Iniciaremos então pela observação das ofertas interativas. O site da TV Câmara disponibiliza como dispositivos de recepção o streaming de vídeo – envio de pacotes de dados em tempo cronológico real que permite o acompanhamento da transmissão com certo atraso e
algumas pausas, mas confere a sensação de tempo presente – bem como a opção de assistir a programas gravados em dois formatos de vídeo diferentes, em alta (avi) e baixa (wmv) resolução, com a opção de download dos conteúdos.
Com relação à autonomia na escolha de consumo dos conteúdos, o portal, por sua característica de ambiência pautada na gramática da web, disponibiliza mais de 30 mil vídeos organizados hipertextualmente em categorias de gênero, ou alfabeticamente identificados a partir do título dos programas. Ou seja, o utilizador tem total autonomia na escolha dos programas que deseja assistir se considerada a base de repositório de conteúdo.
Ainda existe a opção de consumo concomitante à exibição na TV aberta, TV Câmara, por meio de um canal de transmissão principal (em alta resolução) e um canal de transmissão alternativo (em baixa resolução). Nesse caso, ao utilizar o portal apenas como suporte para consumo do conteúdo do Canal Televisivo, o telespectador perde sua autonomia e passa a acompanhar o fluxo. O telespectador não poderá utilizar o controle remoto para zappear por outros canais, como faria no suporte original da TV. Devemos sempre nos lembrar que o utilizador ou telespectador sempre terá a opção de navegar por outras páginas da web.
Dessa forma, podemos identificar dois modos de consumo, sendo o primeiro a reprodução do palimpsesto televiso e o segundo como um repositório de micronarrativas soltas, que poderão ser consumidas aleatoriamente sem o fio condutor imaginário, que agora será traçado pelo próprio utilizador. Nesse espaço, o utilizador pode construir a sua própria trajetória ou acompanhar as grades de programação vertical e horizontal transmitidas pelo canal principal. Isso é possível porque existe uma organização dos conteúdos de forma hipertextual, com menus e sistema de busca que facilitam a localização do programa desejado. Está disponível a grade semanal de programação do Canal Televisivo para que o utilizador possa acessar o seu conteúdo, localizando dia e horário dos programas de sua preferência. É possível, ainda, acessar um menu organizado por gênero (anexo I).
8.2 PROCESSOS DE INTERAÇÃO
Em relação aos processos de interação verificamos que a interação reativa, aquela relação entre a instância de recepção e o texto somente por meio das possibilidades disponíveis na máquina (KIELING, 2009), acontecerá apenas no consumo do canal principal, conservando sempre as características da televisão em seu processo comunicacional, já que o texto nas micronarrativas dos programas conserva-se inalterado.
Observamos que o telespectador, ao consumir o conteúdo em seu fluxo contínuo, poderá acessar as ofertas interativas interiores aos programas, inseridas em seus textos e assim participar dos processos de interação. O portal não apresenta mecanismos próprios da web para a interação-reativa. Disponibiliza apenas opções de canais de retorno, como envio de e- mails, que podem contribuir para a materialização das ofertas interativas interiores ao texto.
Já na interação mútua reativa, onde ocorre a relação entre sujeitos de produção e recepção no consumo e produção de sentido, poderemos considerar, mesmo admitindo uma participação assincrônica, alguns aspectos peculiares. A ambiência da TV Câmara na web oferece como canal interativo o direcionamento do utilizador para redes sociais – Twitter e Facebook – e uma opção de contato por meio do envio de mensagens que são elaboradas a partir de formulário eletrônico. A Figura 15 a seguir ilustra tais ofertas interativas.
Figura 15 – A TV Câmara na Web e as ofertas interativas.
Verifica-se então que, ao consumir o conteúdo da TV utilizando a web como suporte, o utilizador ou telespectador não poderá contribuir em tempo real, por meio de discursos produzidos na midiosfera, para a produção dos textos dos programas. É pertinente observar que aqui o Canal Televisivo segue seu fluxo contínuo e que por esse motivo seria inviável estabelecer um histórico de mensagens contendo comentários, por exemplo, como é comum aos textos disponíveis na web.
