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Quando se fala de impactos dos programas de microcrédito sobre variáveis como renda familiar, saída da linha de pobreza, qualidade de vida, segurança alimentar, segurança econômica, educação, saúde, empreendedorismo, relações sociais e até auto-estima, dentre outras, as publicações que tratam do assunto são limitadas. Estes itens, contudo, são os

elementos principais que se busca atingir com a operacionalização dos programas de microcrédito.

Em 2005, por ocasião do Ano Internacional do Microcrédito, promovido pela ONU, ocorreram debates em torno das possíveis respostas a pergunta: Microfinanças funciona como

instrumento de redução da pobreza? Isso motivou a publicação, em dezembro de 2005, de

importante trabalho escrito por Nathanael GOLDBERG, contendo as principais pesquisas sobre avaliação de impactos em microfinanças ocorridas até meados de 2005. Nesse trabalho, GOLDBERG agrupou os trabalhos de pesquisa em três categorias distintas:

1. Pesquisas com elevado rigor acadêmico, especializadas e caras;

2. Interpretações e monitoramento de rotinas e estudos qualitativos, com perfil mais voltado à pesquisa de mercado do que acadêmica; e

3. Pesquisas rigorosas o bastante para merecerem credibilidade e baratas o suficiente para se viabilizarem economicamente.

Espera-se que este trabalho de pesquisa, para estudar a viabilidade de aplicação do Método PPI como instrumento de avaliação do Programa Crediamigo, seja enquadrado no “item 3” citado acima, para que, em se confirmando sua eficácia, seja possível sistematizar a sua aplicação sem comprometer a sustentabilidade do programa. Sabe-se que não é tarefa fácil avaliar os impactos de um programa de microcrédito, principalmente pela dificuldade na coleta de informações precisas e acompanhamento de grupos de controle nas populações de baixa renda, as quais sofrem influências das mais diversas; visto que, para medir o impacto real em uma variável é necessário identificar alguma variação significativa, em termos adicionais à essa variável, ou seja, descontadas as variações que ocorreriam na ausência do programa avaliado.

Reconhecendo tais dificuldades, espera-se pelo menos que o Método PPI, a ser explanado mais adiante, seja utilizado como um efetivo instrumento de monitoramento do

progresso dos clientes atendidos pelo Crediamigo, no que se refere aos aspectos sociais inerentes ao programa.

O Programa Crediamigo do Banco do Nordeste é, sem dúvida alguma, um programa de microcrédito de grande sucesso. Como já foi visto no decorrer deste trabalho, o Crediamigo tem mais de 13 anos de funcionamento e já alcançou números bem expressivos, que o colocaram na posição de maior programa de microcrédito da América do Sul e segundo maior programa de microcrédito da América Latina. Ao longo do tempo, experimentou crescimento gradativo e consistente, sem apresentar qualquer sinal de arrefecimento no ritmo de crescimento, ao contrário, demonstra muito vigor e potencial de crescimento para aproveitar o grande mercado ainda inexplorado na região Nordeste, sua área de atuação.

O espaço de crescimento do Crediamigo tornou-se ainda maior depois dos recentes incentivos por parte do Governo Federal para ampliação do microcrédito no país, quando criou o “Programa Crescer”. Citado programa governamental contempla redução de encargos e elevação do montante de recursos a serem aplicados em microcrédito, adotando o Microcrédito Produtivo Orientado e o Crediamigo do Banco do Nordeste como modelo a ser seguido e disseminado em todo o território nacional.

O Banco do Nordeste encomendou, à Fundação Getúlio Vargas, pesquisa que foi realizada em 2008, sob a coordenação do pesquisador Marcelo Néri (NERI, 2008). As constatações feitas por Néri são as razões do sucesso do modelo de negócios do Crediamigo, que o confirmam como importante instrumento de inclusão social e fortalecimento da cidadania, com destaque especial para as mulheres, que constituem mais da metade dos seus clientes. Referidas constatações, algumas relatadas abaixo, estão consolidadas em publicação que relata a experiência do microcrédito no Nordeste do Brasil no período de 2005 a 2009 (SANTOS; GOIS, 2011).

Participação de mercado em tamanho e qualidade: O Crediamigo é o maior programa de microcrédito produtivo popular do Brasil com cerca de dois terços do mercado nacional, sendo o segundo maior da América Latina. Além de tamanho, o programa tem qualidade. Em 2008, o Crediamigo foi escolhido pelo BID, entre todas as instituições do continente, para ganhar o prêmio Excelência em Microfinanças.

Autosustentabilidade: O Crediamigo é auto-sustentável. A taxa de inadimplência da carteira em 31/12/2008, em plena crise econômica de crédito, era de 1,13%, caindo de 2,09% em 2002. O programa tem suficiência operacional, não dependendo de benefícios fiscais, gerando lucro de R$ 50,00/ano por cliente, calculado usando o custo de oportunidade de juros de mercado para compor seu funding. O programa se aproxima do que podemos chamar de política social de mercado.

