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A construção de identidades coletivas se dá quando antagonismos sociais passam a ser questionados a partir do princípio de equivalência dos direitos (Mouffe, 1988). Na medida em que essa construção é um processo, ao mesmo tempo, individual e coletivo, diversas questões identitárias podem ser suscitadas.

A emergência de identidades coletivas é, direta ou indiretamente, relevante à psicologia, mais especificamente à psicologia social, que sempre esteve preocupada com questões relacionadas ao espaço de convivência conjunta, a formação e dinâmica dos grupos e as relações de poder subjacentes às delimitações de fronteiras intra e inter grupais. A psicologia social tem procurado compreender os processos envolvidos nas relações entre grupos e identidades coletivas.

Para tentar superar os hiatos que tradicionalmente se fazem entre estrutura e significado, universos institucionais e não institucionais, entre tantos outros, é que a psicologia social se mostra relevante. Ao contrário dos modelos estáticos de algumas teorias sociológicas, o arcabouço da psicologia social vem contribuindo largamente para a compreensão das dinâmicas de interação micro-sociológicas.

A psicologia social deveria ser para a teoria marxista da ideologia o que a microeconomia é para a teoria econômica marxista. Sem um conhecimento sólido sobre os mecanismos que operam a nível individual, as teses marxistas de amplo alcance sobre as macroestruturas e as mudanças de longo prazo são condenadas a permanecer como especulações (Elster, 1989 citado por SANDOVAL, 1989, p.128).

O desafio posto ao campo de estudo dos Movimentos Sociais está relacionado a superar estes hiatos no intuito de não cair nos recorrentes reducionismos que tentam explicar a totalidade do comportamento político enfatizando apenas uma de suas dimensões. Nesse sentido, Sandoval (1997) argumenta que, se por um lado a psicologia foi micro-cósmica demais para poder elaborar uma interpretação teórica do comportamento político, a sociologia se mostrou ainda demasiadamente genérica para ser convincente em suas interpretações.

O erro que em geral se comete é perceber o indivíduo como sujeito da estrutura, mais do que um agente dentro dela, como se quando entrasse no campo do coletivo ele perdesse sua racionalidade, ou ainda, de forma simplista, reduzi-lo a um ator “intencional”, que realizaria seus objetivos no espaço coletivo da sociedade de plena posse de uma racionalidade transparente (Prado, 2001).

Identificando esses pressupostos dentro de parâmetros críticos, podemos perceber as dualidades iluministas separando de um lado a racionalidade e de outro a ameaça da irracionalidade. Essa separação se dá quando tomamos o indivíduo como “objeto da sociedade” e quando tomamos o indivíduo como um “ator intencional” (Prado, 2000).

Essa relação linear de causa e efeito, de um sujeito racional que escolhe ou um sujeito irracional que é escolhido, tem por pressuposto um sujeito transcendental, permeado por uma dimensão essencial. Tentaremos sustentar, como pressuposto epistemológico básico, que os atores coletivos em parte criam e em parte ocupam seus lugares sociais em uma relação que é dialética (Prado, 2000).

Nesse sentido devemos ter em vista uma noção de real que não pode ser definida como uma objetividade transparente e completa, mas um real que é construído através de conflitos, contradições e lutas que possibilitam uma limitação das múltiplas significações possíveis. Portanto, a construção da realidade social acontece num complexo jogo de criar hegemonias e contra-hegemonias que concorrem a diferentes formas de significação do real. Assim, um movimento social não mobilizaria e se manteria apenas e simplesmente pela condição de exclusão dos indivíduos envolvidos, mas pela intenção de criar uma nova realidade, constituída de novos elementos simbólico-culturais (Prado, 2001). Em outras palavras, é necessária uma ponte semântica que leve com que os indivíduos se identifiquem coletivamente e formem uma identidade (Honneth, 2003).