No entanto, ao consumir o texto de forma fragmentada, acessando programas disponíveis no repositório, as opções de compartilhamento nas redes sociais e comentários são individualizadas por programa e episódio e, dessa forma, haveria uma possibilidade de
espaço de construção simbólica ali mesmo, na página destinada ao consumo. Como ilustra a figura a seguir.
Figura 16 – Ofertas interativas no consumo fragmentado dos programas.
No entanto, o espaço para comentários aqui disposto não disponibiliza o histórico como acontece em blogs e redes sociais. O que nos chama a atenção nesse caso é que a opção de comentários é mediada, enviada à emissora e respondida individualmente. Aqui a instância de produção e distribuição exerce total controle sobre o conteúdo construído pelos sujeitos da recepção.
Por outro lado, o conteúdo do programa se torna completamente disponível para a população, sendo possível: baixá-lo, enviar o vídeo por e-mail em baixa e alta resolução, incorporar o vídeo a documentos diversos e compartilhar o conteúdo nas redes. O fato é que a interação mútua realizada na midiosfera é direcionada a outros espaços, ou seja, às redes sociais. Verifica-se, como mostra a figura a seguir, que a TV Câmara possui uma fan page no Facebook e uma página no Twitter.
Figura 17 – A TV Câmara no Facebook e no Twitter.
O controle remoto, nesse espaço, é substituído pelo cursor acionado pelo mouse ou a tela touchscreen, dependendo do dispositivo de recepção. O utilizador tem autonomia para acompanhar o Canal Televisivo, escolher gêneros ou programas navegando pelos menus, enviar conteúdos para serem comentados em seus espaços pessoais, em redes sociais, ou mesmo participar do processo de conversação disponível nas redes sociais da emissora.
Por outro lado, as limitações e peculiaridades tecnológicas da web podem interferir no acesso ao conteúdo do Canal Televisivo. Durante a análise do objeto percebemos que alguns navegadores apresentam problemas em relação à instalação do Windows Media Player, plugin específico necessário para visualização de conteúdos audiovisuais e única opção disponível no portal. Além dessa limitação, por diversas vezes encontramos queda de transmissão de dados, provocada por problemas técnicos.
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das mudanças relacionadas aos modos de apropriação de tecnologias, processos e conteúdos pelos sujeitos da comunicação apresentados até aqui e com base no objeto analisado, sobretudo na dissipação dos textos televisivos pela internet e em seu consumo e interação por meio de ambiências midiáticas formadas na web, podemos dizer que a concepção de Machado (2005), onde não importa o que acontece de fato na tela, mas o sistema político, econômico e tecnológico no qual se forjam as regras de produção e as condições de recepção, já não seria tão pertinente, se considerarmos o fato de que os atores sociais que fazem parte do processo de comunicação ganharam novos estatutos, ainda que relativos, de autonomia.
O cenário que se apresenta, ao contrário, demonstra que uma possível forma de preservação e de sobrevivência dos meios tradicionais é a sua capacidade de produção de conteúdo e também de produção de sentido. O conteúdo é a essência do meio, o seu ‘código genético’, aquilo que permanece e que o caracteriza independentemente da ambiência em que circula ou da interferência por novos atores sociais. Em nossa proposta metodológica, acerca da TV, verificamos que o conteúdo está intrinsecamente ligado à promessa do Canal Televisivo. E é com esse olhar que passaremos a revisitar as nossas hipóteses iniciais.
9.1 PRIMEIRA HIPÓTESE
Em nossa primeira hipótese compreendemos a TV na web como um conceito que nasce da intercontaminação entre um texto que é televisivo e um suporte de transmissão que é a internet. Dessa forma, uma mídia contaminaria a outra no momento em que a televisão é forçada a pensar numa produção de texto direcionada a um novo suporte, – internet como tecnologia de transmissão e web como ambiência que envolve recepção – que, imagina-se, seria obrigado a se reinventar desenvolvendo recursos que o tornem capaz de transmitir um conteúdo que não é de sua natureza.
