• Sonuç bulunamadı

Uma das atividades realizadas pelos psicólogos no CRAS corresponde aos encaminhamentos das pessoas atendidas para outros serviços socioassistenciais da rede, ao identificar que a demanda apresentada por essas será mais bem atendida pelos serviços ofertados pela UBS ou pelo CREAS, por exemplo. Em alguns casos, a pessoa continua sendo acompanhada pelo CRAS em conjunto com o outro equipamento para o qual ela fora encaminhada.

No entanto, todos eles relataram alguns aspectos que interferem ou inviabilizam essa prática, tais como: o desfalque da rede de atendimento socioassistencial; a falta de confiança na qualidade de atendimento prestado pelo equipamento; a não adesão das famílias ao profissional; e a dificuldade da população na locomoção ao serviço indicado. Aspectos que serão discutidos a seguir. Para Aline, a falta de profissionais em outros equipamentos, faz com que, muitas vezes, depois de um encaminhamento, a pessoa não receba o devido acompanhamento do serviço “desfalcado” para o qual fora encaminhada e pode até retornar para o CRAS. De modo que, fica um “vaivém” sem resultar em um progresso na situação da pessoa que pode estar em risco e provocando a descontinuidade dos encaminhamentos. Assim, o profissional ao encaminhar pode “perder a família”.

Às vezes não tem tanto suporte da rede. Tem uma rede? Tem uma rede grande, mas é uma rede também desfalcada. Você vê o CREAS [...] a equipe deles [...] é incompleta [...] Você não consegue dar continuidade [...] o caso não é para ficar aqui [...] você ia dar só um suporte, porque o acompanhamento é deles, então eles que vão ter que entrar com umas ações [...] O menino foi lá uma vez. Agora, “ah não, não vieram mais”. Mas, vai ter que voltar todo acompanhamento de novo, não dá mais pra ficar dentro daquilo [...] ela também tá em risco. [...] precisa de um maior suporte, mas lá não dá o suporte [...] Sabe umas coisas assim. Aí você fica... [...] então acho que são esses os problemas que dificultam e me dão angústia grande! ALINE

Além disso, Malu e Pedro relataram a demanda “maluca” dos psicólogos das UBS, que possuem apenas um profissional em cada unidade para atender uma grande quantidade de pessoas que buscam o atendimento. Assim, mencionaram que o CAPS está “desesperado” pelo mesmo motivo, que é um “coitado” (Pedro), dizendo que “as meninas lá sofrem também, é muito pouco pela demanda que tem” (MALU).

Uma das consequências disso foi apresentada por Thaís, abordando a grande quantidade de pessoas que procuram o CRAS por conta de dependência química e como é difícil encaminhá-las para a Saúde e deixar de acompanhá-las.

Internam quem tá muito grave e quem tá leve vai pra UBS, só que pra UBS não tem um grupo de apoio, pelo que eu vi ainda é bem frágil, assim... Então a pessoa não tem muito pra onde ir, não tem muito o que fazer, fica muito solto. Aí vem aqui, vem lá, vai no outro, vai... pra ver o que que dá pra fazer, né! Tem algumas pessoas que queriam internar, só que não tem onde internar. Tem um monte de confusão por conta disso. THAÍS

Desse modo, conforme Pedro apontou, em alguns casos, eles acabam acompanhando casos que deveriam ser acolhidos por outro equipamento. Além disso, ele e Malu relataram que, em algumas situações, a pessoa encaminhada encontra dificuldades para ir até o outro serviço, por causa da distância, do valor do transporte e até desiste do acompanhamento.

Thaís, ainda apresenta a dificuldade de encaminhar as pessoas, porque ela não confia na qualidade do serviço que será oferecido a elas.

[...] muitas vezes me pego não acreditando nos serviços que eu faço o encaminhamento. Uma vez, eu fiz um encaminhamento de uma família que eu acompanho pro CAPS, cheguei até a ir com a pessoa até lá, ela tava numa crise e ela não foi atendida, ela foi embora sem ser atendida. E eu já fico meio com o pé atrás, de achar que é meio ruim [...] Então assim, tem uma descrença às vezes nos serviços, então poderiam ser melhores. THAÍS [grifo da autora].

Outra questão apresentada por Aline e Pedro em relação aos encaminhamentos, é a dificuldade da família vincular-se ao (novo) profissional da rede, por não empatizar-se com ele. Assim, algumas voltam a insistir no atendimento do profissional do CRAS que fica em uma situação difícil.

[...] ela ficou muito aqui, contou uma coisa muito grave que acontecia na vida dela, falei “olha, você precisa de um serviço que te dê mais suporte, vou te encaminhar pro CREAS”, ela ficava ligando pra cá. Aí lá ela não criou vínculo com ninguém. [...] no final, eu acho que ela não veio mais aqui e ela não foi lá. Aí eu tentei acompanhar, só que assim, eu volto a acompanhar ela? Mas aí eu vou reforçar que o lugar dela é aqui e eu não vou poder dar conta do que ela está trazendo, que é muito grave. Coisa de ameaça de vida sabe, pelo tráfico, não tem condições. E aí... Acho que se perdeu. ALINE

Em síntese, o não funcionamento da rede intersetorial faz com que os profissionais sintam- se, por um lado, temerosos e angustiados por “abandonar” as pessoas em situação de risco diante da possível ineficiência ou do não suporte dos serviços, bem como da dificuldade de acesso ou de vinculação da família a eles. Nessa dinâmica, muitos casos “se perdem”, ou seja, as pessoas não voltam, deixam de ter o suporte de qualquer tipo de serviço. Diante disso, em alguns casos bem

pontuais, eles acabam mantendo o atendimento no CRAS, o que pode ser compreendido como um zelo pelas pessoas atendidas e pelo conhecimento da ineficiência da maioria dos encaminhamentos. Por outro lado, sentem-se sobrecarregados e ineficientes, pois reconhecem que a situação apresentada pela pessoa requer outro tipo de suporte diferente dos que o CRAS possui.

Além disso, pode-se compreender que a ineficiência das políticas sociais amarga tanto a vida da população em situação de vulnerabilidade quanto dos profissionais que acabam atuando como porta-vozes desse não funcionamento, das exigências que não podem ser cumpridas e que quando o são, tem o caráter meramente ilustrativo. O que gera o aumento e o agravamento das situações de vulnerabilidade social e também o desgaste do profissional, que fica na contramão tentando preveni-las. Aspecto que será aprofundado no item a seguir.

Benzer Belgeler