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Sonuç ve Tartışma

Belgede Büyük Veri Büyük Veri (sayfa 67-73)

from a Journalism Perspective

6. Sonuç ve Tartışma

Dizem os rabequeiros da tradição que a rabeca é um instrumento que tem "aima" [alma]e que um instrumento assim só pode ser muito especial. Se a "aima" sair do lugar ela para de tocar, fica "roufenha", como nos informa mestre Antônio Merengue, querendo dizer algo como, fica rouca, sem som. E isso realmente acontece. Já fiz a experiência de tocar uma rabeca sem alma e, depois de colocá-la em seu lugar, verifiquei que o som ficou muito melhor, mais brilhante e limpo, mais intenso. Este fenômeno tem obvias explicações acústicas que escapam à compreensão das pessoas que desconhecem algumas leis da ressonância. Ao mesmo tempo em que também haja explicações para a antropomorfia e o animismo característico do gosto popular e que podem ser observados na terminologia popular do instrumento.

A função da alma na rabeca é unir os dois "testos" (tampos) de tal forma que a vibração das cordas, seja transmitida por meio do cavalete e da alma, ao "testo" de baixo, fazendo com que a ressonância seja melhorada e o instrumento vibre por inteiro. Por este motivo, geralmente a alma é colocada logo abaixo de uma das bases do cavalete.

34 Pessoas que não conhecem a construção do instrumento ficam sempre impressionadas com o fato de a rabeca ser um instrumento com "alma". Geralmente tomam a expressão como metafórica e até metafísica, considerando vir daí o seu poder de emocionar profundamente. Algumas histórias sobre a rabeca circulam e alimentam mitos populares bem interessantes.

O mestre Antônio Merengue nos conta uma versão interessante de uma ocasião em que o capeta quis acabar com uma festa e, lá chegando desafiou a todos os músicos da festa a tocarem melhor do que ele. Se não conseguisse tocar algum instrumento melhor que o seu músico deixaria a festa continuar, caso contrário, acabaria com ela, levado todas as almas consigo. E foi tocando, de um em um, todos os instrumentos que lhe entregavam, sempre vencendo os músicos presentes. Até quando o rabequeiro lhe entregou o instrumento e, ao cruzar o arco sobre a rabeca, viu o formato que mais lhe apavora, a forma da cruz... "o Diabo

tem medo da Cruz!" e lançou fora o instrumento, fugindo da festa e deixando todos em paz.

mestre Antônio nos contou isso com os olhos arregalados e disse: "uma rabeca em casa, não

precisa nem tocar... É só colocar assim na parede que coisa ruim não entra de jeito nenhum!"

Histórias assim alimentam o imaginário popular e conferem ao instrumento uma aura de sagrado.

As cordas, nos primórdios do instrumento, eram de tripa animal, tratadas e curtidas, o que lhes conferia uma afinação mais grave, com menos harmônicos, e timbre mais doce e fosco. Nos dias atuais, as mais utilizadas pelos rabequeiros da tradição (os mais antigos e vindos da zona rural) são as de cavaquinho ou as quatro cordas mais agudas do violão (Mi, Si, Sol, Ré). Isso, entre outros fatores, confere ao instrumento seu timbre mais característico, com a produção de muitos harmônicos e algum ruído. Em conversa informal com o flautista e "pifeiro15" Carlos Malta, colhi seu comentário bem humorado, onde afirma que "tocar rabeca é bom porque já vem com uma banda de 'pifes'", numa clara referência aos harmônicos que o instrumento produz. Atualmente os rabequeiros mais próximos da música urbana utilizam cordas de guitarra "flat" (lisas). Há os que utilizam cordas de violino para produzir um som mais "limpo", sem ruídos e excesso de harmônicos, ou viola de orquestra, para os que querem notas mais graves.

15

35

2.5

A

S AFINAÇÕES

Quanto à altura absoluta das afinações em relação à afinação do Lá em 440 hz, as alturas variam de um rabequeiro para outro e isso parece decorrer do fato de o instrumento ser afinado para acompanhar o canto do próprio instrumentista ou dos cantores, assim como acontece no cavalo marinho. Outro fator que possibilita esta afinação fora do padrão, Lá 440hz, é que a rabeca, em muitos casos é o único instrumento melódico-harmônico do grupo (como no banco do cavalo marinho), fazendo-se acompanhar apenas por instrumentos de percussão e cantores. No caso de rabecas inseridas no contexto urbano e tocadas em bandas com mais instrumentos harmônico-melódicos como guitarras, teclados, baixo e sopros, será necessária uma afinação temperada.

As afinações16 são variadas, como tantas outras características do instrumento, mas o mais comum é encontrar afinações em quintas embora a afinação em quartas também seja utilizada. No cavalo marinho é recorrente a afinação Si, Mi, Lá, Ré (do agudo para o grave) que facilita o acompanhamento do canto para vozes masculinas.

FIGURA. 7 - Afinação 1

Em outros contextos musicais é possível encontrar variações como a descrita a seguir, onde a corda mais aguda (primeira corda) está uma terça maior acima da segunda corda; esta, por sua vez, está uma quarta acima da terceira, que estará uma quinta acima da quarta corda, configurando o seguinte esquema, em caso de uma tônica em Dó: Mi, Dó, Sol, Dó.

FIGURA.8- Afinação 2

16 É comum afirmar que a afinação das rabecas seja em intervalos de 5ªs, mas isso soa um pouco arbitrário, visto

que, além das afinações citadas neste trabalho, é possível criar afinações para o instrumento, segundo as intenções ou necessidades de cada músico ou cultura.

36 Esta afinação em um acorde maior facilita o desempenho do rabequista ao se acompanhar em cantos improvisados. Isso se dá, principalmente nos casos em que o rabequista canta improvisando ou em desafios com outros poetas, dando maior ênfase ao aspecto poético-literário que ao musical, criando pequenos interlúdios entre uma estrofe e outra do desafio, ou do "romance" 17 que está cantando/contando. Este é o tipo de afinação utilizada por Cego Oliveira, como podemos observar em suas gravações. Nelson dos Santos utiliza uma afinação própria que será descrita a seguir e difere um pouco das demais encontradas.

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