Em nossa pesquisa percebemos que o Canal Televiso, TV Câmara, não sofreu adaptação significativa ao ser transmitido na web. A internet, nesse caso, é utilizada como suporte e a ambiência constituída na web estabelece uma extensão paratextual do Canal Televiso. Esse que carrega os elementos da promessa da emissora, que por sua vez reforça a própria promessa do órgão, a Câmara dos Deputados. A TV Câmara não parece esforçar-se, ao menos até o momento, para diminuir a duração de seus programas para que o suporte possa
transmiti-los. As janelas de exibição permanecem as mesmas dentro de seu fluxo contínuo. O Canal Televiso se apropria apenas esteticamente de alguns elementos de design comuns às ambiências na web ao desenvolver os objetos semióticos que compõem o seu texto: vinhetas, trilhas, videografismo.
Se os materiais produzidos para a web são normalmente mais curtos, para evitar a evasão do receptor, os conteúdos das micronarrativas dos programas da TV Câmara não sofrem adaptações para que sigam esse padrão instituído pelas condições técnicas do suporte, nem tampouco para adaptar-se às condições de recepção. Mesmo no consumo fragmentado, utilizando-se a ambiência como um repositório, a redução se dá apenas pela retirada dos breaks, conservando-se vinhetas de abertura, texto integral e vinhetas de encerramento dos programas.
É verdade que o suporte é obrigado a repensar suas condições técnicas de transmissão. Assistir ao Canal Televisivo na web pode tornar-se enfadonho em função dos diversos problemas técnicos apresentados durante o consumo. Assim como a TV em seus primórdios, quando o telespectador era surpreendido pela interrupção momentânea do sinal, o ‘chuvisco’ na tela ou, ainda, as angustiantes faixas horizontais pretas que se moviam na tela, a web apresenta algumas limitações ou incômodo ao consumo. Não podemos deixar de considerar que esta limitação sofrerá variações que dependerão, por um lado, da capacidade tecnológica do dispositivo de recepção e, por outro, da capacidade tecnológica dos meios de produção e distribuição. No entanto, a mídia web atenta ao aumento do consumo de conteúdos audiovisuais utilizando-a como suporte, segue buscando adaptar-se para receber e disponibilizar os conteúdos televisivos.
Na verdade, a web constitui um ambiente onde coexistem linguagens e softwares diversos que são responsáveis pela execução de tarefas específicas. Por exemplo, não existe um padrão único de navegador, linguagem de programação, plugin (software necessários para a leitura de conteúdos multimídia) ou tela no processo de consumo. As condições técnicas de recepção, ou seja, aquelas relacionadas aos dispositivos de recepção, são diversas. Dessa forma, as emissoras de televisão que se propõem a transmitir seus conteúdos na web devem investir também em tecnologias diversas para que possam alcançar a maior audiência possível. Produtores e distribuidores de conteúdo televisivo são convidados a direcionar o seu olhar para essas novas exigências como condição da conquista e manutenção desse público sujeito a uma oferta multimidiática.
Entretanto, as condições de recepção não se limitam aos dispositivos utilizados, mas aos processos comportamentais inerentes à sociedade contemporânea. Processos forjados por relações mediadas pela tecnologia sejam elas pessoais ou profissionais. A quantidade de movimentos que o indivíduo contemporâneo é convidado a realizar em seu cotidiano estabelece uma relação peculiar com o conceito de tempo21. Esse indivíduo dispõe de um tempo curto, entre uma e outra tarefa cotidiana, que vem sendo utilizado para o consumo de conteúdos diversos. Esse tempo reduzido para o consumo de conteúdos, sobretudo o audiovisual, começa a gerar uma demanda latente.
É nesse gap, ainda não preenchido pelo sistema fechado de produção e distribuição de conteúdos televisivos, que verificamos pistas para a elaboração de formatos adaptados, que se alimentam de textos já existentes (MCLUHAN, 1974), principalmente de gêneros e recursos de produção televisivos para responder a essa demanda de consumo e conquistar audiência. Conquista essa que se dará por meio de uma promessa (JOST, 2007) renovada e pelo estabelecimento de um contrato por adesão, que somente se afirmará quando houver estabilização no processo de consumo.
