A chamada imprensa alternativa não era, e nunca foi, exclusividade daquele momento histórico pelo qual o Brasil passava; presente em muitos, senão em todos, os períodos da história do país33, tinha como principal objetivo a circulação de um discurso crítico e contrário ao discurso oficial – e, muitas vezes, assumido pela grande mídia –, ora para ridicularizar o governo ora para promover o combate. São exemplos dessa mídia os pasquins panfletários do período da Regência, a imprensa anarquista do início do século XX e os jornais que confrontavam o governo Vargas nas décadas de 1930 e 1940, com os quais a imprensa
33 O primeiro jornal brasileiro, por exemplo, Correio Braziliense, foi editado de Londres, em 1808, por Hipólito José da Costa, como resistência à imprensa oficial do império. Vê-se, desde então, e como “precursor dessa história” (CARVALHO, 2012), o surgimento no Brasil da imprensa alternativa, marcada pela contestação e inscrita fundamentalmente no contradiscurso.
alternativa dos anos de 1960 e 1970 se identifica e dos quais é sucessora, estabelecendo um espaço público contra-hegemônico. “Pode-se traçar, assim, uma demarcação entre imprensa convencional e imprensa alternativa no Brasil pelos seus papéis opostos como agregadores ou desagregadores da sociedade civil, em especial, dos intelectuais, jornalistas e ativistas políticos” (KUCINSKI, 2003, p. 22).
Durante a ditadura militar brasileira, em especial no período posterior ao Ato Institucional nº5 (AI-5) de dezembro de 1968, essa imprensa de resistência ganhou forte destaque no cenário nacional e, muitas vezes, concorreu com a imprensa tradicional e que tinha proximidade com o ideário do regime. De acordo com Chinem (1995), entre 1964 e 1980, circularam cerca de trezentos jornais e revistas que fizeram resistência intransigente ao regime: “a imprensa alternativa fazia oposição sistemática ao regime militar, denunciava a tortura e a violação dos direitos humanos e criticava o modelo econômico” (p. 8).
[...] o radical de alternativa contém quatro dos significados essenciais dessa imprensa: o de algo que não está ligado a políticas dominantes; o de uma opção entre duas coisas reciprocamente excludentes; o de única saída para uma situação difícil e, finalmente, o do desejo das gerações dos anos 1960 e 1970, de protagonizar as transformações sociais que pregavam (KUCINSKI, 2003, p. 13).
Nesse ponto, a imprensa independente, além da resistência à ideologia dominante em determinada época, é também uma alternativa aos modos de percepção da chamada grande mídia, que, segundo Chinem, “é ligada àquela classe que a pode manter. Esses jornais podem exercer um papel de esclarecimento da sociedade, porém só até o limite dos interesses de seus proprietários, vinculados à manutenção de um complexo econômico, político e institucional – mas a grande imprensa pode educar” (1995, p. 11). Com um discurso de resistência e, muitas vezes, de combate, a imprensa alternativa, ainda que não vinculada a um partido ou a uma ideologia característica, distancia-se claramente do discurso da grande mídia, muito próximo do discurso oficial, dominante.
É possível destacar no Brasil, já nos anos de 1950 e em maior medida a partir da década de 1960, dois tipos de jornais alternativos:
i) um predominantemente político, que “protagonizaram em suas páginas os movimentos populares de reivindicações e de protesto e discutiam os temas clássicos das esquerdas, como o do caminho da revolução brasileira e as táticas e estratégias de
oposição durante o longo processo de abertura”, tendo, portanto, um projeto ideológico partidário, e que “tanto a linguagem dogmática da maioria dos jornais políticos, formulada de modo canônico, como sua postura pudica, refletiam o marxismo de cunho religioso e os preceitos morais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), predominantemente durante a maior parte do ciclo alternativo” (KUCINSKI, 2003, p. 14-15);
ii) e outra que tinha suas raízes na contracultura norte-americana, no orientalismo, no anarquismo e no existencialismo sartriano, adotando o humor e o escárnio como forma de resistência uma vez que “rejeitavam a primazia do discurso ideológico. Mais voltados à crítica dos costumes e à ruptura cultural, investiam principalmente contra o autoritarismo na esfera dos costumes e o moralismo hipócrita da classe média” (KUCINSKI, 2003, p. 15).
A imprensa alternativa surgiu da articulação de duas forças igualmente compulsivas: o desejo das esquerdas de protagonizar as transformações que propunham e a busca, por jornalistas e intelectuais, de espaços alternativos à grande imprensa e à universidade. É na dupla oposição ao sistema representado pelo regime militar e às limitações à produção intelectual- jornalística sob o autoritarismo que se encontra o nexo dessa articulação entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos. Compartilhavam, em grande parte, um mesmo imaginário social, ou seja, um mesmo conjunto de crenças, significações e desejos, alguns conscientes e até expressos na forma de uma ideologia, outros ocultos, na forma de um inconsciente coletivo. À medida que se modificava o imaginário social e com ele o tipo de articulação entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos, instituíam-se novas modalidades de jornais alternativos (KUCINSKI, 2003, p. 16).
A imprensa alternativa de cunho humorístico, e também de resistência, ganha destaque naquele período a partir da publicação da revista Pif Paf, lançada em maio de 1964, dois meses após o golpe militar, depois da demissão do jornalista e humorista Millôr Fernandes da tradicional revista O Cruzeiro, onde tinha uma seção com o mesmo nome. Seu surgimento teve impacto fulminante na sociedade, como lugar de reação ao regime estabelecido, ao lado do Correio da Manhã, único jornal da grande imprensa a condenar o autoritarismo e a violação dos direitos humanos. Contudo, dentre as inúmeras publicações de cunho alternativo – e vale lembrar sempre que não estamos nos referindo à imprensa alternativa política, partidária –, foi O Pasquim, criado em 1969 na conjunção de humoristas consagrados como Jaguar, Ziraldo e Millôr Fernandes, e outros que ainda eram promessas, como Henfil, que teve
maior destaque, com sucesso imediato que o fez atingir uma marca próxima de 200 mil edições vendidas de um mesmo número.
Torna-se importante destacar que o humor crítico desses jornais e revistas se dava muito pela superexposição do corpo de seus “adversários”, mas que essa crítica se dava muito mais pelo uso do cartum, das tirinhas e da charge, e quase nunca, ou jamais, pela utilização da caricatura, que era vista como afrontosa pelos militares.
Desde o começo, os humoristas evitaram a caricatura; recorreram muito mais à charge para a qual não faltavam os ingredientes essenciais: os tipos e as situações genéricas que o público podia identificar facilmente, generais sobrecarregados de medalhas, agentes truculentos da polícia, os coronéis neurotizados pelo anticomunismo dirigindo Inquéritos Policiais Militares, que inspiravam mais do que temor. Tratava-se, nesse início, de um regime ambíguo, ainda indefinido entre uma corrente civil liberal-conservadora e outra militar-autoritária. Havia um discurso „democrático‟ e uma prática repressiva. Com a arma poderosa da ironia o humorista penetrava nas contradições entre palavra e ato enfatizando o grotesco das situações (KUCINSKI, 2003, p. 44-45).
E ainda,
Com seu apego à hierarquia, o sistema militar avaliava como perigoso o uso da caricatura. Ao deformar fisionomias, dissecando e expondo os traços críticos da personalidade, a caricatura individualiza o ataque, abrindo o flanco a retaliações diretas. Em alguns jornais interioranos, nem mesmo a charge política genérica era permitida. Além de raras, as caricaturas eram quase sempre dos civis, que apoiaram o golpe, como os governadores Carlos Lacerda e Ademar de Barros (KUCINSKI, 2003, p. 45).
Voltaremos a tratar dessa imprensa alternativa em 3.1.3.2, atentando-nos para as especificidades de cada veículo que serão objetos de nossas análises (Pif Paf, Ex- e O
Pasquim). Lá, teremos como preocupação a análise de cartuns, charges e fotomontagens, e, em menor medida, caricaturas, veiculadas por esses jornais e revistas, a maioria em suas capas, que revelavam a superexposição corporal como meio de ridicularizar e criticar o regime, seus agentes e aqueles, geralmente civis, que de alguma maneira a ele estavam ligados, ainda que distantes espacialmente, mas na proximidade político-ideológica.
3.1.2 Quem te viu, quem te vê: a memória da ditadura brasileira entre o dizer e o