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Após a constatação das abusividades praticadas pelos fornecedores do mercado de compras coletivas, o Ministério Público pode, diante da gravidade das lesões ocasionadas, propor199 ações judiciais para impedir a continuidade dos atos e

reparar os danos ocasionados, estes que podem advir de violações a direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos.

Os direitos difusos são, de acordo com o artigo 81 do Código do Consumidor, os interesses indivisíveis de um grupo indeterminado de pessoas que estão

199 ADMINISTRATIVO. PROCESSUAL CIVIL. TELEFONIA. CONSUMIDOR. SERVIÇOS NÃO

SOLICITADOS. ALEGADA VIOLAÇÃO DO ART. 535, II, DO CPC. INEXISTÊNCIA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. DECISÃO ULTRA PETITA. NÃO OCORRÊNCIA. LEGITIMIDADE DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL CABÍVEL. DECADÊNCIA NO DIREITO DE RECLAMAR. ART. 26 DO CDC. INAPLICÁVEL. DANO MORAL COLETIVO. REVISÃO DO VALOR. SÚMULA 07/STJ. DEMAIS PENALIDADES. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. O Ministério Público está legitimado a promover ação civil pública ou coletiva, não apenas em defesa de direitos difusos ou coletivos de consumidores, mas também de seus direitos individuais homogêneos. Precedentes. (REsp 1203573/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 13/12/2011, DJe 19/12/2011)

conectadas por uma mesma relação factual. No caso, sempre que um site maquia os valores dos produtos, elevando-os para que o desconto pareça ser considerável, há o cometimento de publicidade enganosa, o que afeta a coletividade digital, já que todos os internautas são consumidores em potencial daquela oferta, e se configura como violação a um interesse difuso. Inexiste grupo específico de indivíduos lesados, o que caracteriza o fator indeterminado. Outrossim, todos estão ligados pelo mesmo fato, que é o ilícito consumerista.

No tocante aos interesses coletivos, que são parecidos com os difusos, mas caracterizados pelo fato que os lesados são determinados, fazendo parte de uma classe definida e ligados por uma relação jurídica base, há também violação nos grupos de compras coletivas. Quando os consumidores adquirem uma oferta e o produto não é entregue, como no caso das 8.500 (oito mil e quinhentas) pessoas que compraram200 um tablet pelo Groupon e não o receberam, há ofensa aos direitos coletivos. Todos estão unidos por uma relação contratual com a loja virtual e que fora indispensável para a concretude do negócio, visto que número mínimo de compradores é exigido. Além do mais, formam classe determinada, pois foi a coletividade que adquiriu a citada oferta.

Por último, os direitos individuais homogêneos, que são aqueles que, apesar de divisíveis, necessitam de tratamento coletivo, pois emanam de uma situação fática ou jurídica comum, também são violados pelo mecanismo de compras coletivas. Quando uma oferta é vendida, mas o fornecedor cria impedimentos para os consumidores coletivos, tratando-os com distinção e discriminação, há ofensa a direito individual homogêneo. Cada consumidor, de forma individual, sofreu com os desrespeitos repetidos de um único fornecedor. Contudo, mesmo a conduta sendo determinada e os lesados também, o direito confere a situação status de relevância social, tratando interesses individuais como coletivos, o que enseja a atuação do Ministério Público.

Diante de lesões como essas, o Ministério Público pode, nos termos que preconiza o artigo 82 do CDC e a Lei 7347/1985, ajuizar ação coletiva ou ação civil pública para defender os direitos coletivos em sentido lato, requerendo a cessação do ato e a reparação dos danos causados. A medida tem efeito preventivo e

200 Clientes reclamam de atraso de tablet vendido em site de compras coletivas. G1.COM.BR

Disponível em: <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/09/clientes-reclamam-de-atraso-de- tablet-vendido-em-site-de-compras-coletivas.html> Acesso em: 24 nov. 2012

repressivo, pois acaba com a conduta lesiva e impede que novas pessoas sejam vítimas.

Por meio dessas ações, o órgão ministerial move, em nome próprio, a máquina do Poder Judiciário para responsabilizar os sites de compras coletivas pelos ilícitos perpetrados. Esses instrumentos se mostram úteis, uma vez que defendem indiscriminadamente interesses de todos os consumidores, principalmente daqueles que individualmente, por desacreditarem na eficácia da justiça, não buscariam seus direitos. Há defesa ampla, aumentando o acesso à justiça e trazendo economia processual. Evita-se que milhares de ações idênticas sejam ajuizadas.

Outro ponto importante é a questão da competência para analisar a matéria. De acordo com o CDC e a Lei da Ação Civil Pública, o juízo competente será o foro do local do fato ou, se o dano tiver sido nacional ou regional, na capital do estado ou no Distrito Federal. Nas compras coletivas, como são veiculadas na internet, os danos são quase sempre nacionais, tornando competentes os juízos da capital de todos os estados, bem como legitimando todos os órgãos ministeriais. Como resultado dessa possibilidade, a coisa julgada do litígio terá efeitos erga omnes, sendo oponível a todos e atingindo a coletividade consumerista por completo.

A decisão abarcará todo o país. Se há uma ação contra uma propaganda enganosa, ela deve ser cessada indiscriminadamente. Não haverá como o site veicular a mesma oferta de forma distinta para os consumidores. Todos serão beneficiados, restando apenas a cada um, de forma individual, buscar a liquidação da sentença.

A condenação, nos casos de direitos coletivos e individuais homogêneos, geralmente é genérica, declarando a existência do ilícito e a responsabilidade do réu. Resta ao consumidor executar a sentença e ver seus prejuízos reparados integralmente. Caso haja na ação coletiva, mais precisamente na ação civil pública na defesa de direitos difusos, condenação líquida dos fornecedores, o dinheiro será revertido para um fundo de direitos difusos que é gerido por um Conselho Federal e terá de ser aplicado na reparação dos danos causados à coletividade consumerista.

Essas medidas são, diante da massificação das relações das compras coletivas, importantes para a tutela preventiva dos consumidores, eis que, movimentando apenas uma vez a máquina judiciária, será possível refutar os abusos praticados no mercado digital e permitir a completa reparação dos danos. A

coletivização a cargo do Ministério Público reduz litígios desnecessários, amplia a defesa dos consumidores e traz isonomia no tratamento dos direitos, em que os benefícios afetarão todos, independente de se localizarem no território que órgão ministerial tem atribuição. Entretanto, para que este mecanismo seja realmente eficiente, não se deve apenas ter a força do Ministério Público, este é apenas o órgão provocador. É indispensável a atuação conjunta do Poder Judiciário, sendo este órgão capaz de tomar medidas que realmente servirão como profiláticas contra os abusivos praticados no mercado de compras coletivas.

Belgede Mesut TELEŞ (sayfa 32-38)

Benzer Belgeler