Assim que chegou ao Japão, Cabral assumiu o cargo de novo superior universal da missão japonesa tendo encontrado Torres já muito debilitado na ilha de Shiki210. Reuniu então alguns dos padres que se encontravam em Shimo e promoveu uma Consulta, apenas um mês após sua chegada. Estavam presentes nela os padres: Cosme de Torres (apesar de estar com saúde extremamente fragilizada conseguiu presenciar a Consulta), Gaspar Vilela, Baltasar da Costa, Alessandro Vallareggio, Melchior de Figueiredo, Giovani Battista de Monte, Organtino Gnnechi-Soldo, Baltasar Lopes e os irmãos: Luís de Almeida e Jácome Golçalves.211
Fróis, na sua História de Japam, afirmou que Cabral promoveu tal encontro para comunicar-lhes as “ordens vindas do provincial da Índia”, contudo não explicita quais. Cabral por sua vez contou na sua carta de 1571 quais eram as tais ordens:
[O padre Visitador212] mandome expressamente que de todo se tirassem qua as sedas e
fausto e a [chatinaria] se moderasse de maneira (...) que não ouvesse mais que a boamente podese gastar para conforme a pobreza da Companhia nos sostentassemos.213
209 Constituições da Companhia de Jesus, VII, cap. 3, § 622. In:LOYOLA, Ignácio de (santo),
Constituições da Companhia de Jesus e normas complementares, São Paulo: Loyola, 1997.
210 FRÓIS, Luis, História de Japam, volume II,Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1981 (1597). 211 CORREIA, Pedro Lages Reis, op. cit., (2007).
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Cabral afirmou na mesma carta, contudo, que todos foram contra suas ordens, com exceção do padre João Batista e de Cosme de Torres. Este, por sua vez, teria dito que tais costumes foram se introduzindo dentre os missionários contra sua vontade. Os outros padres, por sua vez:
Me dizião que tirando as sedas era cerrar a porta à conversão destas partes porque como os japões não olhavam senão para ho exterior como não trouxéssemos sedas e andasemos vestidos de preto que não somente nenhum senhor gentio mas nem os christãos nos verião e outros incomvenientes fundados no amor próprio e demasiada soltura que já estava introduzida e nem bastava dar lhes rezões.214
Fróis não esteve presente na Consulta por estar em Miyako. Cabral, contudo, contou que quando soube que tanto Fróis quanto Organtino (que após chegar ao Japão acompanhado de Cabral foi para a região de Miyako trabalhar junto de Fróis) usavam quimonos de seda que teriam ganhado de um cristão da região, escreveu para ambos pedindo para que não usassem tal roupa, pois seria contra a “obediência e pobreza” professada por eles, “mas a resposta que tive disto foi de cada hum sua carta em que me
punhão as mãos e tratavão como eu mereço”.215
Tal comportamento parece bastante estranho de dois jesuítas para com seu superior, mas independente de Cabral ter ou não exagerado na tinta o importante a ser notado é que Fróis não concordara com tal ordem e fazia uso do tecido, proibido inclusive por ordem do então visitador. Não é à toa, portanto, que Fróis não tenha especificado quais eram as tais ordens trazidas por Cabral na sua História de Japam.
A carta de Cabral, transcrita em parte acima, data de um ano após a sua chegada. Temos notícias, contudo, que apesar da recusa dos padres e irmãos, citada pelo superior em sua carta, a ordem permaneceu até o fim de seu governo e inclusive foi confirmada por Valignano após sua primeira visita. Em uma passagem de sua História, Fróis contou de quando foram visitar Nobunaga em Mino no ano de 1572,216 o general teria dito que
213 Francisco Cabral. Carta ao Geral da Companhia. 05 de setembro de 1571. In: CORREIA, Pedro Lages
Reis, op. cit., (2007), p. 70.
214 Francisco Cabral. Carta ao Geral da Companhia. 05 de setembro de 1571. In: ibid, p. 71. 215 Francisco Cabral. Carta ao Geral da Companhia. 05 de setembro de 1571. In: ibid, p. 71. 216 Estavam presentes neste encontro Francisco Cabral, Luis Fróis e dois irmãos japoneses.
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queria dar de presente aos padres vestidos de seda, mas parecia pouco próprio já que só vestiam “pano preto”217.
Sabemos que Cabral criticava o uso de seda para qualquer fim, mesmo quando fossem visitar personalidades da elite. Ele relatou inclusive que quando partiu de Miyako para ir ver Nobunaga, todos pediram a ele que mudasse seu traje e vestisse seda senão algo de muito ruim poderia acontecer, mas ele “quis ir mais confiado em Deos e
na obediência, pola qual fazia aquella viagem, que nos meos que me davam”218. Assim foi com sua “roupeta e coroa” e nada aconteceu a ele e até Nobunaga e o Cubosama219 fizeram honras e favores, e todos, cristãos e gentios, ficaram admirados, estando ele pobremente vestido.
As tais honras citadas foram relatadas em outra carta e até mesmo por Fróis, na sua História, onde conta que Nobunaga teria dado uma carta a eles na qual pedia para que todos os senhores os abrigassem bem e todos para quem os padres mostravam as cartas ficavam admirados por Nobunaga não fazer isso com ninguém.220
Outra mudança promovida durante o superiorato de Cabral diz respeito à ênfase dada ao estudo da língua japonesa pelos padres e irmãos. Cabral jamais afirmara que tal estudo seria irrelevante, mas ao contrário de Cosme de Torres, que enfatizou por diversas vezes o tempo dedicado ao estudo do idioma, Cabral não faz menção ao assunto. Tal falta poderia não ser uma evidência tão certa, uma vez que sabemos que parte das cartas perdeu-se, não fosse pela contundente crítica feita nos anos posteriores por Alexandre Valignano.
Numa correspondência com o Geral da Companhia, Claudio Acquaviva, em 1595221, Valignano afirmou que um dos princípios que Cabral tinha no governo da missão no Japão era:
Que la lengua japónica ni se havia nunca de aprender bien por los nuestros, a lo menos para poder llegar a predicar em japón, ni se havia de aprender por arte. Y assí em treze
217 FRÓIS, Luis, História de Japam, volume II, Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1981 (1597). 218 Francisco Cabral. Carta a um secular de Kochinotsu. 29 de setembro de 1572. In: GARCIA, José
Manuel (ed.), op. cit., p. 338.
219 Refere-se ao então xogum.
220 FRÓIS, Luis, História de Japam, volume III, Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1981.
221 Valignano afirma não ter falado antes das coisas que contará na carta por ter retirado Cabral do cargo
80 años que fue superior de Japón, ni él la aprendió (...), ni procuro que se heziesse alguna diligencia para se reduzir a arte.222
Cabral, por sua vez, apesar de não afirmar que tais estudos deveriam ser abandonados, demonstrou ter outras prioridades por ser o japonês uma língua de grande dificuldade para um europeu aprender. Ao defender que os nativos é que deveriam fazer a pregação ele explica: “la predicación sino fuere de los naturales no puede aver de
aquí a muchos annos quién lo pueda saber porque es la lengua del Jappon tan dificultosa”.223
A crença de que os europeus demorariam muitos anos para conseguirem falar japonês teria, portanto, feito com que o superior negligenciasse tais estudos. Sua opinião, por sua vez, não era infundada uma vez que mesmo Luis Fróis, considerado o melhor conhecedor do idioma japonês até então, não se arriscava a abordar não conversos em público e mesmo dentre os cristãos demonstrava dificuldade em se comunicar.224
O primeiro missionário a ter um bom conhecimento do japonês foi o padre João Rodrigues (1561-1633) que possui uma história ímpar dentre os missionários jesuítas. Tendo chegado ao Japão com apenas 16 anos (em 1577), iniciou seu noviciado em Nagasaki, tendo, portanto, começado seus estudos de japonês ainda garoto. Posteriormente foi chamado por Toyotomi Hideyoshi para ser intérprete na sua corte onde, a partir de então, ficou conhecido como João Rodrigues Tçuzu, ou seja, o intérprete. Rodrigues foi também o responsável pela confecção da primeira gramática do japonês em português, cuja primeira edição data de 1608.