Diante de toda a argumentação feita, cito alguns pontos que ao meu ver são extremamente importantes como possíveis soluções a serem perquiridas.
A efetivação do direito à saúde não incumbe de modo exclusivo ao “setor da saúde”, mas deve ser compreendido a medida que é garantido uma qualidade mínima de vida, através da efetivação de políticas públicas que sirvam para a superação das desigualdades sociais e o pleno desenvolvimento da personalidade. Assim, a salvaguarda do direito à saúde se dá também pela proteção conferida a outros bens fundamentais, nas quais apresenta zonas de convergência. Este fato intensifica a tese existente entre a íntima interdependência entre todos os direitos humanos e fundamentais.
Hodiernamente, a eficácia das normas constitucionais é muito reduzida e este fato, fomenta o enfraquecimento do pacto social, gerando assim o descrédito por parte da população. Para tal, aCarta Magna de 1988 não pode ser interpretada nos limites da dogmática jurídica tradicional, visto que o Direito e os fatos sociais não estão separados do intérprete. A hermenêutica jurídica deve assumir seu papel frente ao Estado Democrático de Direito, visando assim, a efetivação das promessas não cumpridas e superando a dívida social histórica, fruto da baixa efetividade constitucional. È fato, que sem a concretização dos direitos sociais, não é possível pretender a implantação dos direitos civis e políticos em sua plenitude, o que compromete a própria existência do Estado Democrático.
Sob este prisma, o dever constitucional do Estado exige a prática de políticas e ações que levem ao atendimento efetivo das demandas que garantam o cumprimento dos direitos fundamentais. Essas políticas públicas e ações do Estado devem estar pautadas sob o Princípio da Eficiência. È evidente, portanto, que para se atender aos limites e ditames constitucionais, inseridos em uma democracia participativa, não cabe aos governantes proporem políticas e ações administrativas que busquem resultados contrários ou aquém daqueles constitucionalmente pactuados, caso contrário, ferir-se-ia à própria Constituição. As ações de políticas públicas devem ser pautadas e
alicerçadas na participação popular.
Na ânsia de tornar efetivo o direito à saúde. O fato é que a obrigação de prestação de contas, principalmente no que tange à gestão da saúde é uma obrigação dos gestores que estão à serviço público. Para tal, deve ser consolidado a importância do instituto do accountabilit, ou seja, a prestação de contas fruto do dever de transparência. È dever da população brasileira,fruto de uma cidadania ativa, construir e consolidar, este importante instrumento democrático.
A efetividade do direito fundamental à saúde no SUS, só começará a dar sinais positivos através do bom uso do dinheiro público. Este virá através de uma democracia consolidada e participativa, mas também através de instrumentos constitucionais de controle da gestão como a auditoria, exercida por órgãos competentes, tais como o SNA- Sistema Nacional de Auditoria, e instituições independentes que verdadeiramente respeitem a Carta Magna.
A saúde é uma atividade que o valor social sobrepõe ao econômico. Deste modo, é preeminente que o princípio da dignidade da pessoa humana como imperativo de justiça social seja efetivado.
Importante repensar também, o “instituto da reserva do possível”, pois diante de situações de emergência, caos social, “hard case”,falta de recursos ou sua escassez, é prudente e sensato que os princípios constitucionais, pilares de todo o ordenamento jurídico, sejam sopesados de maneira hierárquica e prioritária no que tange às políticas públicas. Assim, para salvaguardar o núcleo de todo o aparato constitucional, verdadeiras “cláusulas pétreas”, como a dignidade da pessoa humana e o direito à vida. Na verdade, o problema não está somente na falta ou escassez de recursos financeiros, mas sim na discricionariedade administrativa, ou seja, na falta de gestão ou eficiência dos gestores, no que toca às escolhas e decisões tomadas.
Desta feita, inconcebível se torna o argumento do Estado que “não tem recursos para a saúde”, visto que certos direitos fundamentais só devem ser violados em situações de caos social e depois que forem reduzidos e cortados gastos e direcionados à direitos fundamentais que afetem diretamente à pessoa humana em sua integridade psicofísica. Em síntese, em
situações excepcionais, devem ser cortados gastos para salvaguardar o núcleo essencial que é a vida humana. Ademais, nas palavras de Alberto Alcalat, “o núcleo essencial é a fronteira, o âmbito irredutível dos direitos fundamentais”.
Para salvaguardar o Estado, diante do dever que o mesmo têm de prestar serviços de saúde com qualidade para a população. As prestações públicas positivas escancaram as limitações do Estado para fornecer os serviços necessários à configuração do estado de bem-estar social, o que torna possível a constatação que é necessário a captação de recursos da sociedade civil por meio da iniciativa privada.As “parcerias público privadas” são, portanto, uma saída viável e efetiva para que a efetivação do direito à saúde seja eficiente e eficaz, se cumpridos obviamente os preceitos e ditames legais.
Em suma, respondendo os questionamentos feitos na introdução da presente dissertação, pode-se concluir que o direito fundamental à saúde admite sim a atuação da iniciativa privada no âmbito complementar e pode-se ir além, visto que a iniciativa privada no setor de saúde no Brasil é imprescindível para o equilíbrio do SUS, compreendido como política pública de saúde. Reitero também o argumento que para que ocorra a efetividade do direito fundamental à saúde na atuação da iniciativa privada, imprescindível se torna o acompanhamento do gestor e da Gestão Municipal do SUS, no controle e fiscalização dos contratos celebrados.
No que tange a natureza jurídica dos contratos da Administração Pública com a iniciativa privada, concluo amparado pela argumentação de José dos Santos Carvalho Filho, que as parcerias público privadas é melhor caracterizada como sendo uma modalidade especial dos contratos de concessão. Deste modo, a natureza jurídica desse tipo de ajuste é a de contrato administrativo de concessão de serviço público.
A assistência farmacêutica pode e deve ser objeto de atuação complementar da iniciativa privada por meio do modelo de Parcerias Público- Privada, desde que seja complementar, pois o País não pode ficar “refém” da iniciativa privada, devendo fomentar e implantar políticas públicas de incentivo para o setor, gerando um verdadeiro “pólo” de pesquisas e pesquisadores. Conforme constatado pela presente estudo, desde que foram criadas em 2004
pelo governo Lula, as PPPs não decolaram até os tempos hodiernos. Novamente é necessário incentivo, mudança de paradigmas para que em setores primordiais como a saúde, não haja apenas concessões, mas também parcerias, facilitando assim o acompanhamento e auditoria.
Assume especial relevância também, a “luta” que países em desenvolvimento como o Brasil devem ter para relativizar as patentes farmacêuticas, visto que mesmo com inúmeros esforços como a Declaração Inglesa sobre Direitos de Propriedade Intelectual e a Declaração de Doha, esses países ainda ficam sob o jugo do poderio econômico de potências mundiais, e portanto, a cargo da solidariedade dos mesmos.
Deste modo a importância da compreensão e da atuação eficaz de políticas públicas que proporcionem a eficácia do direito à saúde, o que abarca e comporta também o acesso a medicamentos, e o desenvolvimento progressivo e sustentável de pesquisas e incentivos à pesquisa nacional, promovendo a independência do Brasil frente aos países desenvolvidos principalmente no que concerne à área farmacêutica são imprescindíveis e de certo modo urgentes.