Estrutura de incentivos: Um dos segredos do programa está na sofisticada estrutura de incentivos. Em primeiro lugar, o esquema de crédito solidário adotado no programa, seguindo o modelo notabilizado pelo Grameen Bank, que funciona como incentivo para a separação dos bons dos maus tomadores pelos próprios participantes potenciais do programa. Em segundo lugar, a parceria com a OSCIP Nordeste Cidadania permitiu desatrelar os encargos e incentivos dos agentes de crédito do programa da legislação trabalhista pública. O agente de crédito é motivado pela parte variável de sua remuneração associada ao tamanho e à performance de sua carteira. E, em terceiro lugar, há a separação administrativa entre o Crediamigo e o restante do Banco do Nordeste, o que ajuda a manter a transparência operacional do programa e os incentivos à performance dos gestores do comando do programa.

Quanto mais tempo no Crediamigo, melhor: Quanto maior o tempo de exposição dos clientes ao programa maior é o seu impacto: por exemplo, aqueles que entraram em 2003 tiveram um ganho de 82% no lucro em relação a 2008, enquanto que os que entraram em 2008 tiveram um ganho de 13,84%. Em termos gerais há um ganho entre 11 e 14 pontos percentuais no lucro por ano de permanência adicional no programa.

Política pública com características privadas: Descobrir as possibilidades de uma política pública com características privadas de um programa que dá lucro e amplia o protagonismo de segmentos de baixa renda, sem custar nada aos cofres públicos, é como uma moeda valiosa jogada desapercebida nas calçadas das cidades mais pobres do Brasil.

Sinergia com outros programas governamentais: O trajeto rumo à superação da pobreza passa por estreitar relações, somar esforços, dividir informações e caminhos com os programas sociais existentes, como o Bolsa Família, que almejam o mesmo destino (SANTOS; GOIS, 2011, p. 109 a 112).

Ainda em sua avaliação, NERI (2008) faz uma comparação do Crediamigo com o Grameen Bank sob dois pontos: a) Foco nos pobres – os dois programas têm como foco de atuação os segmentos mais pobres da população; e b) Colateral social – a abordagem à carência de garantias dos pobres do Grameen Bank, denominada colateral social, também é utilizada pelo Crediamigo. Neste esquema, cada membro de um grupo de tomadores de empréstimo garante o pagamento dos demais membros do grupo. A disposição de se entrar num esquema do tipo um por todos e todos por um, informa tudo que os credores gostariam de saber sobre os devedores, sem precisar investigar. O esquema de crédito solidário é ilustrativo da possibilidade de soluções simples e baratas para afrouxar a restrição de crédito dos pobres. Em vista disso, Néri chamou o Crediamigo de “Grameen Bank brasileiro”.

A dissertação de mestrado intitulada “Avaliação do Desenho do Programa Crediamigo do Banco do Nordeste: Inclusão Social e Mercado” (SOUZA, 2010), apresenta outros

resultados sociais do Crediamigo, dimensionados através de trabalhos acadêmicos e pesquisas científicas, dos quais, dois são diretamente ligados à superação da linha de pobreza:

1) De acordo com a pesquisa de Teixeira (2008), objeto de dissertação de mestrado, Microcrédito – condicionantes para a saída da condição de pobreza – estudo aplicado ao Programa Crediamigo do BNB – UFC, Fortaleza, 2008; investigando a possibilidade dos clientes do Crediamigo ultrapassarem a linha de pobreza: “a probabilidade de um beneficiário do Crediamigo ultrapassar a linha de pobreza é maior que a probabilidade de se transformar em uma pessoa pobre e aumenta consideravelmente a cada período de seis meses, e, caso permaneça vinculado ao programa, essa probabilidade de sucesso chega a 50% na faixa de 49-50 meses, para a linha de pobreza da FGV, indicando assim retornos crescentes de renda em relação ao tempo de permanência no programa”;

2) Conforme dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Barcelona, por Sousa, Jane M.G. (2003), sob o título “Evolución Del Microcrédito en el Espacio Urbano de Fortaleza Mediante uma Pesquisa de Campo”; observou-se que 54% dos clientes do Crediamigo ultrapassaram a linha da pobreza. Com relação à renda média familiar dos clientes, ao comparar a renda inicial, quando da obtenção do primeiro empréstimo, com a renda final, por ocasião do último empréstimo, constatou-se que estas apresentaram acréscimos em todos os níveis de acumulação, evidenciando maiores incrementos de renda à medida que aumenta o número de empréstimos. (SOUZA, 2010, p. 131 e 132)

Os benefícios sociais e econômicos do Crediamigo são indiscutíveis, conforme mostram os resultados dos diversos trabalhos comentados acima, no entanto, o objetivo do presente trabalho, ao testar o Método PPI, é identificar um instrumento de monitoramento e avaliação de impactos na esfera social, que possa ser operacionalizado sistematicamente, com o uso de indicadores focalizados no indivíduo, seu domicílio ou estabelecimento comercial. Assim, o trabalho almeja descobrir como o acesso ao crédito, através do Crediamigo, pode afetar o modo de vida e o consumo. Com isso, espera-se obter uma melhor compreensão e percepção das prioridades dos clientes, viabilizando, pela leitura dos resultados, a inovação de produtos e serviços.

Benzer Belgeler