Das investigações e estudos empreendidos sobre práticas educativas, essencialmente os desenvolvidos em casas de acolhimento, pode-se sintetizar: - o tempo, como fator de evolução e transformações culturais e históricas nas relações e reestruturações entre cuidadores e crianças abrigadas que acarretam mudanças significativas nas práticas disciplinares e educativas no interior dos mesmos;
- das primeiras leituras empreendidas, abstraí que as representações que os pais têm de sua própria infância - e das crianças que estão sob seus cuidados -, devem ser consideradas e vinculadas ao meio social e cultural dos adultos em relação às crianças; pois, o determinante mais significativo para a prática abusiva é que pais severos vivenciaram punição quando crianças – o “ciclo da
violência”apontado por vários autores – Que realidade existirá no mundo do abrigo considerado como um espaço de intersecção entre pais biológicos – crianças abrigadas – adultos cuidadores?
- inúmeros sentidos estão implícitos nas ações ou práticas educativas; subjaz a essas práticas a leitura que o adulto faz do mundo, que podem justificar as escolhas disciplinares ou educativas em suas tarefas cotidianas;
- a empatia, como um fato: a importância de seu cultivo no ambiente do abrigo; - a percepção positiva que as crianças abrigadas desenvolvem acerca das casas de acolhimento, devido ao suporte afetivo que os cuidadores dedicam às mesmas;-
- crianças continuam sendo vítimas de maus tratos em alguns abrigos, e, consequentemente, de práticas coercivas, principalmente naqueles que continuam preservando a filosofia dos antigos orfanatos;
Desses estudos e pesquisas captei, também, algumas recomendações: - que se promova nos abrigos um ambiente próximo de uma família;
- as crianças não podem ser mais objeto de ações repressivas que choquem com o respeito à condição humana;
- especial atenção deve ser dada às distâncias e embricamentos entre a Lei e o vivido nos abrigos;
- a falta de diálogo entre pais de origem/escola/juízes/conselheiros, vindo a promover a instauração da abrigagem;
- o Poder Público, assumindo um discurso de “incapacidade da família em proteger e educar seus filhos”: de um lado, destitui os deveres dos pais em relação aos filhos e de outro, deflagra-se a imunidade da escola diante de suas ações e pré-conceitos, práticas que a Lei quer desconstruir, constituindo embates para a educação e o diálogo.
- a institucionalização do sujeito dito mal comportado acaba por enveredar para práticas discursivas e não educativas;
- aos professores formadores – principalmente do Curso de Pedagogia - , com bases na Resolução nº 1/2006 do CONANDA, de incluírem na pauta de formação
a necessária discussão sobre as crianças em situação de risco, mesmo que no momento não tenham conhecimento aprofundados sobre o assunto;
- na realidade vivida, indefinição do real papel do abrigo em suas práticas educativas, diante da criança, da comunidade e do Estado.
Sejam quais forem as condições humanas, as histórias de vida, as representações, o meio social e cultural, a estruturação familiar etc.; o que temos diante de nós, a existência de casas de acolhimento, é um fato que se constituiu na sociedade em que vivemos e como um fato existencial, é tão necessário enquanto existirem crianças que precisam ser protegidas do mundo, porque este lhe fora hostil.
Para Hannah Arendt, o homem é um ser singular, que age em seu existir em pluralidade e, como tal, ele é um ser de possibilidade e de comunicação e,
“tudo o que os homens fazem, sabem e experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá talvez verdades, que ficam além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos.” (Arendt, 2008, p. 11).
A faculdade de poder falar, de sermos inteligíveis conosco mesmos e com os outros, como nos sugere Arendt, é um convite ao diálogo. Gadamer nos sugere que está no diálogo a força de superação do homem em sua singularidade.
Em especial no abrigo ou em casas de acolhimento, o diálogo é importante e necessário, por envolver vidas e destinos humanos na maioria dos quais estão na fase de desenvolvimento e formação. Agir ‘como homens no plural”, significa que agentes educadores – representados pelo poder público, pais, cuidadores e demais profissionais que direta e indiretamente desempenham essa função – devam estar abertos a discussões que promovam ações significativas, na observância e interpretação da Lei em vigor – o Estatuto da Criança e do Adolescente -, para garantir um espaço existencial interativo, capaz de suprir as
necessidades básicas e promover melhor qualidade de vida às crianças e adolescentes abrigados.
As palavras de Arendt encontram em Freire (1979) profunda significação no sentido do diálogo - principalmente em assuntos educacionais - , quando ele se refere que todas as ações e práticas educativas implicam um ato de responsabilidade e compromisso dos agentes educadores, no sentido de possibilitar a construção e apropriação de novos saberes, novas práticas e hábitos sociais.
O que precisamos, diante da existência do abrigo como um fato, é de saber sobre ele, nos apropriar do que se constitui sua problemática, para que novas práticas e hábitos sociais sejam implantados nesse ambiente sempre que necessário, que propiciem condições de vida mais humanas a essas crianças,novas ações que deverão ser garantidas pela própria sociedade política, ou nas palavra de Arendt, pelos homens em pluralidade’’.
Minha intenção em adentrar em uma casa de acolhimento, portanto, para verificar como os adultos cuidadores compreendem suas práticas educativas, é tornar esse ‘encontro’ um espaço de reflexão para se compreender o papel dos cuidadores como agentes formadores e educadores capazes de agenciarem uma nova visão de mundo a essas crianças e adolescentes.
CAPÍTULO 3