Os dados coletados na pesquisa foramobservados minuciosamente nas etapas a seguir: Na Etapa 1, foram analisadas as interações (15 horas de espanhol e 15 horas de português) com o propósito de caracterizar o contexto, formas de trabalho e, finalmente, caracterizar o diálogo da parceria analisada. O mesmo procedimento foi feito com os diários, questionários, relatos e entrevistas semiestruturadas.
Na etapa 2, o diálogo colaborativo da parceria foi analisado, levando em conta aqueles momentos em que o aprendiz precisava da ajuda do expert (regulação externa), visando analisar os conflitos existentes que afetavam à parceria em colaboração. Primeiramente, foram analisados os diálogos (gravações em áudio) e identificados os possíveis conflitos do aprendiz e do expert frente à relação “eu-outro” (processo mediado). Com o intuito de verificar o observado nas gravações em áudio, posteriormente, foram analisados os outros instrumentos de pesquisa, os quais me ajudaram a corroborar o já encontrado e situá-lo dentro de uma definição de conflito. Ressalta-se que o processo de análise foi norteado pelas perguntas de pesquisa, sempre considerando o objetivo geral da investigação. Os dados obtidos nos diários foram utilizados para demonstrar os dados já encontrados no instrumento principal (Gravações das interações). As respostas dadas aos questionários, relatórios e entrevistas
semiestruturadas, por sua vez, ajudaram a detectar o grau de impacto das situações de conflito dentro do diálogo eu-outro da parceria em tandem.
Na etapa 3, foi feita uma análise geral de todos os dados com base nos postulados teóricos trazidos na fundamentação deste trabalho.
O quadro a seguir apresenta alguns conceitos fundamentais para a análise dos dados:
Conceito Definição
O eu-outro
O eu não é sujeito, é constituído sujeito em uma relação constitutiva Eu-Outro no próprio sujeito, essa relação é imprescindível para a constituição do sujeito, já que para se constituir precisa ser o outro de si mesmo. É necessário o reconhecimento do outro enquanto eu alheio nas relações sociais, e o reconhecimento do outro enquanto eu próprio, na conversão das relações interpsicológicas em relações intrapsicológicas, mas nesta conversão, que não é mera reprodução, mas reconstituição de todo o processo envolvido, há o reconhecimento do eu alheio e do eu próprio e, também, o conhecimento enquanto autoconhecimento e o conhecimento do outro enquanto diferente de mim (MOLON, 2000, s/p).
O outro é quem diz o que somos pelo qual, o outro é a expressão do drama através do qual a minha subjetividade sobrevive diante do essencial daquilo que me faz como humano, que é minha humanidade, pela multiplicidade e pela diversidade infinita (BUSSOLETTI e MOLON, 2010, p.88).
Sujeito
Segundo Vygostky (2001), o sujeito é ‘interativo’, ou seja, um ser individual que se constrói, portanto, em uma dimensão social que não é simplesmente a dimensão do outro, mas sim uma dimensão baseada
na ‘relação’ com o outro e com os demais aspectos do seu meio
natural.
Consciência
Entendida como “a capacidade que o homem tem de refletir a própria
atividade, isto é, a atividade é refletida no sujeito que toma consciência da própria atividade” (MOLON, 2000, s/p).
Atividade mediadora
Vygotsky (2007) caracteriza o uso de signos e de instrumentos como atividade mediadora que irá orientar e regular o comportamento humano na internalização das Funções Psíquicas Superiores. Não obstante, a mediação por signo e a mediação por instrumento são de distinta natureza, ou seja, o signo constitui uma atividade interna dirigida para o controle do próprio sujeito, e o instrumento é orientado externamente, para o controle da natureza.
Aprendizagem colaborativa
Na aprendizagem colaborativa o que importa não é apenas o sucesso do grupo em realizar uma determinada tarefa, mas a co-construção do conhecimento, advindo de intercâmbios significativos de informações e de sugestões entre os interlocutores. (FIGUEIREDO, 2006, p.20 grifo do autor)
Conceito Definição
Tandem
Uma forma de aprendizagem aberta em que duas pessoas com línguas nativas diferentes trabalham conjuntamente em pares para aprender mais sobre a personalidade e a cultura um do outro, ajudar-se mutuamente a aprimorar as habilidades linguísticas e, frequentemente, também para compartilhar conhecimento adicional, por exemplo, sobre suas vidas profissionais (BRAMMERTS 1996, p. 10)
ZDP
Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. (VYGOTSKY, 2007, p. 97).
Andaime
Um processo que permite ao aprendiz resolver um problema, realizar uma tarefa, ou alcançar um objetivo que estaria além de seus esforços, se não tivesse auxílio, esse andaime consiste essencialmente em o
adulto “controlando” aqueles elementos da tarefa que inicialmente
estão além da capacidade do aprendiz, permitindo assim que ele se concentre e complete apenas os elementos que estejam dentro dos limites de sua competência. (WOOD; BRUNER; ROSS, 1976, p.90). Insumo
Entendido como as mensagens ou informações linguísticas que o aprendiz recebe e que podem ou não ser assimiladas (FIGUEIREDO, 2006, p.31).
Diálogo Eu-outro
Diálogo colaborativo
Vygotsky (2001a) assevera que o diálogo colaborativo é uma forma de interação que promove o desenvolvimento juntamente com a função mediadora da linguagem.
Diálogo intersubjetivo
O diálogo intersubjetivo não é o plano do outro, mas o da relação eu- outro. Segundo Pereira (2002), não se concebe uma construção individual sem a participação do outro e do meio social, o que torna imprescindível a relação intersubjetiva, pois é nesse espaço relacional que há a possibilidade do conhecimento.
Internalização É uma forma transitória da linguagem exterior para a interior, da linguagem social para a individual (VYGOTSKY, 2001a, p. 65).
Autorregulação
Vygotsky (2007) sugeriu que a autorregulação seria fruto da internalização feita pelos sujeitos. Os aprendizes passam, gradualmente, a conseguir regular-se a si próprias ao internalizarem e se apropriarem dos meios que os adultos utilizaram para regulá-las.
Conflito
É entendido como situação dramática da realidade, ou seja, “uma "luta
interior" de contradição da própria constituição do eu que se objetiva na consciência do eu-alheio que aparece na relação eu-outro e que nos apresenta a nós mesmos como sujeitos inacabados e em desequilíbrio”. (JUNIOR, 2011, p 185)
Quadro 3. Conceitos chaves
Finalmente, para fins organizacionais e de síntese, foram selecionados alguns excertos que mostram significativamente o fenômeno estudado, os quais foram analisados e discutidos, o que será exposto no próximo capítulo.
CAPÍTULO III
As análises aqui apresentadas enfocam os dois processos interativos vivenciados pela parceria: ensino-aprendizagem de espanhol e ensino-aprendizagem de português. Tais análises buscam responder às seguintes perguntas da pesquisa: 1) Como se caracteriza o diálogo colaborativo da parceria analisada? 2) Quais conflitos são observados na construção desse diálogo e como os participantes lidam com eles no processo de interação? 3) Como esses conflitos impactam na relação da parceria em colaboração e no contexto de aprendizagem em tandem?