Prado (2000) discute os diversos tratamentos que foram dados ao fenômeno dos movimentos sociais na literatura sobre ações coletivas, a partir dos apontamentos de autores preocupados com os processos de construção dessas identidades coletivas (Melucci, 1996; Honneth, 2003; Prado, 2001). Assim, enfatiza-se a importância de incluirmos nessas análises os aspectos subjetivos dessas construções (Melucci, 1996; Prado, 2000, 2001, 2002). Nas palavras de Melucci (2001), “o agir coletivo não é o

resultado de forças naturais ou de leis necessárias da história, nem, de outro lado, simplesmente o produto de crenças e de representações dos atores” (Melucci,

2001:31).

Os movimentos sociais, como participantes do campo político, fazem parte dessa complexa teia de relações, onde tanto aspectos simbólicos quanto estruturais merecem atenção, pois suas demandas muitas vezes suscitam contradições tanto com realidades

Em síntese, os diversos atores coletivos estariam então, cada qual lutando por seus interesses e contra a situação de opressão na qual se encontram e competindo por novas formas de significação do real, num constante e complexo campo de negociações e re-negociações, que se estabelecem a partir de relações de antagonismo e reciprocidade. Como afirma Melucci (2001),

A superação do dualismo pode advir somente se se reverte a idéia ingênua do agir coletivo como dado empírico unitário. É necessário, ao contrário, interrogar o dado para descobrir como é produzido e extrair dele a unidade para fazer emergir a pluralidade de orientações, significados, relações que convergem para o mesmo fenômeno. Colocar o problema da formação do ator coletivo significa reconhecer que aquilo que, empiricamente, se chama ‘movimento’ e ao qual, por comodidade de observação e de linguagem, se atribuiu uma unidade essencial, é, na realidade a resultante de processos sociais heterogêneos. Trata-se, pois, de entender como se forma a unidade e a que resultados diferenciados os diversos componentes podem dar lugar (Melucci, 2001: 32).

1.2.1. Perspectivas Teóricas e Movimentos Sociais

Prado (2000) argumenta que as diversas perspectivas que buscam compreender os movimentos sociais, se mostraram insuficientes quando reduzem a complexidade destes fenômenos à apenas uma de suas dimensões. Apresenta-se abaixo uma breve discussão de algumas das principais teorizações sobre movimentos sociais.

Os paradigmas clássicos enfatizaram os aspectos psicológicos da participação, por vezes atribuindo à participação coletiva o caráter de irracionalidade. Ao ignorar as condições estruturais, sem a qual a dimensão psicológica não poderia se articular, esta abordagem mostra-se insuficiente para responder como e onde as pessoas participam (Rodrigues, 2006).

Por outro lado, os teóricos da Mobilização de Recursos não conseguem explicar os aspectos motivacionais da participação, concebendo o sujeito político de forma racionalista, dando ênfase ao modo da participação em uma relação simplista de custo/benefício (Rodrigues, 2006).

Segundo Rodrigues (2006), o modelo do Processo Político,

“acentua em demasia o onde as pessoas participam, oferecendo especial atenção ao campo de constrições ou oportunidades políticas que fomentam, ou inviabilizam a participação social. Este modelo, ainda que traga à tona a dimensão da cultura e das múltiplas identidades, não é capaz de pensar os movimentos sociais para além se sua institucionalização no campo das formas tradicionais de se fazer política” (Rodrigues, 2006:142).

A perspectiva dos Frames, por sua vez, não compreende os vínculos entre movimentos sociais e as instituições políticas, se limitando a articular as motivações individuais e coletivas da participação, em função dos modos pela qual ela se efetiva.

Rodrigues (2006) defende que a perspectiva da identidade coletiva

é a que mais se aproxima de uma compreensão dos movimentos sociais não como um fato empírico, mas como um sistema de ação complexo e comportando múltiplas facetas, que são tanto estruturais quanto simbólico-culturais. No entanto, uma crítica que pode ser apresentada a essa perspectiva diz respeito ao inflacionamento da categoria identidade o que pode, muitas vezes, promover uma idéia reducionista sobre alguns movimentos sociais que passam a ser considerados arcaicos, ou velhos, exatamente por não conseguirem, ou não poderem, construir uma estratégia política baseada exclusivamente, ou fundamentalmente, na identidade. Não por acaso, há poucas perspectivas teóricas sobre movimentos sociais que se interessam em estudar movimentos vinculados à questão étnico-racial, na medida em que movimentos com essa característica sempre acenam com estratégias políticas que são tanto estruturais quanto identitárias. O que, efetivamente, não se enquadra nos princípios teóricos dos chamados “novos movimentos sociais” cuja ênfase na política de identidade é considerada mais importante que a ênfase nas mudanças estruturais e transformação das desigualdades socioeconômicas (Rodrigues, 2006:142-143).

