3. GEREÇ VE YÖNTEM
3.8. Sonuçların Değerlendirilmesi
A palavra ironia já existia antes mesmo de ser aplicada ao fenômeno e antes da própria existência do conceito de ironia. “O primeiro registro de eironea surge na República de Platão. Aplicada a Sócrates por uma das suas vítimas, parece ter significado algo como ‘uma forma lisonjeira, abjeta de tapear as pessoas’.” (MUECKE, 1995, p. 31). Em outras palavras, a ironia era um mecanismo sutil, utilizado no discurso, que possibilitava enganar o interlocutor quanto ao que estava sendo dito, sem que este percebesse. E, ao longo da
antiguidade, se desenvolveu o conceito de que a ironia era uma forma retórica “[...] de tratar o oponente num debate e enquanto estratégia verbal de um argumento completo [...]” (MUECKE, 1995, p. 32). Depois, para fins práticos, foi agrupada e classificada como uma figura de linguagem, o que não alterava o seu sentido de oposição entre os significados das palavras utilizadas (BRANDÃO, R., 1989).
Na ironia, segundo Propp,
[...] expressa-se com as palavras um conceito mas se subentende (sem expressá-lo por palavras) um outro, contrário. Em palavras diz-se algo positivo, pretendendo ao contrário, expressar algo negativo, oposto ao que foi dito. A ironia revela assim alegoricamente os defeitos daqueles (ou daquilo) de que se fala. Ela constitui um
dos aspectos da zombaria e nisto está sua comicidade (PROPP, 1982, p. 125,
grifos nossos).
Apontamos uma clássica concepção de ironia, na qual, segundo Ott (2008), há uma posição e um ponto de vista já formado pelo orador e/ou autor que se utiliza desta forma retórica e, embora diga A pretendendo dizer B, já detém ambos os sentidos previamente construídos e articulados.
Em contraposição, Ott (2008) descreve uma ironia, denominada por ele de, Pós Moderna. Caracterizada por seu sentido ser desprovido de certeza a priori, pois o autor/orador é ciente de que não há verdades universais ou particulares. Há apenas consensos, aceitos em um determinado momento histórico. Indo além: há ciência de que “[...] no truths that exists outside of language.”34 (OTT, 2008, p. 47). Dessa forma, a ironia, por assim dizer, Pós Moderna, não pretende propagar pontos de vista “corretos”, visto que não os tem pré- determinados, mas, ao contrário, mira na desmistificação das verdades e discursos estabelecidos, mostrando o quanto estes aprisionam o pensamento (OTT, 2008).
Seguindo esses conceitos descritos, a ironia Southparkiana, a nosso ver, parece estar identificada muito mais com a ironia Pós Moderna conceituada por Ott (2008), pois permite, via seu escracho politicamente incorreto, a implosão dos mais diversos discursos sérios e não sérios. Parker e Stone não procuram dar respostas ou propor soluções às questões abordadas nos episódios. Não há tomada de lado, embora autores e críticos já tenham colado o rótulo
conservador35 no seriado, enquanto outros o taxaram de liberal36. Julgamos que a idéia
34 Não há verdades que existam fora da linguagem. (em nossa tradução)
35 Andrew Sullivan, comentarista político inglês radicado nos Estados Unidos, cunhou em seu blog, por volta de
2001, o termo “South Park Republican”, a fim de descrever pessoas jovens com posições políticas de centro- direita, as quais, segundo Sullivan, estão retratadas em South Park. Há também o livro intitulado “South Park
conservatives: the revolt against liberal media bias” (Conservadores South Park: a revolta contra a tendência
principal em South Park é demonstrar o quanto qualquer discurso universalista tem suas falibilidades, incluindo nesta categoria (universalista) tanto os discursos sério, oficial e hegemônico, quanto os próprios discursos escrachados, não-oficiais e contra hegemônicos.