Nesse contexto, a web sendo reconhecida como um ambiente que, em princípio, oferece maior liberdade de criação e expressão, começa a apresentar propostas de canais que oferecem conteúdos audiovisuais com características peculiares, que surgem a partir da hibridação de formatos originários da televisão e que sofrem adaptações para serem consumidas na web. Um exemplo instigante é o canal Porta dos Fundos22 que se apresenta como “um coletivo criativo que produz conteúdo audiovisual voltado para a web com qualidade de TV e liberdade editorial de internet”. O projeto em menos de um ano de existência alcançou a marca de um milhão de inscritos e ganhou APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de “Melhor Programa de Humor para TV” (CANAL PORTA DOS FUNDOS, 2013).
21 O pesquisador do Inmetro, Ricardo Moretz Sohn (2000), afirma que o conceito de tempo sempre esteve
associado à noção de movimento. Ainda, segundo Sohn (2000), a primeira tentativa de medir o tempo surgiu no momento em que o homem passou de nômade a sedentário e, consequentemente, nasceu a agricultura. Era preciso identificar as estações do ano em função das colheitas. Certamente, a razão pela qual a palavra tempus do Latim significa estações do ano. No entanto, para o autor, “o tempo pode então ser concebido como a ‘distância’ que um determinado fato está em relação ao agora”. SOHN, Ricardo Moretz. Tempo, o que és tu? Disponível em: <http://msohn.sites.uol.com.br/tempo.htm>. Acesso em: nov. 2011.
Figura 18 – Canal Porta dos Fundos.
Verificamos que a página do canal Porta dos Fundos na web, diferentemente do portal da TV Câmara, é a instância primeira, ou seja, utiliza esse ambiente como suporte, tecnologia de transmissão e ambiência midiática (KIELING, 2009). O canal não possui uma grade vertical de fluxo contínuo, mas já começa a instituir uma horizontalização – estabelecendo dia e horário para a inclusão de novas esquetes – com objetivo de aumentar o número de visualizações para os seus conteúdos e assim conquistar uma audiência estável.
A proposta nasce de forma independente, desconectada de um grupo específico de mídia, no ambiente web e sem a necessidade da concessão de um canal – frequência de transmissão –, com uma promessa de conteúdo editorial de internet que pressupõe liberdade de expressão e independência dos grandes conglomerados de mídia. É preciso lembrar, no entanto, que não há atualização significativa na produção de seus textos. As esquetes – formato já conhecido pelo público consumidor por sua apropriação no teatro pelo standup comedy – com pitadas de sitcom americanos, são produzidas sob as lógicas da televisão tradicional e sofrem adaptações no tempo fílmico para atender a um perfil identificado de consumo, aquele já descrito anteriormente.
Se compararmos o caso ao deslocamento que empreendemos no conceito de Canal Televisivo, verificamos que o Porta dos Fundos não representa a promessa de uma emissora, mas de um grupo pretensamente subversivo que se propõe a ser reconhecido e conquistar audiência com lógicas operativas alternativas ao mainframe. No entanto, ao ganhar notoriedade nesse contexto alternativo de produção e distribuição de textos televisivos, a web, o canal é procurado pelo mainframe e seus integrantes passam a ser convidados por diversas
emissoras para entrevistas. Surge, então, uma inversão interessante. Elementos paratextuais migram para Canais Televisivos sendo originados em um canal que nasce na web.
O mainframe, por sua vez, verificando a adesão de uma audiência significativa a esse texto televisivo atualizado, tenta resgatá-lo para o seu palimpsesto. O próprio público consumidor ao aderir ao formato, mas reconhecendo aquele texto como sendo um texto televisivo, se manifesta por meio de comentários nas redes sociais, questionando o fato de o canal não fazer parte da TV aberta. Seria essa uma pista para uma possível adaptação do texto televisivo? Ou somente mais um modismo efêmero como citava Wolton (2007)? Por ora, apenas observamos o caso enquanto aguardamos a possibilidade de estabilização no processo de consumo, no entanto, compreendemos que essas experiências, mesmo constituindo alguma novidade, ainda estabelecem um vínculo com o Canal Televisivo.
