O quadro epidemiológico da dengue, em Uberlândia, foi estabelecido a partir da abordagem ecoepidemiológica de Forattini (1996), com uma visão totalizadora do espaço social (BARRETO, 1982; SILVA, 1985; SILVA JR., 1995; PAIM, 1997; BARATA et al., 1998), por meio da incidência de casos novos da doença e da infestação por Aedes aegypti e
Aedes albopictus, utilizando-se os métodos de levantamentos vetoriais (Índice Predial e Índice
de Breteau), nos anos de 2003, 2004 e 2006. Já para os anos de 2007, 2008, 2009 e 2010, usou-se apenas o índice predial, com a espécie Aedes aegypti (essa decisão justifica-se pela ausência de levantamento do Índice de Breteau).
Os dados da infecção por dengue foram obtidos junto à Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia (MG) através do programa DATASUS. Para o estudo, foram selecionados somente os casos diagnosticados por meio de exames laboratoriais, nos anos bases de 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010. Para efeito de análise, foi considerada a data na qual o indivíduo relatou os primeiros sintomas da doença, como o momento efetivo da infecção. Os coeficientes de incidência foram calculados de acordo com a definição da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS, 1991):
Coeficiente de Incidência = Nº de casos novos de dengue X 10.000 População exposta ao risco
Considerou-se população de risco o número total de habitantes da cidade e de cada uma das unidades espaciais pesquisadas (setores e bairros). Todos os dados populacionais foram oriundos da Secretaria Municipal de Planejamento de Uberlândia. Os coeficientes de incidência foram expressos para cada 10.000 habitantes.
Os coeficientes de incidência da dengue na população foram avaliados de acordo com as seguintes variáveis: os anos de 2003 a 2010, as estações (seca e chuvosa), os setores de habitação (Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro) e os bairros por setores. Em Uberlândia, as estações secas e chuvosas não se apresentam bem definidas ao longo de um determinado período, por esse motivo, e para ajustar os dados para o tratamento estatístico, houve a necessidade de uniformizar o período da estação seca, no intervalo entre abril a setembro e da estação chuvosa, no intervalo de outubro a março.
Informações sobre os índices de infestação por Aedes aegypti e Aedes albopictus foram obtidos no Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Uberlândia. Os índices de
infestação foram avaliados, de acordo com as seguintes variáveis: Levantamento de Índice (LI) e/ou Levantamento de Índice Rápido (LIRAa), para as espécies Aedes aegypti e Aedes
albopictus, seguindo a programação da semana epidemiológica estabelecida pela Secretaria de
Estado da Saúde de Minas Gerais, ajustada para os meses do ano (janeiro a dezembro) e estabelecendo, para análises, as estações secas e chuvosas.
O Índice Predial é a relação expressa em porcentagem entre o número de imóveis positivos e o número de imóveis pesquisados.
IP = Imóveis positivos X 100 Imóveis pesquisados
O Índice de Breteau é a relação entre o número de recipientes positivos e o número de imóveis pesquisados, corrigidos de forma que o resultado seja expresso para 100 imóveis.
IB = Recipientes positivos X 100 Imóveis pesquisados
O Índice por Tipo de Recipiente é a relação em porcentagem entre o número do tipo de recipiente positivo e o número de recipientes positivos pesquisados (para formas imaturas)
ITR = Total de recipientes positivos Tipos de recipientes positivos X 100
A utilização concomitante desses índices proporciona uma avaliação satisfatória da densidade vetorial, fornecendo um parâmetro razoável para a indicação do risco de transmissão de dengue, desde que os índices sejam adequadamente interpretados, (BRASIL, 2005).
O Quadro 2 descreve a equivalência entre os diferentes tipos de índices utilizados para medir a densidade vetorial de Aedes aegypti e Aedes albopictus. Como exemplo, uma escala 3 de densidade (OMS) significa que, através do índice predial (IP), 8% a 17% dos imóveis pesquisados estão infestados e pelo índice de Breteau (IB), de cada 100 imóveis pesquisados encontramos 10 a 19 recipientes positivos (BRASIL, 2005).
Quadro 2 - Relação entre os Índices Predial, Índice de Breteau e o Gráfico de densidade
Gráfico de densidade OMS Índice Predial Índice de Breteau
1 1 – 3 1 – 4 2 4 – 7 5 – 9 3 8 – 17 10 – 19 4 18 – 28 20 – 34 5 29 – 37 35 – 49 6 38 – 49 50 – 74 7 50 – 59 75 – 99 8 60 – 76 100 – 199 9 77 200 Fonte: OMS (1972).
3.6. Análise estatística
A primeira análise estatística realizada foi a verificação de normalidade ou não da distribuição dos dados através da prova “An analysis of variance test for normality” (SHAPIRO & WILK, 1965). Foram aplicadas aos dados a transformação logarítmica, a transformação através da extração da raiz quadrada dos valores (√ x) e a transformação através da inversão (1/x). Para a verificação da normalidade dos dados transformados, foi aplicado novamente o teste de variância ou o teste de Kolmogorov-Smirnov Goodness of Fit Test (SPSS) (SIEGEL, 1975). Os resultados apresentaram distribuição não-normal.
Em função dos resultados obtidos nas análises preliminares, foram aplicados aos dados da presente pesquisa somente métodos estatísticos não-paramétricos, com nível de significância de 0,05 para todos os testes.
Para avaliar a distribuição da incidência de dengue na área de estudo, bem como para verificar a existência ou não de diferenças significantes nos anos de estudo e nos setores, com relação às variáveis: infestação de Aedes aegypti e Aedes albopictus, incidência de dengue, incidência de dengue no período seco e chuvoso, foi aplicada a prova de Kruskal-Wallis. Para as variáveis de infestação de Aedes aegypti e Aedes albopictus, nos anos de 2003, 2004 e 2006, utilizando os dados de índice de infestação predial (IIP) e índice de Breteau (IB), e da pesquisa de Levantamento de Índice (LI) e Levantamento de Índice Rápido de Aedes Aegypti (LIRAa), foi efetuado o teste de Wilcoxon aos valores totais relativos às duas espécies.
Para a verificação de diferenças significantes das incidências de dengue entre os anos e entre os setores, foi aplicada a prova U de Mann-Whitney.
Para a verificação da existência ou não de correlações significantes entre as variáveis, infestação de Aedes aegypti e Aedes albopictus e infecção por dengue, e de ambas com as variáveis físico/químicos (médias mensais de temperatura, médias mensais de umidade relativa do ar, médias mensais de precipitação pluviométrica) e das variáveis socioambientais
(densidade populacional e densidade domiciliar), foi aplicado aos valores o Coeficiente de Correlação por Postos de Spearman (SIEGEL, 1975).