o meio dulciaquícola. Em vista disso a tese desenvolvida por Martins (2012) buscou contribuir com os ambientes terrestres, propondo uma metodologia de mapeamento da sensibilidade das áreas adjacentes ao modal de transporte rodoviário, estabelecendo um Índice de Sensibilidade Terrestre (IST).
Neste contexto, o Sistema de Classificação de Sensibilidade Ambiental ao Óleo em Ambientes Fluviais proposto pela presente pesquisa, denominado Índice de Sensibilidade Fluvial (ISF), buscou suprir a necessidade do meio dulciaquícola ao conciliar uma variedade de ambientes presentes nos sistemas fluviais indicados pelos sistemas de classificação apresentados pelo NOAA, Petrobras e outros, além de elencar os parâmetros físicos fundamentais ao estabelecimento da sensibilidade.
Para a seleção dos parâmetros físicos foram investigadas as características físicas comumente associadas a cursos fluviais, onde as seguintes variáveis foram selecionadas: tipo e natureza do substrato de fundo e das margens; exposição da feição ao hidrodinamismo (ação das correntes); declividade das feições marginais; a vegetação marginal e o porte da vegetação associada à planície de inundação. A vegetação foi elencada pois influencia diretamente a dispersão e as condições de limpeza e/ou remoção do óleo.
A classificação de sensibilidade proposta adotou os mesmos padrões estabelecidos pelo GP de Sensibilidade Ambiental a Derrames de Petróleo para o litoral, onde se fundamentou nos aspectos físicos por meio da compreensão da geomorfologia e dos processos dinâmicos que integram os sistemas fluviais. Isso se deve, pois tais aspectos tem menor variabilidade temporal, diferente dos aspectos biológicos e socioeconômicos que podem sofrer alterações a curto prazo. Além disso, o meio físico determina o tipo de biota associada e os recursos de uso humano, estabelecendo complexas relações. Dessa forma, o mapeamento com base nos aspectos físicos não necessita ser atualizado constantemente.
A presente pesquisa buscou contribuir com o estabelecimento de ambientes não considerados pelos sistemas de classificação apresentados no capítulo 5, tais como a natureza dos afloramentos rochosos marginais ao contemplar a classificação genética (rochas ígneas, metamórficas e sedimentares) associada à porosidade (fraturas, fissuras ou fendas); e a especificação das fácies presentes nos sistemas de canais meandrantes (diques naturais, barras de meandros, meandros abandonados, lagos de meandros e planícies de inundação) comuns às regiões de clima úmido.
O ISF, por ser uma proposta inicial ainda não testada, deve ser aplicado aos mais diversos ambientes fluviais nacionais para avaliar sua eficácia. O mesmo poderá ser refinado para atender a outros ambientes não contemplados por este estudo. Por se tratar de uma associação entre os mais diversos ambientes presentes nos cursos fluviais norte americanos, em rios amazônicos de grande porte e nas fácies de sistemas deposicionais meandrantes, sua aplicação também pode ser prevista para os sistemas fluviais com variação climática entre equatorial, tropical úmido, subtropical úmido e temperado. Para ambientes com climas extremos (tropical seco, desértico quente e climas frios) o índice deverá ser adaptado.
As principais dificuldades enfrentadas ao estabelecimento do ISF estão relacionadas à incipiência da literatura específica sobre o tema, tanto para artigos que contemplem propostas de sistemas de classificação, quanto para o comportamento previsível do óleo em ambientes fluviais. Com base nesse último, houve a necessidade de utilização de literatura referente aos ambientes costeiros no caso dos afloramentos rochosos e granulometria das praias, pois estes
possuem características semelhantes. Diante disso, a presente pesquisa buscou contribuir com estudos futuros, ao apresentar uma investigação sobre as especificidades dos aspectos físicos (parâmetros e ambientes) que compõem os sistemas fluviais, bem como o comportamento previsível do óleo.
A proposta apresentada também visa contribuir como subsídio às Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo e aos planos de contingência para a determinação de ações de resposta mais precisas que auxiliem a recuperação dos ambientes presentes nos sistemas fluviais.