9.2 SEGUNDA HIPÓTESE
Em nossa segunda hipótese, a de que o determinismo de que as técnicas tornam-se o sentido da comunicação pode ser relativizado a partir da compreensão de que técnica e sentido contaminam-se mutuamente. Percebemos que os agentes, produtores de sentido (VERÓN, 2004), operam na midiosfera (KIELING, 2009), nesse espaço de construção de valores, de trocas e tensões. A tecnologia, dessa forma, ao invés de subsumir com o sentido da comunicação, amplia esse processo cíclico que compreende a produção, reconhecimento e circulação de sentido (VERÓN, 2004). Ou seja, aproxima ainda mais indivíduos que buscam sentido na informação. Esse sentido, que cada vez mais se forma coletivamente, é o que provoca o efeito de onda na midiosfera, citado anteriormente, onde o processo de produção de sentido se expande para ambiências formadas em mídias diversas, buscando sempre o coletivo, e retornam realimentando o Canal Televisivo.
9.3 TERCEIRA HIPÓTESE
Nossa terceira hipótese considerava que os possíveis ajustes, se efetivamente verificáveis em relação ao texto televisivo para a web, tenderiam a modificar características que são pilares da televisão em sua concepção original, quais sejam as formas de produção, transmissão e consumo. Verificamos que ainda é muito cedo para se falar em adaptações significativas no sistema de produção do texto televisivo.
O suporte, esse sim, sofre ampliações, na medida em que surgem diversos dispositivos que possibilitam novas condições de consumo. No entanto, ao considerarmos a estrutura
paradigmática do texto televisivo, ou seja, o conceito de Canal Televisivo aqui proposto, encontramos pistas para a sua manutenção, mesmo admitindo-se acomodações e acoplamentos. Afinal, a promessa (JOST, 2007) se origina no Canal Televisivo, é ele que estabelece o vínculo afetivo com a instância de recepção, é ele que forma o hábito de consumo.
Parece-nos, ao menos por meio do objeto observado, que a web sofre a maior pressão pela atualização e que a demanda de consumo de textos audiovisuais, sobretudo do cinema e da televisão utilizando-a como suporte, estimula esse meio a uma adaptação tecnológica com vistas a torná-la, igualmente, em um meio massivo. A web, dessa maneira, se transformaria em suporte e espaço para a constituição de ambiências midiáticas, como verificamos na análise do caso TV Câmara. Enquanto isso, o palimpsesto ou Canal Televisivo admitindo-se as adaptações e considerando sua amplitude de recepção, tenderia a se fortalecer. No entanto, essas são apenas pistas observadas na fotografia aqui apresentada, admitindo-se sempre a possibilidade de surgimento de novos movimentos e novas acomodações.
Para finalizar a reflexão a que se propôs essa pesquisa e na tentativa de compreender qual seria a mudança na experiência de consumo provocada pelo acesso a textos televisivos em outros suportes, recorremos a uma metáfora23. Comparamos a promessa que permeia o Canal Televisivo ao ritual de oração do terço católico. O terço católico traz em si uma promessa. Os devotos da virgem Maria acreditam que cada conta que compõe o terço equivale a uma rosa e, ainda, que a cada terço rezado uma coroa de rosas é ofertada a Jesus e a Maria. A oferenda seria um caminho para a redenção. Dessa forma, a coroa é tecida por meio de amarrações entre as diversas rosas (contas) e esse processo é representado por um objeto semiótico que o materializa. Rezar o terço se constitui num apagamento do sujeito da enunciação, já que as diversas vozes se confundem, se alternando e convergindo em um movimento uníssono.
Imagina-se que uma senhora católica acostumada a rezar seu terço ao se deparar com um punhado de contas soltas, sem o cordão pelo qual se organiza, sequencia e estabelece o tempo entre cada etapa que o compõe, certamente, pelo hábito, continuaria a reorganizar as contas na mesma sequência, fazendo um pequeno esforço mental e empenhando-se para tecer sua coroa de rosas. Reproduziria, então, o mesmo ritual a fim de alcançar o prometido.
23 Na concepção de Proust (apud GENETTE, 1972, p. 42), uma “expressão privilegiada de uma visão profunda: