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BÖLÜM VI. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER

6.1. Sonuç ve Tartışma

Nessa perspectiva, estruturo esta tese da seguinte forma: no capítulo 1, apresentei a contribuição dos estudos precursores sobre os “povos e comunidades tradicionais” do Norte de Minas, que revelaram os “contextos intersocietários de conflito” (LITTLE, 2002) comuns a esses grupos. Contextos que dizem respeito às sucessivas invasões de suas terras, propiciadas pelas políticas de desenvolvimento econômico voltadas para a região, seja via implementação de grandes fazendas de gado, pela construção de barragens para irrigação de projetos como o Gorutuba e Jaíba, seja pela implementação da monocultura de eucalipto e de unidades de proteção integral. Esses processos impuseram outras formas territoriais na região e contribuíram como elemento unificador de cada um desses grupos que se articularam internamente e externamente, em rede, pela defesa de seus territórios. Dentre esses estudos, alguns se assentam nos “processos de territorialização” (PACHECO DE OLIVEIRA,1998) dos remanescentes de quilombo de Brejo dos Crioulos (COSTA, 1999), Gurutubanos (COSTA FILHO, 2009), Lapinha (ARAÚJO, 2009), vazanteiros da baixada média do rio São Francisco e de Pau de Légua (LUZ DE OLIVEIRA, 2005; ARAÚJO, 2009) e dos Geraizeiros (NOGUEIRA, 2009); e outros na perspectiva da etnoecologia e das dinâmicas sociais e políticas dos geraizeiros de Riacho dos Machados e de Vereda Funda (DAYRELL, 1998); (BRITO, 2006). Entretanto, faço uma leitura desses a partir do que Almeida (2008) denominou de “movimentos de territorialização”, com o objetivo de focar a dimensão política da construção de um processo coletivo de reinvindicação territorial desses grupos, apoiados por uma rede social emergente na década de 1990, que compartilhou entre si posicionamentos, estratégias de resistência e articulações políticas. Essas situações contribuíram para que os vazanteiros de Pau Preto, Pau de Légua e Quilombo da Lapinha se unificassem internamente e reinvindicassem suas lutas territoriais no campo ambiental. Esses estudos contribuem com a desinvisibilização dessas coletividades tão diversas que, apoiadas por uma rede de entidades, foram se construindo politicamente como “encurralados” na relação com os demais grupos e lançando mão da auto-atribuição identitária como instrumento legítimo para suas lutas territoriais. Nesse processo, o CAA, a CPT, STR’s, associações quilombolas e vazanteiras, MST e universidades tiveram papel central. Organizações sociais que,

articuladas a movimentos ambientalistas e inspiradas na luta de Chico Mendes e na articulação dos Povos da Floresta, se constituíram como lugares de formação de diversas lideranças no Norte de Minas, criando locus de aprendizagem, de saberes, de intercâmbio de experiências e de valores socioambientais que orientaram a ação coletiva e a construção identitária dos diversos grupos sociais da região.

No capítulo 2, busco demonstrar que os vazanteiros de Pau Preto, Pau de

Légua e Quilombo da Lapinha emergiram, enquanto movimento político no campo

ambiental, somente pela condição de encurralamento a que foram submetidos. Esse encurralamento foi propiciado por uma série de restrições relacionadas ao seu território e práticas tradicionais, desde que os parques estaduais passaram a operar enquanto Unidades de Proteção Integral (UPI). Para tanto, trago o contexto que legitima a existência e a operacionalização desses parques, que ocorre através da valorização das Matas Secas, e o debate sobre o status de proteção desta como Mata Atlântica ou Caatinga. Esse contexto implica na operacionalização, por parte do IEF, de medidas restritivas e expropriatórias relacionadas às comunidades de Pau Preto, Pau de Légua e Quilombo da Lapinha. Logo, estruturo a discussão a partir de dois momentos: uma etapa anterior ao encurralamento, que se dá via etapa dois do projeto de fruticultura irrigado Jaíba e a criação das condicionantes ambientais, como instrumento funcional ao agronegócio e aos ambientalistas que se alinham em seus interesses a partir do “jogo da mitigação” (CARNEIRO, 2005); e uma etapa posterior, que tem como contexto a valorização das Matas Secas e a região dos parques como área prioritária para conservação, ratificada pelo Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais de 2005, e pelo debate legislativo sobre o status de sua proteção. Esses eventos revelam uma disputa classificatória das Matas Secas entre ruralistas e ambientalistas, o que implica em distintos projetos sociais para a área de estudo. Neste debate, incluo entre os ambientalistas a rede TROPI DRY, como um dos atores que defendem a proteção das Matas Secas e que apóia a inclusão dos “Vazanteiros em Movimento” nas áreas de proteção integral, reconvertendo-as em áreas de uso sustentável. Busquei assim compreender as implicações dessa disputa legislativa para os povos e comunidades tradicionais da região.

