• Sonuç bulunamadı

Bölüm V – SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER

5.1. Sonuç ve Tartışma

Quando falamos em Estado, não estamos falando de uma entidade única. O poder público é um agente multifacetado. O Estado opera de maneira compartimentalizada, dividindo o trabalho em setores, departamentalizando funções e assim dissolve a responsabilidade da multiplicidade do mundo animal através dos diferentes órgãos públicos. Entretanto, isso acaba por causar a marginalização de muitas questões centrais para essa população.

Quando olhamos para os atores institucionais que possuem algum comprometimento em relação a população animal, entendemos que eles operam baseando-se em uma determinada classificação dos animais. Os parques, por exemplo, estão comprometidos com os animais considerados silvestres e que vivem dentro dos limites de seu território. Como unidades de conservação, eles operam com o objetivo de conservar espécies, ou seja, proteger os animais que são considerados nativos daquele ecossistema. Qualquer outro tipo de atendimento a outra categoria de animal, é tratada como um atendimento em caráter de exceção. Mesmo quando essas interações com outras categorias de animal são constantes, como a questão de animais domésticos adentrando os limites do parque, os conflitos são resolvidos de maneira informal, não há um procedimento ou diretriz oficial a se seguir, ou seja, são também entendidos como uma questão a se lidar de maneira improvisada, em caráter de exceção. O Setor de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde é um outro órgão público que possui vinculação com a população animal. Ele atende animais domésticos, porém com o viés da possibilidade desse animal ser hospedeiro de doenças. Os serviços de castração e atendimento veterinário, apesar de existentes, não são a principal preocupação do órgão.

Ao analisarmos essas múltiplas facetas pelas quais o Estado opera, vemos os cuidados relativos a população animal sendo empurrados para a margem por diferentes órgãos públicos. Assim, o Estado acaba por deixar várias bordas descobertas. Entendemos que existem algumas categorias de animais com os quais o Estado está comprometido, como os animais silvestres, nativos da fauna da região. Em um menor grau, o Estado também se compromete com animais domésticos sem tutores, ou seja, em situação de abandono. Entretanto, pelas estimativas do tamanho da população de animais nessas condições, seu alcance é mínimo. Há níveis de comprometimento e algumas ações direcionadas a população animal, contudo, essas

ações não abarcam, por exemplo, o problema crônico de animais domésticos abandonados como um todo, não há a intenção de ultrapassar ou superar o problema.

Outro fator pertinente, ao investigarmos os motivos pelos quais o Estado falha em atender a população animal, é o de que a própria instituição, assim como a sociedade, é perpassada pelo especismo. Portanto, os órgãos públicos e suas divisões foram criados seguindo uma lógica que tem como objetivo realizar a manutenção das estruturas necessárias somente para a vida humana. É realizada uma divisão do mundo animal em relação as problemáticas resultantes da interação deles com os seres humanos, como por exemplo: animais que podem nos trazer doenças, então devemos eliminá-los ou tratá-los e realizar um controle da população; animais que devemos multiplicar e matar para alimentação; animais que precisamos preservar agora, pois já extinguimos quase toda sua população; animais que nos prejudicam de alguma forma, então devem ser eliminados, etc. Essa divisão se baseia nos interesses do ser humano, enquanto que os interesses da população animal são sobrepujados.

O principal braço atuante do Estado quando um desastre ocorre é a Defesa Civil, que deveria atuar como um sistema nacional integrado. Esse órgão, como vimos no relato do representante da Secretaria Municipal de Defesa Civil de Teresópolis, não hesita em negar ter qualquer responsabilidade em relação ao atendimento da população animal, em qualquer situação, ao afirmar não ser uma de suas atribuições. Tanto o discurso, quanto a prática da Defesa Civil municipal é a de negação de vinculação com a questão animal. Essa é uma questão problemática, pois, em uma crise aguda, o Estado acaba por não realizar ações direcionadas a uma população presente em todas as esferas da vida social humana, com seus variados papéis no meio social e também não as incluí nos planejamentos existentes. Qualquer atendimento, novamente, é realizado em caráter de exceção, quando na realidade, a população animal e suas necessidades são uma constante em cenários de devastação.

O que depreendemos também do relato do representante da Secretaria Municipal de Defesa Civil de Teresópolis é que existe uma inconsistência na maneira de operar da Secretaria Municipal de Teresópolis em relação ao sistema nacional da Defesa Civil. Apesar de serem raras as menções sobre os animais em cartilhas e manuais, existe o Manual de Contingência da Família, elaborado pela Escola de Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro (ESDEC/RJ), em que se indica, embora não claramente, que a evacuação dos animais de estimação se realize juntamente com a família.

Figura 16. Página relativa às recomendações em relação aos animais de estimação do Manual de Contingência da Família

Fonte: Manual de Contingência da Família (ESDEC/RJ, 2013).

A Secretaria de Estado de Defesa Civil do Rio de Janeiro (SEDEC/RJ), em conjunto com a Escola de Defesa Civil são as responsáveis por capacitar e fornecer as diretrizes sobre como a base deve operar. Os modelos de referência e procedimentos em relação a população animal deveriam ser passados efetivamente para as defesas civis municipais que atuarão na ponta. Nesse sentido, entendemos que a Secretaria Municipal está trabalhando, de certa forma, desvinculada do sistema nacional, pois o representante da Secretaria nos afirma que não possuem recomendações para a população sobre o que fazer com seus animais ao realizar simulados de evacuação. A prática desenvolvida nos simulados realizados com a população é incompatível com a recomendação estadual, pois não é instruído que a população retire seus animais das casas, ou realizem os procedimentos descritos no manual, e nem são previstos receber animais nos pontos de apoio, local para onde a população deve ir temporariamente no caso de um alerta. Há aí uma incongruência. Frente a essa disparidade, lançamos alguns questionamentos que podem ser explorados em estudos futuros, como: Qual seria o alcance dos manuais estaduais para a base da defesa civil municipal? E qual o compromisso da base com a apreensão dos modelos e diretrizes elaborados pela defesa civil estadual?

A Defesa Civil é, essencialmente, o órgão que opera com o que é considerado como exceção, ou seja, com o desastre. O atendimento a certas categorias de animais é predominantemente entendido como prática de exceção pelo ente público. Assim, o total descomprometimento demonstrado pela base da Defesa Civil, em relação a população animal, acaba por legitimar a mesma postura dos outros órgãos públicos em relação a população animal. Se, quem é qualificado para atuar no sentido de solucionar uma crise, quando as bases da vida social se desestruturam, não está sendo efetivo em relação a atender as demandas da população animal; como qualquer outro órgão, que não é treinado para as práticas de exceção, seria capaz de solucionar a situação?

Com o fracasso do Estado em atender a população animal, na crise aguda, mas também na crise crônica, esse passa a ser um problema da sociedade civil. A sociedade civil, movida por motivos subjetivos e solidários, se organiza e passa a tentar atender mais satisfatoriamente a população animal. Essa problemática permanente gera tensões entre o Estado e a sociedade civil e questões emergem dessas fricções. Algumas delas de caráter estrutural, como a falta de estrutura física para abrigar o número de animais que precisam ser retirados das ruas. O poder público, em geral, dispõe de um abrigo municipal e este opera em superlotação integralmente. Os grupos da sociedade civil, quando possuem abrigo, também operam muitas vezes acima de sua capacidade, e quando não possuem, acabam por acolher esses animais dentro do espaço doméstico de seus integrantes. Há uma falta de locais apropriados e suficientes devido ao massivo número alcançado pela população de animais domésticos, resultado de uma crise crônica. Outra questão de caráter estrutural é a falta de incentivos e verbas destinadas a ações que prestigiem a população animal. O ente público realiza pouquíssimas campanhas e medidas, e virtualmente nada é direcionado a esses grupos da sociedade civil, mesmo quando realizam um trabalho significativo, consolidado e já reconhecido pelo Estado, como por exemplo, depois de receber um certificado de utilidade pública. Não há, nem mesmo, isenção de impostos para esses grupos sem fins lucrativos. Esses grupos organizados realizam o máximo dentro de suas capacidades, entretanto muitas vezes de maneira precária devido à sobrecarga de trabalho e falta de recursos. Essas são questões latentes do cotidiano dessa relação entre Estado e sociedade civil organizada.

Na ocorrência de um desastre, essas tensões se elevam e atingem um ponto máximo, pois, surgem então as questões conjunturais. O Estado, com o ônus dos desdobramentos da crise aguda, passa a negar sua responsabilidade em relação a população animal. O problema de animais abandonados aumenta, devido a desvinculação involuntária de muitos que não estavam previamente em situação de rua, mas que são separados de seus tutores na

desestruturação causada pelo desastre. A crise aguda faz o problema se tornar retumbante e os grupos da sociedade civil são deixados, sem apoio, para administrar a situação. Assim, acabam assumindo muito além de suas capacidades. Uma questão pública acaba se tornando um problema pessoal. Esses grupos contam com doações da população para realizar suas atividades, porém, passado o tempo, quando os holofotes da mídia vão embora, essas também se encerram, apesar de o problema se estender indefinidamente. Não podemos obliterar que estamos falando de seres vivos, que podem viver em média de dez a quinze anos, e que a legislação brasileira de Crimes Ambientais65 penaliza caso sejam maltratados ou abandonados.

A crise crônica se perpetua, devido a indiferença institucional, que falha em atender a população animal em sua complexidade e penaliza os grupos organizados ao jogar todo o ônus da responsabilidade da guarda de inúmeras vidas sobre eles. Com a sociedade civil sobrecarregada e o poder público omisso, esses animais acabam ficando suscetíveis. As tensões entre o Estado e a sociedade civil acabam por criar vulnerabilidade para a população animal, os deixando a mercê do próximo evento crítico que venha a ocorrer. É um ciclo vicioso, que tende somente a precarizar os atendimentos realizados pelos grupos organizados da sociedade civil, agravando o problema em seu caráter crônico e resultando, em última instância, no aumento do sofrimento animal.

Benzer Belgeler