6.2. MORPH
O Modelo Orientado à Representação do Pensamento Humano se apresentou a princípio, como uma proposta de ferramenta de análise e comparação de objetos extraídos dos agentes textuais (publicações científicas). Essa ferramenta atendeu de certa forma no aspecto de análise, pois possibilitou evidenciar os aspectos físicos fundamentais ao estabelecimento da sensibilidade ambiental ao óleo. Porém demonstrou ser uma ferramenta um tanto complexa em seu entendimento e utilização para a extração de objetos de forma manual. Por outro lado, os frames forneceram uma visão sumarizada do texto, permitindo a releitura do mesmo sem precisar consultá-lo novamente na íntegra.
Ainda no aspecto da análise, a leitura dos objetos aos pares auxiliou na investigação minuciosa dos agentes textuais exaurindo todas as possibilidades de análises, amparando a compreensão da metodologia utilizada por cada autor e de seus processos de constituição.
Na análise dos pares algumas inconsistências foram evidenciadas em determinados objetos que se encontravam em relações de reforço. Algumas relações se apresentaram de forma invertida, mas não foi possível constatar se essas inversões podem ser alguma inconsistência da ferramenta ou se estão relacionadas à forma com que os autores delinearam os artigos, principalmente porque alguns dos agentes textuais analisados foram redigidos em língua inglesa, o que difere da constituição gramatical dos agentes redigidos em língua portuguesa.
As relações de reforço, como evidenciado no capítulo 5, podem ser consideradas as mais importantes, pois por meio dessas relações o especialista pode alavancar mudanças em todo o sistema inserindo variáveis externas que possam interferir no objeto que ocasiona tais mudanças.
No aspecto de comparação, a ferramenta não demonstrou ser tão relevante devido à pequena quantidade de artigos analisados. Essa ferramenta possivelmente forneceria melhores resultados se houvesse uma grande quantidade de agentes textuais a serem comparados, pois permitiria eleger um artigo de referência para posterior comparação a outros, com o intuito de identificar um conjunto de artigos que atendessem as especificidades estabelecidas pela referência.
É importante ressaltar que tanto a leitura do frame (geral e dos objetos aos pares), quanto a comparação por meio do software apresentaram-se como formas complementares de investigação dos agentes textuais, pois os aspectos físicos de interesse deste estudo foram evidenciados logo após a aplicação das etapas e diretrizes de extração dos objetos.
Para que a ferramenta fosse utilizada com facilidade, houve a necessidade em otimizar os processos apresentados nas etapas e diretrizes de extração, posicionamento e relacionamento dos objetos (variáveis) por meio de um fluxo adaptado de Costa (2012). Também houve a necessidade em estabelecer regras balizadas pelos princípios da linguística para a composição da Rede Proposicional (P) de forma eficaz.
MORPH acabou evidenciando um domínio de relações Não Controláveis e Imediatas em todos os agentes textuais, isso se deve, pois a Rede Proposicional estabelecida visava evidenciar os objetos correspondentes aos aspectos físicos naturais. Estes por serem sistemas naturais, certamente não podem ser controlados por ações humanas de forma imediata.
MORPH não se mostrou como a ferramenta mais adequada para representar os sistemas físicos em questão, pois a mesma foi concebida para revelar a dinâmica de sistemas complexos, muitas vezes subjetivos na área de Ciências Sociais Aplicadas. Ou seja, MORPH foi idealizado a princípio para revelar a lógica do pensamento humano, a ideia (conceito) que o agente especialista tem sobre determinado assunto, mas na presente pesquisa a ferramenta foi utilizada para revelar os aspectos físicos naturais que muitas vezes não estavam explícitos no texto.
Contudo, MORPH se apresentou como importante auxílio para elencar as variáveis fundamentais à avaliação da sensibilidade ambiental ao óleo, pois permitiu uma minuciosa investigação e uma leitura sistemática dos agentes textuais utilizados e comparados pela presente pesquisa.