1.2.2. Constituição da Identidade Coletiva

A partir de autores como Melucci (1996), Prado (2002), Mouffe (1988), Santos (2003a) e outros, podemos entender que qualquer compreensão dos fenômenos sociais necessita partir não somente da análise das condições estruturais, mas também das dinâmicas de constituição dos atores sociais, ou seja, das identidades coletivas ocupando o cenário público das sociedades contemporâneas.

Dentro desse campo teórico diverso, daremos ênfase na investigação da constituição da identidade coletiva que, segundo Prado (2002), regula e é regulada por 5 elementos básicos:

1) Sentimentos de pertença;

2) Definição de práticas sociais grupais (cultura política); 3) Valores, crenças e interesses compartilhados;

4) Estabelecimento de redes sociais; 5) Relações intra e entre grupos.

Nosso estudo traz a tona o debate entre estrutura e atores, sistemas e ações, de forma a considerar o estudo dos processos de formação da identidade coletiva deste grupo, questionando a antiga clivagem teórica que separa “Movimentos Sociais

Tradicionais” dos “Novos Movimentos Sociais”. Isto pressupõe a identidade coletiva como um processo de identificações políticas que em última instância denota um sistema de ações e, exatamente por isso, seus significados variam em função das relações que se estabelecem e produzem reconhecimento e reciprocidade social e política.

Nessa perspectiva, podemos ressaltar que os objetivos deste estudo compreendem que a constituição da identidade coletiva é um processo que pode ser apreendido a partir da conjugação de três elementos psicossociais (Prado, 2002):

1) As práticas coletivas que definem sentimentos de pertença grupal e a partilha de valores, crenças e interesses (Melucci, 1996);

2) O reconhecimento de equivalências sociais (Mouffe, 1988) dado pelo sentimento de injustiça social e pela conscientização dos direitos sociais e, por último;

3) A noção de delimitação de fronteiras políticas na diferenciação entre os atores sociais em determinado cenário político (Prado, 2002).

A identidade coletiva é um processo de construção social que se apresenta publicamente como uma unidade parcial e provisória. Nesse sentido, é exatamente a diversidade e os conflitos existentes sob essa unidade que mais interessam. Como aponta Melucci (1996), o estudo da identidade coletiva deve se centrar exatamente nos conflitos que permanecem submersos na aparente unidade na qual se apresenta um determinado ator político. As formas de participação política menos institucionalizadas e que buscam a formação de identidades coletivas se interessam, entre outras coisas, por romper a invisibilidade social e abrir o debate público em torno de demandas sociais específicas.

Debates públicos são provocados pelos movimentos sociais por meio de ações coletivas que representam, em última instância, um ponto isolado em uma rede de relações muito mais ampla. Nesse sentido, quando tomamos a Parada como objeto de reflexão, o fazemos investigando a identidade coletiva formada entre os grupos organizadores que tentam fazer da Parada GLBT um instrumento político de interpelação da política institucional, e um motor de transformação cultural. Nesse movimento buscam o fortalecimento das posições contra-hegemônicas dentro de uma complexa teia processual de relações simbólicas e materiais.

Atualmente, diversos vínculos institucionais têm sido desenvolvidos entre os movimentos homossexuais e variados atores da sociedade, entre os quais podemos apontar alguns que são fundamentais para a atuação dos grupos GLBT de Belo Horizonte, tais como órgãos governamentais Municipais, Estaduais e Federais; Empresas; Universidades; ONG’s Movimentos Sociais e muitos outros.

Compreender como se dá a constituição da identidade coletiva desses grupos em interação em espaços tão diversos e a partir da identificação das fronteiras políticas que eles estabelecem, com seus aliados e adversários, requer um enquadramento suficientemente amplo desta arena de atuação.

Benzer Belgeler