No capítulo 3, explicitei o processo de encurralamento desses atores, na perspectiva trabalhada por Turner (2008) de “dramas sociais”, ressaltando o sentido de lugar contestado por esses grupos sociais, assentado no plano da memória. Para tanto, utilizo como referência de análise os relatos das comunidades vazanteiras de

Pau de Légua, de Pau Preto e de Quilombo da Lapinha, coletados em oficinas realizadas para a construção de mapas mentais sobre seus territórios reivindicados. Isso porque, o processo de reivindicação territorial das comunidades vazanteiras diz respeito à demanda de reapropriação simbólica e material do lugar, que é acionada pelo vínculo com o território e suas práticas tradicionais. Essas práticas e modo de vida têm como referência um tempo passado, denominado por eles de “tempo de liberto”, em contraposição ao “tempo dos encurralados”. Ou seja, se hoje vivenciam um tempo de restrições e de penúria, mostram que no passado vivenciaram um tempo de fartura e de liberdade territorial, tempo que reemerge, nesse contexto de lutas sociais, como elemento unificador do grupo, que revaloriza suas práticas tradicionais como modelo alternativo de conservação do lugar. A utilização dos mapas mentais teve como objetivo visualizar o lugar de pertencimento, revisitar lugares, vínculos e práticas de um tempo evocado de suas memórias e que os unifica atualmente em suas reivindicações.

No capítulo 4, ressaltei o processo de “ambientalização” (LOPES, 2006) de suas lutas sociais, ao compreender os “Vazanteiros em Movimento” como uma construção que se realiza pela incorporação da questão ambiental em suas reivindicações, reelaboradas sob nova linguagem e convertidas como nova fonte de legitimidade e de argumentação no campo dos conflitos ambientais. Nesse contexto, acessam instrumentos jurídicos do campo ambiental que, associados às suas próprias tradições e visão de mundo, permitem disputarem com o IEF uma visão alternativa de conservação, através das modalidades de Reservas Extrativistas (RESEX) ou Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Assim, esse capítulo tratou de identificar momentos da luta dos “Vazanteiros em Movimento”, a partir de eventos encadeados que ilustram a construção identitária e política desses grupos que, apesar da condição de atingidos, ou seja, ainda na situação de “encurralados pelos parques”, sempre estiveram em movimento no processo de suas lutas territoriais. Evidenciei ainda que a situação social de “encurralamento” unificou as comunidades de Pau Preto, Pau de Légua e Lapinha em um contexto de emergência de direitos coletivos, permitindo-lhes se inserirem na categoria política de vazanteiros, utilizando do arcabouço jurídico da “tradição” para reivindicarem seus territórios ancestrais. Discuti, também, como suas lutas sociais foram se ambientalizando, seja pela apropriação da linguagem presente no campo ambiental, pela utilização de seus instrumentos jurídicos, seja pela disputa de uma visão alternativa de conservação

nesse campo. Mostrei que o reposicionamento desses grupos sociais no campo dos conflitos ambientais faz parte de um processo de construção e assimilação do jogo que se joga nesse campo, permitindo a estes se apresentarem atualmente como “Vazanteiros em Movimento”.

Por fim, nas considerações finais, resgatei as contradições ambientais da

doxa do desenvolvimento sustentável, evidenciando como suas medidas mitigatórias,

baseadas na ideia de consenso, agem a reboque de uma racionalidade econômica complementando-a e consolidando-a no Norte de Minas, assim como os vazanteiros vêm acionando outra lógica para a noção de sustentabilidade, visibilizando suas lutas locais em busca de “justiça ambiental”, através dos “Vazanteiros em Movimento”.

Benzer Belgeler