Há um número significativo de episódios de South Park que demonstra isto. Porém, citaremos somente alguns: “Death”, o assunto em questão é a eutanásia e nem mesmo o personagem Jesus Cristo dá sua opinião37; “Conjoined Fetus Lady”, que, como veremos mais aprofundadamente no próximo capítulo (p. 80), retrata uma tentativa “bem intencionada” de lidar com o diferente, que se torna em uma apologia às diferenças; “Follow The Egg”, em que se discute a homoparentalidade; “My Future Self N’ Me”, onde se questiona o modo dos pais dialogarem acerca das drogas com os filhos; entre outros.
Outro apontamento da ironia Southparkiana diz respeito à “ironia auto-reflexiva” muito utilizada pelos autores. “Parker and Stone employ self-reflexive irony that is typical of postmodernism thought to poke fun at the creative process and the connection between product and artist” (HALSALL, 2008, p. 27)38. Isto é notável em alguns episódios como no já citado “Free Hat”, ou em “Le Petit Tourette”. Neste episódio, Cartman finge ter uma síndrome, na qual lhe é impossível controlar o que diz, assim poderia xingar a todos sem ser punido ou repreendido. Para coroar sua farsa, arranja uma entrevista em um programa de televisão de grande audiência. Porém, com o tempo não consegue mais filtrar nada no que diz e passa a revelar em voz alta situações íntimas, que certamente gostaria de manter privadas – como ter feito xixi na cama, por exemplo. Em um dado momento, desesperado por estar prestes a participar do programa de televisão, onde se constrangerá em rede nacional com suas revelações, pede a Deus que o ajude. O discurso/prece do garoto reflete esta “ironia auto- reflexiva” como se pode notar:
há críticas aos ideais liberais, concluindo que South Park é o programa “the most hostile to liberalism in television history” (ANDERSON, 2005, p. 88). (mais hostil ao liberalismo em toda a história da televisão – em nossa tradução.)
36 Becker (2008) aponta que South Park pode ser caracterizado como “liberal”, pelo fato de também apresentar
críticas e/ou representar de forma debochada diversos ideais conversadores, tais como: o direito de se ter armas, os religiosos de direita, a xenofobia, etc.
37 “Even Jesus, who is supposed to represent the Law, the Father, and the Truth, is unwilling to take a position in
this debate. Indeed, all of the town’s centers of knowledge are unwilling to say whether assisted suicide is ‘right’ or ‘wrong’. The aim of the episode, then, is not to promote liberal or conservative message, but to present a
third, metadiscourse on the controversy itself.” (OTT, 2008, p. 47, grifos nossos) (Até mesmo Jesus, o qual
supostamente representa a Lei, o Pai e a Verdade, reluta em tomar uma posição neste debate. Na realidade, todos que representam o conhecimento na cidade relutam em dizer se a prática da eutanásia é ‘correta’ ou ‘errada’. O objetivo do episódio, então, não é promover a visão liberal ou a conversadora, ao contrário, ele apresenta uma terceira via, um metadiscurso da própria controvérsia. – em nossa tradução)
38 Parker e Stone empregam a ironia auto-reflexiva, a qual é típica no pós-modernismo, para zombarem do
Deus? Por favor, eu sei que fudi tudo! Eu queria nunca ter fingido ter Síndrome de
Tourrete, mas veja, agora entendi. Você não pode simplesmente falar tudo o que
você quer. Você nos deu filtros porque, pessoas não querem escutar coisas como...
Eu encostei meu pênis com o do meu primo! Aprendi, especialmente, que você não
pode falar o que quiser em cadeia nacional, porque pode haver crianças assistindo. Por favor, Deus, não me deixe passar vergonha em cadeia nacional. Você precisa consertar isso por que tudo é sua culpa, né? Por favor, eu preciso de um milagre.
O longa-metragem “Bigger, Longer & Uncut”, também é passível de citação, pois neste, os personagens Terrance e Phillip são acusados de fazerem um humor baixo pelo fato das piadas da dupla se resumirem somente a peidos. Neste caso a “ironia auto-reflexiva” fica por conta de que a dupla Parker e Stone escarnece um tipo de rótulo que é aplicado por muitos em South Park.